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Hannah Arendt em Lisboa | Publico

11 de dezembro de 2018

Por Rui Tavares, para o “Publico”

Uma das coisas em que insisto perante os alunos é que não vejam as pessoas de que falamos — sobretudo e se forem autores, pensadores, artistas, políticos, cientistas e outros homens e mulheres célebres — como se fossem nomes numa enciclopédia.

Quando dou aulas, uma das coisas em que insisto perante os alunos é que não vejam as pessoas de que falamos — sobretudo se forem autores, pensadores, artistas, políticos, cientistas e outros homens e mulheres célebres — como se fossem nomes numa enciclopédia, mas antes como mulheres e homens que viveram como os humanos vivem: foram jovens, entusiasmaram-se, hesitaram, tiveram medo, apaixonaram-se e zangaram-se uns com os outros, e também não viam as pessoas à sua volta como figuras prontas a entrar nos livros de história mas como gente do seu tempo por quem tinham amor ou ódio, respeito ou amizade, antipatia ou empatia.

Como todas as banalidades que é preciso não ter medo de repetir, esta guarda dentro de si duas verdades importantes. A primeira é que embora nem todos os autores escrevam para o seu tempo, a nenhum é dado viver fora do seu tempo; e a realidade com que viveu é muitas vezes essencial para entender as ideias que teve, porque as manteve, ou porque as abandonou. A segunda, mais importante ainda, é que também a nós, mesmo quando nos deprimimos, assustamos ou desorientamos, nos é dada a oportunidade de contribuir com qualquer coisa de bom e útil para a humanidade. É bom não esquecer essa oportunidade e não deixar de a usar quando se apresenta.

Quando chegou a Lisboa, em janeiro de 1941, Hannah Arendt, que nascera em 1906, já tinha sido brevemente presa pelos nazis em 1933, era refugiada desde os 27 anos e apátrida desde os 31 anos. Tinha acabado de casar pela segunda vez, com o poeta Heinrich Blücher, e escapara in extremis da França ocupada com o seu marido e a sua mãe. Quem conseguiu passá-los, através do recurso a documentos falsos, foi um jovem de vinte e poucos anos que tinha lutado pelos republicanos na Guerra Civil de Espanha e que viria a ser o grande economista e historiador das ideias Albert Hirschman.

Repito: toda esta gente não era para Hannah Arendt (nem uns para os outros) a “filósofa” ou o “economista”. Eram a Hannah, o Heinrich e o Albrecht, mais um humano dos tempos sombrios a precisar de um visto e de uma passagem de navio para o exílio.

Hannah Arendt chegou a Lisboa sob a nuvem escura da notícia da morte do seu amigo Walter Benjamin, que se suicidara uns meses antes na fronteira entre a França e a Espanha, ao acreditar (supõe-se que erradamente) que não o deixariam passar até Lisboa. Os dois amigos não viriam a encontrar-se na capital portuguesa, nem nunca mais, mas Hannah e Heinrich transportavam consigo o manuscrito das Teses sobre a filosofia da história que Benjamin escrevera no início do ano anterior e que lhes enviara por segurança, pedindo que não fosse publicado (provavelmente, até que pudesse rever o texto). Das poucas coisas que sabemos que Hannah Arendt fez em Lisboa, além de lutar contra a depressão e esperar por papéis e passagens para Nova Iorque, foi ler o ensaio de Walter Benjamin, que ela e Heinrich decidiram tomar a responsabilidade de fazer publicar quando chegassem aos EUA.

Hannah Arendt falava pouco e quase nunca escreveu sobre a sua passagem por Lisboa (um dos seus discípulos, o diplomata brasileiro Celso Lafer, lembra-se de ela lhe dizer que descobrira conseguir ler e entender os títulos dos jornais em português — Arendt era uma boa latinista, além de falar francês, o que lhe facilitava a compreensão da nossa língua). Mas não devemos daí inferir que essa passagem tenha sido pouco importante. Foi-o para ela e deve ser para nós.

A passagem de Hannah Arendt não foi só parte do percurso que lhe salvou a vida e que lhe permitiu depois escrever algumas das obras mais importantes da teoria e filosofia política do nosso tempo — algumas das quais, como As Origens do Totalitarismo, estão permanentemente a precisar de serem redescobertas. Em meu entender, a influência da estada paralisante em Lisboa, do seu peso emocional, do seu desespero surdo, sente-se principalmente no extraordinário ensaio Nós Refugiados, que Arendt viria a publicar em 1943 e que deveria ser leitura comum pelo menos nas escolas europeias. Por sua vez, é o ter entendido, na sua pele de pessoa refugiada e apátrida, que a cidadania é o primeiro dos direitos — “o direito a ter direitos”, como ela lhe chamava — que esteve na origem da sua cada vez mais relevante filosofia dos direitos humanos.

Para nós, é importante lembrar Hannah Arendt precisamente como cidadãos, na dupla acepção da palavra: como cidadãos de Lisboa e de Portugal, e como humanos neste planeta, sujeitos de inalienáveis direitos à dignidade, à liberdade e a participar nas decisões que nos dizem respeito.

Hoje, segunda 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, às onze da manhã, a Câmara Municipal de Lisboa inaugurará um memorial a Hannah Arendt próximo ao lugar onde ela viveu na nossa capital, na Rua da Sociedade Farmacêutica 6b. O memorial ficará no larguinho, que espero que um dia se venha a chamar Largo Hannah Arendt, da esquina entre a Rua da Sociedade Farmacêutica e o Conde Redondo (declaração de interesses: a proposta do memorial foi do LIVRE, mas apraz-me dizer que foi aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Lisboa, e rapidamente implementada pela Vereação da Cultura de Lisboa).

Pelo que fica dito atrás, esta comemoração no espaço físico de Lisboa não é só um ato de justiça perante o passado; é um ato de esperança no futuro. A partir de agora, a cidade de Lisboa lembrará a quem ali se quiser sentar, descansar e refletir, as últimas palavras de Hannah Arendt em Nós Refugiados: “A Europa estilhaçou a sua alma quando deixou que os seus mais vulneráveis fossem perseguidos e escorraçados”. Não o esqueçamos nunca, para que não voltemos a perder a nossa alma.

O retorno dos brioches | Folha de S. Paulo

11 de dezembro de 2018

JOÃO PEREIRA COUTINHO, para a Folha

Assisto aos protestos de Paris e confesso que, pela primeira vez na minha pobre existência conservadora, não são as chamas reais que me assustam. São as chamas metafóricas que, nos jornais e na TV, condenam os protestos dos “coletes amarelos”.

Distinção importante: que na destruição em curso há banditismo em larga escala, ninguém duvida. São casos de polícia, não de política.

O problema, porém, está no tom geral com que o comentariado lida com o assunto: os “coletes amarelos” são subgente, não trabalhadores desesperados pela crise, pela pobreza ou pelo garrote fiscal em que vivem. O ideal, aliás, era Emmanuel Macron não os escutar e, se possível, prender todo mundo numa nova Bastilha.

Essa arrogância não é nova. É moda. Sessenta e dois milhões de americanos votaram em Trump? São selvagens, todos eles. Dezessete milhões votaram no Brexit? São selvagens, todos eles. Dez milhões votaram em Marine Le Pen?

Precisamente: todos eles. No pensamento mágico do comentariado, se insultarmos as pessoas com afinco, elas acabarão por desaparecer da paisagem.

É contra essa cegueira que Robert Eatwell e Matthew Goodwin se insurgem. Nos últimos tempos, por razões acadêmicas e pessoais, tenho lido o que posso sobre o fenômeno populista. Mas nenhum livro é remotamente comparável a “National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy”.

O principal objetivo dos autores é acabar com as fantasias (ou “mitos”, nas suas palavras) de que o populismo não passa de um fenômeno conjuntural, que rapidamente será ultrapassado.

Na cartilha otimista, a crise financeira de 2008 abalou as sociedades e fez brotar da terra os Trumps, os Farages, as Le Pens. A crise dos refugiados só agravou o problema.

Mas, assim que a economia melhorar e os refugiados forem integrados nos países de acolhimento, os populistas e seus seguidores voltarão ao buraco negro de onde vieram.

Essa fantasia só faria sentido se, antes de 2008, o “ethos” populista (uma celebração da “vontade geral” popular contra elites distantes ou corruptas) não estivesse já à solta pelo DNA das democracias.

Obviamente, estava. Sempre esteve, pelo menos desde finais do século 19. O que agora presenciamos é apenas o auge de uma tensão que faz parte da própria história da democracia: a tensão entre as massas e os seus representantes.

Por outras palavras: a democracia liberal só existe porque existiu um entendimento prévio de que o povo é parte do projeto, não o seu dono absoluto.

Como escrevia James Madison no “Federalista” (artigo nº 10), só o governo representativo pode impedir o poder destrutivo das “facções”. O povo vota; o representante, usando o seu melhor juízo, decide em nome do povo.

Esse compromisso, com acidentes de percurso, durou até meados do século 20, quando a Europa resolveu suicidar-se pela segunda vez. A ordem liberal que surgiu das ruínas entendeu que a paz tinha um preço: transferir para instituições transnacionais e supranacionais o essencial da decisão política, econômica e até cultural.

Azar: o compromisso foi quebrado e as massas, agora, apresentam a conta do prejuízo. Que fazer?

Concordo com Eatwell e Goodwin: tem havido entre as elites liberais uma espécie de “recusa da literalidade” (expressão minha, não deles). Essa recusa significa não aceitar que metade dos eleitorados nacionais (contas por alto) desejam realmente o que desejam: menos imigração; fronteiras reforçadas; devolução de poderes para a nação; respeito pelas suas identidades culturais contra agendas “politicamente corretas” que são vistas como uma imposição abusiva aos seus “modos de vida”.

Os votos não são apenas de protesto; são de afirmação. O que significa que as democracias liberais só podem sobreviver se estabelecerem um novo compromisso entre os “bárbaros” e os “iluminados”.

Um exemplo? A imigração. Como argumentam os autores, nenhuma sociedade aceita passivamente uma política de portas abertas. Mas nenhuma sociedade é sustentável, argumento eu, com trancas à porta, ao contrário do que Hillary Clinton sugeriu recentemente aos europeus para espanto dos seus companheiros de estrada.

Uma política de imigração realista tem em conta critérios de integração cultural, sustentabilidade econômica, necessidades laborais e viabilidade política. Negar isso é suicídio.

Saber se o suicídio será cometido pelas elites políticas tradicionais do Ocidente, eis uma pergunta a que o futuro dará resposta.

Mas, pelo tom dos comentários, é impossível não escutar a voz (apócrifa) de Marie Antoinette. As massas não tem pão? Que comam brioches.

E elas comeram.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

FSP 11.12.2018

Aos hesitantes | Bertold Brecht

10 de dezembro de 2018

Tradução: André Vallias

Você diz:
A coisa vai mal para nós.
A escuridão aumenta. As forças decrescem.
Agora, após termos trabalhado tantos anos, estamos
Em situação mais difícil do que no início.

O inimigo, porém, está mais forte do que nunca.
Suas forças parecem maiores. Tomou aspecto invencível.
Cometemos erros, sim, não dá mais para negar.
Nosso número diminui.
Nossos bordões estão em desordem. Uma parte das nossas palavras
O inimigo distorceu até ficarem irreconhecíveis.

O que está errado agora daquilo que dissemos
Alguma coisa ou tudo?
Com quem podemos contar ainda? Somos os restantes, arrancados
Do fluxo dos viventes? Vamos permanecer
Não compreendendo mais ninguém e por ninguém compreendidos?

Precisamos ter sorte?

É o que você pergunta. Não
Espere outra resposta além da sua.

1935

A Holocaust survivor tells her story | DW Documentary

30 de novembro de 2018

Margit Meissner conta aos jovens sobre o Holocausto e sua própria fuga dos nazistas.

por DW Documentary

Margit Meissner, de 96 anos, sobreviveu ao Holocausto e agora está fazendo tudo que pode para garantir que ele nunca seja esquecido. Meissner é uma voluntária muito ativa no Museu Memorial do Holocausto, de Washington D.C. e regularmente encontra jovens para contar sobre o genocídio dos judeus e como escapou por pouco dos nazistas, há mais de 75 anos. Margit Meissner também participa de um projeto do fotógrafo alemão Luigi Toscano, viajando pelo mundo, tentando documentar o maior número possível de sobreviventes do Holocausto. Não foi fácil para ela concordar com o pedido do fotógrafo – apenas ouvir a língua alemã ainda invoca memórias traumáticas para ela.

Vídeo em inglês.

A Shadow Over Europe | CNN

28 de novembro de 2018

Uma reportagem da CNN

Anti-Semitic stereotypes are alive and well in Europe, while the memory of the Holocaust is starting to fade, a sweeping new survey by CNN reveals. More than a quarter of Europeans polled believe Jews have too much influence in business and finance. Nearly one in four said Jews have too much influence in conflict and wars across the world.

One in five said they have too much influence in the media and the same number believe they have too much influence in politics.

Meanwhile, a third of Europeans in the poll said they knew just a little or nothing at all about the Holocaust, the mass murder of some six million Jews in lands controlled by Adolf Hitler’s Nazi regime in the 1930s and 1940s.

Those are among the key findings of a survey carried out by pollster ComRes for CNN. The CNN/ComRes poll interviewed more than 7,000 people across Europe, with more than 1,000 respondents each in Austria, France, Germany, Great Britain, Hungary, Poland and Sweden.

The poll was commissioned and completed before the killing of 11 people at a synagogue in Pittsburgh — the deadliest ever attack on the Jewish community in the United States.

The poll uncovered complicated, contrasting and sometimes disturbing attitudes about Jews, and some startling ignorance.

Forgetting the Holocaust?

About one European in 20 in the countries CNN surveyed has never heard of the Holocaust, even though it’s less than 75 years since the end of World War II, and there are still tens of thousands of Holocaust survivors alive today.

Lack of Holocaust knowledge is particularly striking among young people in France: One out of five people there between the ages of 18 and 34 said they’d never heard of it.

In Austria — the country where Hitler was born — 12% of young people said they had never heard of the Holocaust. Austria also had the highest number of people in the survey saying they knew “just a little” about the Holocaust. Four out of 10 Austrian adults said that.

Across Europe, half of respondents said they know “a fair amount” about the Holocaust, while only one out of five people said they know “a great deal.”

(Americans do not fare any better: A survey carried out on behalf of the Claims Conference earlier this year found that 10% of American adults were not sure they’d ever heard of the Holocaust, rising to one in five millennials. Half of all millennials could not name a single concentration camp, and 45% of all American adults failed to do so.)

But Europeans do believe it is important to keep the memory of the Holocaust alive.

Two-thirds of Europeans said that commemorating the Holocaust helps ensure that such atrocities will never happen again. That figure rises to 80% in Poland, where the Nazis established Auschwitz, the deadliest concentration camp of all.

Half of Europeans said commemorating the Holocaust helps fight anti-Semitism today.

But at the same time, a third of Europeans said that Jews use the Holocaust to advance their own positions or goals. The same number disagreed and nearly a third of respondents expressed no opinion.

Complex relations

Attitudes sharpened when it comes to the relationship between the Holocaust, Israel, Jews and anti-Semitism.

A slight but solid majority of Europeans — 54% — said Israel has the right to exist as a Jewish state, with the figure rising to two-thirds in Poland.

A third of survey respondents believe that criticism of Israel tends to be motivated by anti-Semitism, while only one in five said it does not.

Nearly one in five said anti-Semitism in their countries was a response to the everyday behavior of Jewish people.

However, a third of people CNN surveyed said that Israel uses the Holocaust to justify its actions, with half the respondents in Poland agreeing. Only one in five disagreed.

A third of Europeans said supporters of Israel use accusations of anti-Semitism to shut down criticism of Israel, while only one in 10 said that was not true.

A third of Europeans said commemorating the Holocaust distracts from other atrocities today, with higher than average numbers of Germans, Austrians, Poles and Hungarians stating that.

And while many people said anti-Semitism is a growing problem in their countries — to the extent that 40% said Jews were at risk of racist violence in their countries and half said their governments should do more to fight anti-Semitism — substantial minorities blamed Israel or Jews themselves for anti-Semitism.
More than a quarter of respondents (28%) said most anti-Semitism in their countries was a response to the actions of the state of Israel.
And nearly one in five (18%) said anti-Semitism in their countries was a response to the everyday behavior of Jewish people.

“I’m not anti-Semitic, but…”

Few people said they personally have an unfavorable attitude toward Jews. Across the seven countries in the survey, one in 10 people said they did — although the figure rises to 15% in Poland and 19% — about one in five — in Hungary.

In every country polled except Hungary, significantly more people said they had a favorable opinion of Jews than an unfavorable one. (In Hungary, favorable topped unfavorable 21% to 19%, with the rest saying they had neither a favorable nor unfavorable view.)

The poll also put a spotlight on European attitudes toward other minorities.

While 10% of Europeans admitted they had unfavorable views of Jews, 16% said they had negative views of LGBT+ people, 36% said they had unfavorable views of immigrants, 37% said that about Muslims, and 39% said it of Romani people.

But while the number of Europeans openly admitting negative attitudes towards Jews was relatively low, CNN questions about whether traditional anti-Semitic stereotypes still resonate across the continent found clear evidence that they do.
In Poland and Hungary, about four out of 10 people said Jews have too much influence in business and finance around the world.
Roughly one out of three people there said Jews were too influential in political affairs around the world, and more than a quarter of Poles and Hungarians said they had too much influence on the media.

A third of Austrians said Jews have too much influence in finance, while a quarter of French and German respondents said so.

About one in five people in all three countries said Jews had too much influence in media, and a quarter said they had too much influence on wars and conflicts.

Numbers

The belief in Jewish power runs in parallel with enormous overestimates of the number of Jews in the world.

About two-thirds of the respondents in the survey guessed too high when asked what percentage of the world is Jewish, and similar numbers got the answer wrong for their own countries.

A quarter of Hungarians estimated that the world is more than 20% Jewish, and a fifth of British and Polish respondents said so.

They were off by a factor of 100. About 0.2% of the world’s population is Jewish, according to the Pew Research Center’s Global Religious Landscape study.

They were off by a factor of 100. About 0.2% of the world’s population is Jewish, according to the Pew Research Center’s Global Religious Landscape study.

Four out of ten respondents in the survey thought their own countries were between 3% and 10% Jewish. In fact, Israel is the only country in the world where more than 2% of the population is Jewish.

The overestimates came even as majorities or near-majorities in every country CNN polled said they were not aware of ever having met a Jewish person. Two-thirds of Germans, Austrians and Poles said they didn’t think they had ever socialized with a Jew, while about half of people in Britain, France, Hungary and Austria said the same.

ComRes interviewed 7,092 adults online in seven countries between September 7 and September 20 2018 (Great Britain, 1010; France, 1006; Germany, 1012; Poland, 1020; Hungary, 1019; Sweden 1018; Austria, 1007). Data was weighted to be representative of each country based on age, gender and region.

Estudantes marxistas, os novos inimigos do Governo chinês | El País

21 de novembro de 2018

Pequim repreende aliança entre trabalhadores e universitários ideologicamente ultraortodoxos

Pequim
.

Xiao Lan (nome fictício) começou a sentir curiosidade pelo marxismo como doutrina na escola, quando caiu em suas mãos o romance Germinal, de Émile Zola. O monumental relato da greve de mineiros na França do século XIX cativou sua imaginação e seu senso de justiça. Ao iniciar uma faculdade de ciências em uma das grandes universidades de Pequim, entrou na associação de estudantes marxistas, um dos grupos de atividades extracurriculares que podem ser encontrados em qualquer universidade na China.

Com o grupo, Lan estudou as obras originais de Marx, Lênin e Mao Tsé-Tung. Durante o curso, esses estudantes – muitas vezes sob o olhar zombeteiro de outros colegas, para os quais seu interesse na ideologia de Karl Marx era uma amostra de excentricidade um pouco ridícula – ajudaram os trabalhadores das lanchonetes universitárias a limpar mesas, tomaram conta de seus filhos e escutaram as histórias dos trabalhadores imigrantes da construção.

“Quando comecei a ser consciente da situação dos trabalhadores me transformei em ativista. Sou filha de uma família de operários, mas até então não havia parado para pensar”, diz.

Lan agora vive tempos conturbados. Passou a semana olhando seu celular e lendo mensagens em suas redes sociais. No fim de semana passado, uma dúzia de jovens ativistas marxistas, como ela, foram presos em uma série de batidas nas principais cidades chinesas. De repente, os grupos de universitários “vermelhos” – minoritários, mas aumentando – se encontram na mira de um regime que se define, pelo menos no papel, como comunista.

Em um primeiro olhar, as posições dos estudantes e das autoridades deveriam estar perfeitamente alinhadas. O próprio presidente chinês, Xi Jinping, que recuperou alguns dos sinais de identidade do mandato de Mao – a fonte de legitimidade do sistema -, pediu um fortalecimento da educação ideológica nas escolas e universidades chinesas. O marxismo é uma matéria obrigatória aos estudantes do terceiro período.

Mas “o marxismo que [o Partido Comunista da China] ensina nas escolas não é o verdadeiro: é selecionado e interpretado para adaptá-los aos seus próprios fins”, diz Eric Fish, autor do livro China´s Millenials: The Want Generation.

E a contradição entre os ideais da doutrina original e a realidade é óbvia.

“O aumento da desigualdade e outras questões sociais na China levaram a uma decepção em certos setores em relação ao programa de ‘reforma e abertura’, e há uma percepção de que o Parido Comunista abandonou suas origens socialistas”, diz a pesquisadora Simone van Nieuwenhuizen, do Instituto de Relações Austrália-China na Universidade de Tecnologia de Sidney.

No caso dos jovens, o desencanto sobre a desigualdade e a corrupção se soma ao fato de que não possuem “o mesmo medo instintivo das autoridades das gerações anteriores”: não viveram a Revolução Cultural e não se lembram do massacre de Tiananmen, diz Fish.

Nesse ano, dezenas de estudantes vindos de todo o país viajaram a Huizhou, no sudeste do país, para solidarizar-se com os trabalhadores da Jasic Technology, que protestavam contra o que consideravam um “tratamento escravista” por parte da fabricante de máquinas para solda.

Na China, os protestos trabalhistas não são menos frequentes. Somente em 2018, a ONG China Labour Bulletin, com sede em Hong Kong, contabilizou mais de 900 greves por todo o país e em todos os tipos de setores, do táxi à mineração.

Mas que estudantes de universidades de elite viajem milhares de quilômetros para solidarizar-se com trabalhadores de uma fábrica se tornou algo muito mais raro desde que as manifestações de estudantes e trabalhadores de 1989 em Tiananmen acabaram dispersadas em sangue.

Pequim decidiu que tinha um problema. “A combinação do ativismo dos trabalhadores e dos estudantes é exatamente a fórmula utilizada pelo Partido Comunista para chegar ao poder. Portanto, em sua experiência, agora que está no poder não pode permitir que se repita”, diz o historiador independente Zhang Lifan.

50 estudantes foram presos em agosto. E desde então a pressão aumentou.

Já no mês passado a Universidade de Pequim anunciou mudanças em sua direção nesse sentido: o novo reitor era o secretário do Partido dentro da instituição; Qiu Shuiping foi nomeado como novo secretário, um funcionário que em seu currículo inclui ter sido o homem do Partido na delegação de Pequim do Ministério de Segurança Interna, os serviços secretos chineses.

Nessa semana, e após as últimas batidas, a Universidade de Pequim descreveu as atividades do “Grupo de Solidariedade aos Trabalhadores de Jasic” como “delitivas”, e alertou seus estudantes que “se ainda existem os que querem desafiar a lei, terão que lidar com as consequências”.

E tudo leva a crer que o controle continuará endurecendo. No próximo ano é o centenário do Movimento 4 de Maio, protestos liderados por estudantes da Universidade de Pequim que marcaram uma virada na história intelectual da China do século XX; e será o 30° aniversário do massacre de Tiananmen, datas em que o regime estará mais alerta do que nunca contra qualquer ação não ortodoxa.

“A ‘manutenção da estabilidade’ nas universidades está se transformando em uma prioridade cada vez maior, e (as batidas contra os estudantes marxistas) provavelmente só a aumentam. Mas em algum momento pode ser demasiado para que os estudantes a tolerem. A repressão sempre em crescimento às vezes pode criar o efeito oposto ao que se pretende”, diz Fish.

Xiao Lan afirma que o crescimento da pressão não a preocupa. “Não tenho medo. Podem tentar me obrigar, mas eu não irei renunciar”. E – cientista que é – cita o ditado atribuído a Galileu após a Inquisição o forçar a negar que a Terra girava em torno do Sol: “eppur’ si muove” (“e, entretanto, se move”).


Mais controle sobre a internet

M.V.L

A partir de 30 de novembro as já rígidas normas de controle sobre internet na segunda economia do mundo se endurecerão ainda mais. Todas as companhias tecnológicas e fornecedores de serviços on-line com “capacidade de mobilização social ou de gerar opinião pública” terão que facilitar às autoridades os dados pessoais e de atividade na internet de seus usuários, segundo uma nova diretiva da Administração do Ciberespacio da China.

A nova obrigação se aplicará a serviços tão variados como os blogs e microblogs, às plataformas de streaming de vídeo ou os aglomeradores de notícias.

As companhias terão que mostrar aos inspetores da Administração que registram a informação de seus usuários, incluídos seus nomes verdadeiros, o nome sob o qual está registrada a conta, o tempo de uso, o tipo de aparelho empregado e as conexões de chat.

A pequena amiga judia de Adolf Hitler | El País

16 de novembro de 2018

Imagem leiloada esta semana mostra o ditador alemão abraçando uma menina de origem judaica com quem trocou cartas durante cinco anos.

por ANTONIA LABORDE

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Fotografia cedida na quarta-feira pela casa de leilões de peças históricas Alexander mostrando Adolf Hitler com a menina judia Rosa Bernile Nienau.

“A menina do Führer.” Assim chamavam Rosa Bernile Nienau, uma garota de ascendência judaica que forjou uma insólita amizade com Adolf Hitler. A relação começou na primavera de 1933 na Berghof, a residência que o ditador tinha nos Alpes bávaros, na Alemanha. A menina de seis anos tinha viajado com a mãe de Munique para comemorar o aniversário de Hitler, que pediu para conhecê-la pessoalmente quando soube que haviam nascido no mesmo dia. Durante cinco anos trocaram cartas e posaram para várias fotografias publicitárias, até que a cúpula do líder nazista tomou conhecimento de que ela não era uma “alemã pura” e forçou o fim da amizade. Uma terna imagem em branco e preto de ambos abraçados foi leiloada na terça-feira em Maryland, Estados Unidos, por 11.520 dólares (cerca de 43.600 reais). A foto tem um autógrafo de Hitler: “A querida e apreciada Rosa Nienau e Adolf Hitler, Munique, 16 de junho de 1933”.

Não se sabe como a imagem chegou à casa de leilões Alexander Historical Auctions, nem tampouco a identidade do comprador. O que é certo é que a foto foi feita por Heinrich Hoffmann, fotógrafo pessoal do ditador, e que este a enviou a Karoline, a mãe da menina. Além da assinatura de Hitler em tinta azul, o retrato tem nove flores das neves e um trevo de quatro folhas, detalhes acrescentados pela menina. Rosa Bernile era filha única. Seu pai morreu antes de ela nascer e a mãe, filha de uma judia, era enfermeira. Ter um quarto de sangue semítico era considerado ser judeu na Alemanha nazista. A documentação de que a casa de leilões dispõe revela que Hitler ficou sabendo rapidamente da origem de sua amiga, mas sua fraqueza por ela impediu-lhe de romper o vínculo, “seja por motivos pessoais ou publicitários”.

Hoffmann costumava tirar fotos do ditador acompanhado de crianças para vender a imagem de que era, além de carismático, um líder próximo e carinhoso. Mas a história por trás da foto de propaganda com Rosa Bernile veio à tona anos depois. Os Arquivos Federais Alemães (Bundesarchive) possuem 17 cartas escritas pela menina ao seu “querido tio Hitler” e ao chefe de ajudantes nazistas, Wilhelm Brückner, entre 1935 e 1938. Pode-se deduzir dos escritos que o genocida se encontrou várias vezes com seu “carinho”, como ele a chamava. “Estimado tio Brückner! Hoje eu tenho muito a te dizer. Quando Durante as férias estivemos em Obersalzberg e me deixaram ver o querido tio Hitler duas vezes! Infelizmente, você nunca estava acordado”, diz uma das missivas.

O anômalo vínculo entre o responsável pelo Holocausto e a menina judia se rompeu quando o líder nazista Martin Bormann, secretário particular de Hitler, soube da herança de sangue de Rosa Bernile. Bormann ordenou que fosse proibido o acesso dela e da mãe à casa nos Alpes e exigiram que Hoffmann não voltasse a usar imagens dela nas propagandas. A princípio, o fotógrafo não disse nada ao Führer, mas depois o informou da restrição. James Wilson, especialista na área de Obersalzberg durante o Terceiro Reich, relata em seu livro Hitler’s Alpine Headquarters (2014) (O Quartel-general Alpino de Hitler): “Hitler ficou tão enfurecido por terem denunciado sua pequena amiga que lhe disse [a Hoffmann]: ‘Existem pessoas que têm verdadeiro talento para arruinar minha alegria’”.

Apesar da pouca idade, Rosa Bernile não pôde testemunhar o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele morreu vítima de pólio em 5 de outubro de 1943, aos 17 anos, no Hospital Schwabing. As investigações revelam que estudou desenho técnico durante a adolescência. Uma de suas primeiras obras de arte foi feita sobre uma fotografia com seu “querido tio Hitler”.

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