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Análise: Reação à revolução iraniana desembocou em extremismo | Folha de S. Paulo

11 de fevereiro de 2019

Ascensão dos aiatolás há 40 anos acirrou disputa de poder entre sunitas e xiitas no Oriente Médio

PATRÍCIA CAMPOS MELLO

Há 40 anos, o aiatolá Rouhollah Khomeini desembarcava em Teerã, depois de um longo exílio, e era recebido por cerca de 5 milhões de iranianos exultantes com o fim da ditadura do xá Reza Pahlevi e a alvorada da Revolução Islâmica.

Khomeini encheu a população iraniana de esperanças, ao derrubar um déspota que aterrorizava opositores com sua política secreta, com apoio explícito dos EUA.

Mas esta mesma revolução está no cerne do surgimento de vários grupos terroristas, como Al Qaeda e Estado Islâmico, e inúmeras guerras por procuração entre Irã e Arábia Saudita, como os conflitos na Síria e no Iêmen. A revolução xiita no Irã gerou uma reação no mundo sunita que acabou em extremismo e violência.

O rompimento entre muçulmanos sunitas e xiitas remonta ao século 7º, a partir de uma divergência sobre a sucessão do profeta Maomé. Para os sunitas, o sucessor de Maomé deveria ser escolhido por um shura, um conselho consultivo com membros da comunidade muçulmana. Líderes de Medina se reuniram e escolheram Abu Bakr, sogro de Maomé.

Já os xiitas defendiam que o sucessor de Maomé fosse seu parente ou descendente direto. Queriam que o escolhido fosse Ali, primo do profeta casado com sua filha, Fátima.

Mas foi somente após a revolução de 1979 que essa divisão entre sunitas e xiitas se transformou em uma disputa de poder entre iranianos e sauditas pelo domínio no Oriente Médio.

Khomeini implantou no Irã uma teocracia islâmica xiita. Ele tinha a ambição de exportar sua revolução para outros países, o que inspirou medo em diversos ditadores da região. Apesar de Khomeini liderar uma revolução xiita, a reação da Arábia Saudita, sunita, levou ao surgimento de facções extremistas sunitas como a Al Qaeda e o EI.

Khomeini subiu ao poder pedindo morte à América, que apoiava o xá e suas políticas opressoras e tinha longo histórico de interferência no Irã, desde que a CIA ajudou a derrubar o então premiê Mohammed Mossadegh em 1953, após ele nacionalizar a indústria do petróleo.

Mas Khomeini pregava também que as monarquias do Golfo não eram governos legítimos e praticavam um islamismo americanizado.

A revolução foi vista pela Arábia Saudita como uma ameaça existencial. E a monarquia saudita sofreu um segundo abalo naquele ano de 1979, com um ataque liderado por um extremista sunita à grande mesquita de Meca, que a forçou a ceder espaço para os clérigos conservadores.

O governo no país sempre dependeu da divisão de poder entre a família real e os clérigos wahhabitas, que seguem os ensinamentos de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, líder religioso do século 18 que pregava uma volta aos primórdios do islã. Trata-se de uma versão muito mais conservadora do islamismo sunita, que considera os xiitas hereges.

Frente à revolução iraniana e ao atentado em Meca, houve um recrudescimento conservador na Arábia Saudita e uma ofensiva para espalhar a versão saudita do islamismo pelo mundo. Os sauditas gastaram bilhões de dólares construindo milhares de escolas islâmicas que ensinavam a vertente mais radical de islamismo sunita, especialmente no Paquistão.

A grande oportunidade surgiu com a invasão soviética do Afeganistão. Era o momento de os sauditas defenderem um povo muçulmano e, assim, ganharem influência com outros países islâmicos. Para os americanos, ainda durante a Guerra Fria, a lógica era conter o avanço dos soviéticos.

Sauditas e americanos passaram a financiar os mujahideen no Afeganistão, extremistas religiosos apoiados pelo Paquistão, que combatiam os soviéticos.

A Arábia Saudita encorajou milhares de sauditas a irem lutar a jihad no Afeganistão para ajudar seus irmãos muçulmanos. Um dos sauditas que atenderam ao chamado foi Osama bin Laden.

Foi ele o ideólogo e líder da Al Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, que mataram quase 3.000 pessoas.

E o Estado Islâmico é uma dissidência da Al Qaeda, que nasceu a partir do braço desta no Iraque. Mais uma vez, o extremismo se alimentou do sectarismo, da rivalidade entre sunitas e xiitas exacerbada desde a revolução iraniana e alimentada com a interferência americana.

Os EUA invadiram o Iraque em 2003 e derrubaram o presidente sunita do país, Saddam Hussein. O governo provisório americano demitiu da administração e das polícias ou prendeu milhares de integrantes do partido Baath, de Saddam, que se tornaram um exército de desempregados sunitas nas ruas — muitos se radicalizaram.

Saddam foi substituído por um governo xiita que oprimia a população sunita, minoritária no Iraque. Essa população recebeu de braços abertos, pelo menos no início, o Estado Islâmico.

A dinâmica sectária e disputa de poder entre Irã e Arábia Saudita se repete nas guerras da região.

Na Síria, onde já morreram mais de 500 mil pessoas, o ditador Bashar al-Assad, que é alauita —uma vertente do xiismo—, é apoiado por Teerã. Os grupos rebeldes, muitos deles extremistas, eram bancados pelos sauditas, entre outros.

No Iêmen, sauditas lutam contra os houthis, xiitas que também contam com o apoio do Irã.

Entenda a revolução

Jan.77 Intelectuais e ativistas publicam cartas abertas criticando o acúmulo de poder nas mãos do xá Reza Pahlevi

Jan.78 Cinco manifestantes morrem após repressão a protestos contra a difamação do aiatolá Khomeini, no exílio

Fev.78 Cerimônias em homenagem aos mortos são realizadas em várias cidades

8.set.78 Um dia após o xá declarar lei marcial no país, ao menos cem são mortos em um protesto em Teerã

3.out.78 Khomeini é deportado pelo Iraque, a pedido do xá, e vai para a França. Ali, consegue acesso à mídia

10.dez.78 Milhões vão às ruas pela saída do xá e pela volta de Khomeini

16.jan.79 O xá e a família partem para o Egito, alegando férias. Nunca mais voltaria ao Irã

1º.fev.79 Aiatolá é recebido por 5 milhões em Teerã

4.fev.79 Khomeini indica um novo premiê. Nos dias seguintes, as Forças Armadas declaram neutralidade e o governo ligado ao xá entra em colapso

30.mar.79 Referendo decide que o Irã deve se tornar uma República islâmica

4.nov.79 Estudantes protestam na Embaixada dos EUA em Teerã e impedem a saída dos funcionários, que ficariam presos até jan.81

2.dez.79 Nova Constituição, que coloca um líder religioso como autoridade máxima, é aprovada em referendo

FSP 11.2.2019

O que fazer com filósofos do passado que se revelaram racistas e sexistas? |Folha de S. Paulo

27 de janeiro de 2019

Mais útil que proibir é indagar se eles seriam preconceituosos ainda hoje, afirma autor

JULIAN BAGGINI

[RESUMO] Autor vê equívoco no julgamento de pensadores que manifestaram preconceitos arraigados em épocas menos esclarecidas e defende que mais útil é indagar se seus modos de pensar os levariam a ser preconceituosos hoje.

Admirar os grandes pensadores do passado virou um risco moral.

Elogie Immanuel Kant e alguém pode lembrar a você que ele acreditava que “a humanidade alcança sua maior perfeição na raça dos brancos” e que “os índios amarelos possuem talento escasso”. Louve Aristóteles e você terá que explicar como é possível que um sábio genuíno possa ter pensado que “o macho é por natureza superior, e a fêmea, inferior; o homem é o governante, e a mulher, a súdita”.

Escreva um tributo a David Hume, como fiz recentemente, e será criticado por louvar alguém que escreveu em 1753-54: “Tendo a suspeitar que os negros e todas as outras espécies de homens, em geral, sejam naturalmente inferiores aos brancos”.

Parece que estamos diante de um dilema. Não podemos simplesmente descartar como insignificantes os preconceitos inaceitáveis do passado. Mas, se pensarmos que a defesa de opiniões moralmente repreensíveis desqualifica alguém de ser visto como grande pensador ou líder político, não restará praticamente ninguém da história.

O problema não desaparece se excluirmos os homens brancos do establishment. O racismo era comum no movimento sufragista feminino de ambos os lados do Atlântico.

A sufragista americana Carrie Chapman Catt disse: “A supremacia branca será fortalecida pelo sufrágio feminino, e não enfraquecida”. Emmeline Pankhurst, sua companheira britânica na luta, virou defensora acirrada do colonialismo, negando que ele fosse “algo a ser criticado ou do que se envergonhar” e insistindo que, em vez disso, “é algo grandioso sermos os herdeiros de um império como o nosso”.

Tanto o sexismo quanto a xenofobia têm sido comuns no movimento sindicalista, tudo isso em nome da defesa dos direitos dos trabalhadores — dos trabalhadores homens e não imigrantes, que fique claro.

Mas é um equívoco pensar que ideias racistas, sexistas ou intolerantes de outras maneiras automaticamente desqualifiquem uma figura histórica como objeto de admiração. Qualquer pessoa que não consiga admirar figuras assim revela uma profunda falta de entendimento sobre como nossas mentes são condicionadas socialmente, mesmo as maiores delas.

Pelo fato de o preconceito parecer tão evidentemente errado, essas pessoas não conseguem imaginar como alguém possa deixar de enxergá-lo, a não ser que seja degradado em termos morais.

A indignação dessas pessoas supõe de modo arrogante que elas próprias são tão virtuosas que jamais seriam tão imorais, mesmo quando todos a sua volta fossem incapazes de enxergar a injustiça. Já deveríamos saber que isso não é verdade.

A lição mais perturbadora do Terceiro Reich é que ele foi apoiado em grande medida por cidadãos comuns que teriam levado vidas isentas de culpa, não fosse o acaso de terem vivido naqueles tempos particularmente tóxicos.

Qualquer confiança que possamos sentir no fato de que nós não faríamos o mesmo é infundada, já que hoje temos consciência do que as pessoas na época não sabiam. Tolerar o nazismo hoje é inimaginável, porque não é preciso imaginação alguma para entender exatamente quais foram suas consequências. Por que tantas pessoas acham impossível acreditar que qualquer chamado gênio possa ter deixado de enxergar que seus preconceitos eram irracionais e imorais?

Uma razão disso é que nossa cultura parte de uma premissa equivocada e muito arraigada: que o indivíduo é um intelecto humano autônomo, independente do ambiente social. Um conhecimento mesmo superficial de psicologia, sociologia ou antropologia jogaria por terra essa ilusão cômoda.

O ideal do Iluminismo de que todos somos capazes e devemos pensar por nós mesmos não deve ser confundido com a fantasia hiper-iluminista de que todos somos capazes de pensamento independente. Nosso pensamento é moldado por nosso ambiente, de maneiras profundas das quais nós mesmos não temos consciência. Aqueles que se negam a aceitar que são tão limitados por essas forças quanto todas as outras pessoas têm delírios de grandeza intelectual.

Quando uma pessoa está arraigada em um sistema imoral, torna-se problemático atribuir responsabilidade individual. Isso é perturbador, porque todos acreditamos com firmeza na ideia de que o lócus da responsabilidade moral é o indivíduo autônomo. Se levássemos a sério o condicionamento social de crenças e práticas repulsivas, o medo é que todos seriam perdoados e que nos restaria um relativismo moral intolerável.

Mas o receio de que seríamos incapazes de condenar o que mais precisa ser condenado é infundado. A misoginia e o racismo não são menos repulsivos pelo fato de serem produtos de sociedades, tanto ou mesmo mais do que de indivíduos.

Desculpar Hume não quer dizer tolerar o racismo; desculpar Aristóteles não é desculpar o sexismo. Racismo e sexismo nunca foram aceitáveis: as pessoas apenas acreditavam, de maneira equivocada, que fossem.

Aceitar isso não significa passar por cima dos preconceitos do passado. Tomar consciência de que mesmo pensadores como Kant e Hume foram produtos de seu tempo serve para nos lembrar de que as maiores mentes também podem ficar cegas diante de erros e males, se estes forem bastante onipresentes.

Isso também deve nos levar a questionar se os preconceitos que vêm à tona em suas observações mais infames não podem estar à espreita, em segundo plano, em outras partes de seu pensamento. Boa parte da crítica feminista feita à filosofia de “homens brancos mortos” é dessa natureza, argumentando que a misoginia evidente é só a ponta de um iceberg muito mais insidioso. Em alguns casos isso pode ser verdade, mas não devemos presumir que seja. Muitos pontos cegos são locais, deixando o campo geral de visão perfeitamente claro.

A defesa da misoginia de Aristóteles apresentada por Edith Hall, estudiosa dos clássicos da literatura grega e romana, constitui um exemplo rematado de como salvar um filósofo de seu próprio pior lado.

Em lugar de julgar Aristóteles pelos critérios de hoje, Hall argumenta que um teste melhor seria indagar se os fundamentos de seu modo de pensar o levariam a ser preconceituoso hoje. Dada a abertura de Aristóteles a evidências e à experiência, não há dúvida de que, se vivesse hoje, não seria necessário persuadi-lo de que as mulheres estão em pé de igualdade com os homens.

Também Hume se rendia à experiência, de modo que, se vivesse hoje, é provável que não suspeitaria nada de negativo em relação aos povos de pele escura. Em suma, não precisamos olhar além dos fundamentos da filosofia deles para entender o que estava errado no modo como eles os aplicaram.

Uma razão pela qual podemos relutar em perdoar os pensadores do passado é o receio de que desculpar os mortos nos obrigará a desculpar os vivos. Se não pudermos criticar Hume, Kant ou Aristóteles por seus preconceitos, como podemos criticar as pessoas que estão sendo cobradas pelo movimento #MeToo por atos que cometeram em círculos sociais em que esses atos eram completamente normais? Afinal, Harvey Weinstein não seguiu tipicamente a cultura do “teste do sofá” de Hollywood?

Há, no entanto, uma diferença muito importante entre os vivos e os mortos. Os vivos podem entender como seus atos foram errados, podem reconhecer o fato e demonstrar remorso. Quando seus atos forem crimes, podem enfrentar a Justiça. Não podemos nos dar ao luxo de sermos tão compreensivos com os preconceitos do presente quanto somos com os do passado.

Para transformar a sociedade, é preciso levar as pessoas a enxergar que é possível superar os preconceitos com que foram criadas. Não somos responsáveis por criar os valores distorcidos que moldaram a nós e a nossa sociedade, mas podemos aprender a assumir a responsabilidade por como lidamos com eles de agora em diante.

Os mortos não têm essa oportunidade; logo, é inútil desperdiçar nossa indignação castigando-os. Temos razão em lamentar as iniquidades do passado, mas culpar indivíduos por coisas que fizeram em tempos menos esclarecidos, aplicando os padrões de hoje, é duro demais.

Julian Baggini, escritor e filósofo britânico, é autor de “O que os Filósofos Pensam” (ed. Ideias e Letras, 2005) e “How the World Thinks: A Global History of Philosophy” (2018).

Texto originalmente publicado no site Aeon; tradução de Clara Allain.

Ilustríssima / FSP 27.1.2019

Hannah Arendt’s answer to Paul Berman on the contemporary American Left | Tablet Magazine

14 de janeiro de 2019

The latest entry in a Tablet feature analyzing the state of the American left, inspired by Paul Berman’s series of essays on the subject. Here, a ‘Dissent’ editor asks, ‘patriotism, what’s it good for?’

By Tim Shenk

“If you want to understand American politics today, the single best source might be page 334 of Hannah Arendt’s masterpiece, The Origins of Totalitarianism. No, that’s not because Donald Trump is plotting a fascist coup. He’s not nearly smart enough to pull it off. Even if he were, Arendt’s description of life under totalitarian rule is easily the least insightful part of the book. Her real genius was for explaining why liberal societies fall apart. It’s a question that should be on all of our minds.

Now, on to page 334. After running through a brief history of modern Europe, Arendt’s narrative brings her to one of the most puzzling questions of the interwar period: Why were vulgar demagogues peddling ridiculous doctrines able to turn millions of people against the liberal order? She had, by then, already discussed the psychology of what she sniffily referred to as “the mob,” and now turned her attention to totalitarianism’s attractions for the elite. What especially interested Arendt, who turned 27 the year Hitler became chancellor of Germany, was its appeal for younger intellectuals.

Her answer centered on the failings of the status quo. “What the defenders of liberalism and humanism overlook,” she observed, was that it had become “easier to accept patently absurd propositions than the old truths which had become pious banalities.” Why was that? Well, people had eyes. They could see that elites who proclaimed themselves champions of civilization were “parading publicly virtues which [they] not only did not possess in private and business life, but actually held in contempt.” Everybody knew the whole thing was a joke, except for the great men who bought into their own propaganda. Confronted with this hypocrisy, “it seemed revolutionary to admit cruelty, disregard of human values, and general amorality because this at least destroyed the duplicity upon which the existing society seemed to rest.” Sure, the alternative was farcical, but at least everyone would be able to stop mouthing the same old lies, and that offered a kind of liberation.”

Para ler o artigo completo, clique aqui.

Hannah Arendt em Lisboa | Publico

11 de dezembro de 2018

Por Rui Tavares, para o “Publico”

Uma das coisas em que insisto perante os alunos é que não vejam as pessoas de que falamos — sobretudo e se forem autores, pensadores, artistas, políticos, cientistas e outros homens e mulheres célebres — como se fossem nomes numa enciclopédia.

Quando dou aulas, uma das coisas em que insisto perante os alunos é que não vejam as pessoas de que falamos — sobretudo se forem autores, pensadores, artistas, políticos, cientistas e outros homens e mulheres célebres — como se fossem nomes numa enciclopédia, mas antes como mulheres e homens que viveram como os humanos vivem: foram jovens, entusiasmaram-se, hesitaram, tiveram medo, apaixonaram-se e zangaram-se uns com os outros, e também não viam as pessoas à sua volta como figuras prontas a entrar nos livros de história mas como gente do seu tempo por quem tinham amor ou ódio, respeito ou amizade, antipatia ou empatia.

Como todas as banalidades que é preciso não ter medo de repetir, esta guarda dentro de si duas verdades importantes. A primeira é que embora nem todos os autores escrevam para o seu tempo, a nenhum é dado viver fora do seu tempo; e a realidade com que viveu é muitas vezes essencial para entender as ideias que teve, porque as manteve, ou porque as abandonou. A segunda, mais importante ainda, é que também a nós, mesmo quando nos deprimimos, assustamos ou desorientamos, nos é dada a oportunidade de contribuir com qualquer coisa de bom e útil para a humanidade. É bom não esquecer essa oportunidade e não deixar de a usar quando se apresenta.

Quando chegou a Lisboa, em janeiro de 1941, Hannah Arendt, que nascera em 1906, já tinha sido brevemente presa pelos nazis em 1933, era refugiada desde os 27 anos e apátrida desde os 31 anos. Tinha acabado de casar pela segunda vez, com o poeta Heinrich Blücher, e escapara in extremis da França ocupada com o seu marido e a sua mãe. Quem conseguiu passá-los, através do recurso a documentos falsos, foi um jovem de vinte e poucos anos que tinha lutado pelos republicanos na Guerra Civil de Espanha e que viria a ser o grande economista e historiador das ideias Albert Hirschman.

Repito: toda esta gente não era para Hannah Arendt (nem uns para os outros) a “filósofa” ou o “economista”. Eram a Hannah, o Heinrich e o Albrecht, mais um humano dos tempos sombrios a precisar de um visto e de uma passagem de navio para o exílio.

Hannah Arendt chegou a Lisboa sob a nuvem escura da notícia da morte do seu amigo Walter Benjamin, que se suicidara uns meses antes na fronteira entre a França e a Espanha, ao acreditar (supõe-se que erradamente) que não o deixariam passar até Lisboa. Os dois amigos não viriam a encontrar-se na capital portuguesa, nem nunca mais, mas Hannah e Heinrich transportavam consigo o manuscrito das Teses sobre a filosofia da história que Benjamin escrevera no início do ano anterior e que lhes enviara por segurança, pedindo que não fosse publicado (provavelmente, até que pudesse rever o texto). Das poucas coisas que sabemos que Hannah Arendt fez em Lisboa, além de lutar contra a depressão e esperar por papéis e passagens para Nova Iorque, foi ler o ensaio de Walter Benjamin, que ela e Heinrich decidiram tomar a responsabilidade de fazer publicar quando chegassem aos EUA.

Hannah Arendt falava pouco e quase nunca escreveu sobre a sua passagem por Lisboa (um dos seus discípulos, o diplomata brasileiro Celso Lafer, lembra-se de ela lhe dizer que descobrira conseguir ler e entender os títulos dos jornais em português — Arendt era uma boa latinista, além de falar francês, o que lhe facilitava a compreensão da nossa língua). Mas não devemos daí inferir que essa passagem tenha sido pouco importante. Foi-o para ela e deve ser para nós.

A passagem de Hannah Arendt não foi só parte do percurso que lhe salvou a vida e que lhe permitiu depois escrever algumas das obras mais importantes da teoria e filosofia política do nosso tempo — algumas das quais, como As Origens do Totalitarismo, estão permanentemente a precisar de serem redescobertas. Em meu entender, a influência da estada paralisante em Lisboa, do seu peso emocional, do seu desespero surdo, sente-se principalmente no extraordinário ensaio Nós Refugiados, que Arendt viria a publicar em 1943 e que deveria ser leitura comum pelo menos nas escolas europeias. Por sua vez, é o ter entendido, na sua pele de pessoa refugiada e apátrida, que a cidadania é o primeiro dos direitos — “o direito a ter direitos”, como ela lhe chamava — que esteve na origem da sua cada vez mais relevante filosofia dos direitos humanos.

Para nós, é importante lembrar Hannah Arendt precisamente como cidadãos, na dupla acepção da palavra: como cidadãos de Lisboa e de Portugal, e como humanos neste planeta, sujeitos de inalienáveis direitos à dignidade, à liberdade e a participar nas decisões que nos dizem respeito.

Hoje, segunda 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, às onze da manhã, a Câmara Municipal de Lisboa inaugurará um memorial a Hannah Arendt próximo ao lugar onde ela viveu na nossa capital, na Rua da Sociedade Farmacêutica 6b. O memorial ficará no larguinho, que espero que um dia se venha a chamar Largo Hannah Arendt, da esquina entre a Rua da Sociedade Farmacêutica e o Conde Redondo (declaração de interesses: a proposta do memorial foi do LIVRE, mas apraz-me dizer que foi aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Lisboa, e rapidamente implementada pela Vereação da Cultura de Lisboa).

Pelo que fica dito atrás, esta comemoração no espaço físico de Lisboa não é só um ato de justiça perante o passado; é um ato de esperança no futuro. A partir de agora, a cidade de Lisboa lembrará a quem ali se quiser sentar, descansar e refletir, as últimas palavras de Hannah Arendt em Nós Refugiados: “A Europa estilhaçou a sua alma quando deixou que os seus mais vulneráveis fossem perseguidos e escorraçados”. Não o esqueçamos nunca, para que não voltemos a perder a nossa alma.

O retorno dos brioches | Folha de S. Paulo

11 de dezembro de 2018

JOÃO PEREIRA COUTINHO, para a Folha

Assisto aos protestos de Paris e confesso que, pela primeira vez na minha pobre existência conservadora, não são as chamas reais que me assustam. São as chamas metafóricas que, nos jornais e na TV, condenam os protestos dos “coletes amarelos”.

Distinção importante: que na destruição em curso há banditismo em larga escala, ninguém duvida. São casos de polícia, não de política.

O problema, porém, está no tom geral com que o comentariado lida com o assunto: os “coletes amarelos” são subgente, não trabalhadores desesperados pela crise, pela pobreza ou pelo garrote fiscal em que vivem. O ideal, aliás, era Emmanuel Macron não os escutar e, se possível, prender todo mundo numa nova Bastilha.

Essa arrogância não é nova. É moda. Sessenta e dois milhões de americanos votaram em Trump? São selvagens, todos eles. Dezessete milhões votaram no Brexit? São selvagens, todos eles. Dez milhões votaram em Marine Le Pen?

Precisamente: todos eles. No pensamento mágico do comentariado, se insultarmos as pessoas com afinco, elas acabarão por desaparecer da paisagem.

É contra essa cegueira que Robert Eatwell e Matthew Goodwin se insurgem. Nos últimos tempos, por razões acadêmicas e pessoais, tenho lido o que posso sobre o fenômeno populista. Mas nenhum livro é remotamente comparável a “National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy”.

O principal objetivo dos autores é acabar com as fantasias (ou “mitos”, nas suas palavras) de que o populismo não passa de um fenômeno conjuntural, que rapidamente será ultrapassado.

Na cartilha otimista, a crise financeira de 2008 abalou as sociedades e fez brotar da terra os Trumps, os Farages, as Le Pens. A crise dos refugiados só agravou o problema.

Mas, assim que a economia melhorar e os refugiados forem integrados nos países de acolhimento, os populistas e seus seguidores voltarão ao buraco negro de onde vieram.

Essa fantasia só faria sentido se, antes de 2008, o “ethos” populista (uma celebração da “vontade geral” popular contra elites distantes ou corruptas) não estivesse já à solta pelo DNA das democracias.

Obviamente, estava. Sempre esteve, pelo menos desde finais do século 19. O que agora presenciamos é apenas o auge de uma tensão que faz parte da própria história da democracia: a tensão entre as massas e os seus representantes.

Por outras palavras: a democracia liberal só existe porque existiu um entendimento prévio de que o povo é parte do projeto, não o seu dono absoluto.

Como escrevia James Madison no “Federalista” (artigo nº 10), só o governo representativo pode impedir o poder destrutivo das “facções”. O povo vota; o representante, usando o seu melhor juízo, decide em nome do povo.

Esse compromisso, com acidentes de percurso, durou até meados do século 20, quando a Europa resolveu suicidar-se pela segunda vez. A ordem liberal que surgiu das ruínas entendeu que a paz tinha um preço: transferir para instituições transnacionais e supranacionais o essencial da decisão política, econômica e até cultural.

Azar: o compromisso foi quebrado e as massas, agora, apresentam a conta do prejuízo. Que fazer?

Concordo com Eatwell e Goodwin: tem havido entre as elites liberais uma espécie de “recusa da literalidade” (expressão minha, não deles). Essa recusa significa não aceitar que metade dos eleitorados nacionais (contas por alto) desejam realmente o que desejam: menos imigração; fronteiras reforçadas; devolução de poderes para a nação; respeito pelas suas identidades culturais contra agendas “politicamente corretas” que são vistas como uma imposição abusiva aos seus “modos de vida”.

Os votos não são apenas de protesto; são de afirmação. O que significa que as democracias liberais só podem sobreviver se estabelecerem um novo compromisso entre os “bárbaros” e os “iluminados”.

Um exemplo? A imigração. Como argumentam os autores, nenhuma sociedade aceita passivamente uma política de portas abertas. Mas nenhuma sociedade é sustentável, argumento eu, com trancas à porta, ao contrário do que Hillary Clinton sugeriu recentemente aos europeus para espanto dos seus companheiros de estrada.

Uma política de imigração realista tem em conta critérios de integração cultural, sustentabilidade econômica, necessidades laborais e viabilidade política. Negar isso é suicídio.

Saber se o suicídio será cometido pelas elites políticas tradicionais do Ocidente, eis uma pergunta a que o futuro dará resposta.

Mas, pelo tom dos comentários, é impossível não escutar a voz (apócrifa) de Marie Antoinette. As massas não tem pão? Que comam brioches.

E elas comeram.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

FSP 11.12.2018

Aos hesitantes | Bertold Brecht

10 de dezembro de 2018

Tradução: André Vallias

Você diz:
A coisa vai mal para nós.
A escuridão aumenta. As forças decrescem.
Agora, após termos trabalhado tantos anos, estamos
Em situação mais difícil do que no início.

O inimigo, porém, está mais forte do que nunca.
Suas forças parecem maiores. Tomou aspecto invencível.
Cometemos erros, sim, não dá mais para negar.
Nosso número diminui.
Nossos bordões estão em desordem. Uma parte das nossas palavras
O inimigo distorceu até ficarem irreconhecíveis.

O que está errado agora daquilo que dissemos
Alguma coisa ou tudo?
Com quem podemos contar ainda? Somos os restantes, arrancados
Do fluxo dos viventes? Vamos permanecer
Não compreendendo mais ninguém e por ninguém compreendidos?

Precisamos ter sorte?

É o que você pergunta. Não
Espere outra resposta além da sua.

1935

A Holocaust survivor tells her story | DW Documentary

30 de novembro de 2018

Margit Meissner conta aos jovens sobre o Holocausto e sua própria fuga dos nazistas.

por DW Documentary

Margit Meissner, de 96 anos, sobreviveu ao Holocausto e agora está fazendo tudo que pode para garantir que ele nunca seja esquecido. Meissner é uma voluntária muito ativa no Museu Memorial do Holocausto, de Washington D.C. e regularmente encontra jovens para contar sobre o genocídio dos judeus e como escapou por pouco dos nazistas, há mais de 75 anos. Margit Meissner também participa de um projeto do fotógrafo alemão Luigi Toscano, viajando pelo mundo, tentando documentar o maior número possível de sobreviventes do Holocausto. Não foi fácil para ela concordar com o pedido do fotógrafo – apenas ouvir a língua alemã ainda invoca memórias traumáticas para ela.

Vídeo em inglês.

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