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Claude Lanzmann, diretor do documentário ‘Shoah’, morre aos 92 anos

6 de julho de 2018
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O cineasta e jornalista francês Claude Lanzmann.

por Folha de S. Paulo.

O cineasta e jornalista francês Claude Lanzmann morreu nesta quinta-feira (5), em Paris, aos 92 anos. Ele se consagrou como o diretor do documentário “Shoah”, sobre o extermínio dos judeus na Segunda Guerra —o filme, com quase dez horas de duração, levou quase 11 anos para ficar pronto. Em 2013, ele ganhou um Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim.

A informação foi confirmada pela família de Lanzmann à imprensa francesa, mas a causa não foi divulgada. Ele deixa mulher e três filhos.

O longa-metragem, exibido pela primeira vez em 1985 e um dos filmes mais importantes da história do documentário, traz uma série de depoimentos sobre os campos de extermínio nazistas.

O cineasta usava a palavra “shoah” em vez de holocausto para definir os crimes do nazismo, porque a segunda palavra se refere à queima de uma oferenda a deus. “Para alcançar Deus, 1,5 milhão de crianças judias foram oferecidas? O nome é importante, e na Europa não se diz ‘Holocausto’. Foi uma catástrofe, um desastre, e em hebraico isso é ‘shoah'”, disse em certa vez em uma entrevista.

Filho de imigrantes russos na França, Lanzmann nasceu em 1925, uniu-se à Juventude Comunista e lutou na resistência francesa contra os nazistas quando era adolescente. Como jornalista, ele sempre teve forte atuação política, assinando o Manifesto dos 121, contra as ações do governo francês na Algéria. A causa anti-colonialista também foi uma das marcas de sua trajetória.

Ele estudou filosofia na Universidade Sorbonne depois da Segunda Guerra e, mais tarde, se tornaria amante da filósofa Simone de Beauvoir. Ele fez parte do jornal Les Temps Modernes, fundado por ela e pelo filósofo Jean-Paul Sartre.

Mais tarde, terá uma carreira como professor universitário em Berlim. Depois de ler “Reflexões Sobre a Questão Judaica”, ensaio de Sartre, organizou um seminário sobre o antissemitismo para seus alunos. Depois, com o desejo de denunciar a fragilidade do processo de desnazificação no meio universitário alemão, publica dois artigos em um jornal do país —e acaba deixando a carreira acadêmica.

É quando retorna à França, começa sua carreira como jornalista, que também o tornaria notório.

Em 1959, por exemplo, ele publicou um longo artigo sobre a situação do Dalai Lama no Tibet, na revista Elle. Em 1986, depois da morte de Simone de Beauvoir, ele assumiu a direção do jornal Les Temps Modernes.

Na publicação de Sartre e Beauvoir, ele vai pela primeira vez a Israel, de onde envia uma série de artigos. Nos anos 1967, logo depois da Guerra dos Seis Dias, produz uma edição especial sobre o conflito árabe-israelense.

É em 1973 que o intelectual estreia no cinema, com o filme “Por Que Israel”. Um ano depois, ele já começaria a filmar “Shoah” —montado a partir de um material bruto de 350 horas de filmagens, feitas entre 1974 e 1981. A montagem do longa, considerado um dos monumentos do cinema mundial, durou quatro anos.

O filme é dividido em quatro partes: o extermínio nos caminhões de gás no campo de Chelmno, na Polônia; o campo de Treblinka; o campo de Auschwitz-Birkenau; e o extermínio dos judeus no gueto de Varsóvia.

Em 2009, ele publicou pela Gallimard o livro de memória “A Lebre da Patagônia”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

Programa Cinema 11, da TV Universitária/Recife, do dia 01/06/12, exibe trechos do documentário SHOAH, de Claude Lanzmann, com comentários de Josimar Parahyba.

ANÁLISE

Claude Lanzmann nos ensinou a cumprir com nosso dever de memória

por LÚCIA MONTEIRO, para a Folha de São Paulo

Existiria imagem capaz de expressar o horror do extermínio dos judeus pelo nazismo? A resposta de Claude Lanzmann à espinhosa questão está em “Shoah” (1985), filme de nove horas e meia que consumiu mais de dez anos da vida do realizador.

Nesta, que é sua obra mais conhecida e mais radical, o realizador francês absteve-se de remontar qualquer material de arquivo. O filme apresenta testemunhos de sobreviventes judeus, de camponeses que viviam próximos aos campos de extermínio e de algozes. Além de seus rostos e corpos que rememoram o horror no presente, as únicas imagens usadas retratam os locais em que as histórias narradas se passaram — e foram feitas pelo próprio cineasta.

A opção adotada por Lanzmann ia na contramão do filme mais importante que a França havia feito sobre o assunto até então. Em “Noite e Neblina” (1955), Alain Resnais combinara filmagens próprias, em cores, com imagens em preto e branco encontradas em museus, acervos de emissoras de televisão e coleções diversas.

Tratava-se de uma postura consciente, que valoriza o testemunho e a memória em detrimento da imagem. Simone de Beauvoir viu nisso o grande trunfo do filme: “A grande arte de Claude Lanzmann é de fazer com que os lugares falem, é ressuscitá-los por meio das vozes e, para além das palavras, exprimir o indizível pelos rostos”.

Não surpreende, portanto, que o cineasta tenha reagido com violência a produções subsequentes que procuraram retratar a Shoah por meio da ficção ou valendo-se de fotografias e filmes de época. O cineasta e seus colaboradores reunidos em torno da revista Les Temps Modernes se opuseram veementemente, por exemplo, a Steven Spielberg e seu “A Lista de Schindler” (1993).

O filósofo Georges Didi-Huberman também foi alvo da crítica lanzmanniana ao jogar luz sobre quatro fotografias, hoje célebres, feitas clandestinamente em 1944 por membros do Sonderkommando que conseguiram fotografar o processo de extermínio em Auschwitz-Birkenau.

Antes do embate entre Didi-Huberman e Lanzmann, o cineasta e crítico francês Jacques Rivette já havia recebido de maneira virulenta “Kapò” (1960), ficção do italiano Gillo Pontecorvo ambientado em um campo de concentração.

Com o título “Sobre a Abjeção”, Rivette condenava o filme de Pontecorvo por sua postura imoral, ao fazer um travelling de aproximação que mostrava o corpo de uma prisioneira morta na cerca eletrificada.

É difícil restituir de maneira resumida as respostas contrastantes à questão que inicia este texto. De fato, nenhuma imagem —como aliás nenhuma palavra— é capaz de exprimir o horror do genocídio perpetrado pelos nazistas contra o povo judeu. Nenhuma imagem diz o momento da Catástrofe.

Quem passou pela câmera de gás não sobreviveu para narrar. Nenhuma fotografia pode expressar o que foi um campo de extermínio. As imagens ainda assim existem, e, existindo, nos ajudam a imaginar essa terrível realidade —ainda que representá-la de maneira fidedigna seja operação fracassada de saída.

Não é possível escolher uma ou outra posição no embate entre imagem e não imagem, entre Lanzmann e Didi-Huberman. Temos, sim, que cumprir com nosso dever de memória, memória viva e a partir do presente, como ensinou o realizador de “Shoah”.

E aceitar o paradoxo descrito por Adorno: “Escrever poesia depois de Auschwitz é um ato bárbaro, e isto corrói até o conhecimento da razão pela qual hoje se tornou impossível escrever poesia”.

FSP 06.07.2018

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Conferência: Pesquisa e Experiência em Ditaduras na Democracia* | Instituto Hannah Arendt (Dresden)

28 de junho de 2018

por Ludmyla Franca-Lipke

No último dia 21 de junho, o Instituto Hannah Arendt para pesquisa em Totalitarismo, da Universidade Técnica de Dresden** (Alemanha), em comemoração aos seus 25 anos, realizou conferência sobre estudos internacionais em democracia e ditadura, com enfoque nas experiências e pesquisas sobre ditadura no âmbito da democracia, repensando o legado arendtiano a partir de experiências dos últimos 30 anos.

DSC00144O Instituto Hannah Arendt da Universidade Técnica de Dresden (HAIT, na sigla em alemão) tem por missão realizar estudos, discussões e pesquisas em relação ao totalitarismo e temas afins. Ele surge após a reunificação alemã, iniciando suas atividades em 1993. A escolha do nome de Hannah Arendt para o então nascente instituto deveu-se ao legado arendtiano sobre totalitarismo e demandas de poder totalitárias típicas de ditaduras, que seriam o foco das pesquisas e trabalhos do instituto. O Instituto Hannah Arendt dedica-se assim à pesquisa sistemática sobre Nacional-Socialismo e Comunismo, ideologias que culminaram em ditaduras marcantes no século XX e cujas consequências ainda afetam o presente e o futuro. Deste modo, o ponto central dos estudos e pesquisas deste Instituto são os desdobramentos culturais, políticos e sociais desses sistemas, as condições político-ideológicas que os viabilizaram, os efeitos de ambos os sistemas de dominação e reflexões sobre a resistência à dominação. Análises comparativas com outras experiências fascistas e ditatoriais também fazem parte do espectro de atuação do Instituto, que busca, no confronto das ideias políticas e na investigação sobre as experiências pretéritas, lançar um olhar crítico em relação aos extremismos atuais, não se limitando portanto apenas ao período compreendido entre 1933 e 1989.

Além de pesquisas e estudos, o Instituto Hannah Arendt publica uma série interessantíssima de livros sobre os temas estudados em seu âmbito de atuação. Com a nova direção, a cargo do Prof. Dr. Thomas Lindenberger, o Instituto entra numa nova fase, ampliando sua atuação, buscando cada vez mais criar diálogos em perspectiva internacional. Nesta esteira, a Conferência “Diktaturforschung und Diktaturerfahrung in der Democratie“* se insere neste escopo, trazendo para debate a questão das ditaduras no espectro da democracia.

A sessão de abertura do evento ficou a cargo do Prof. Dr. Lutz Niethammer, professor emérito da Universidade de Jena (Friedrich-Schiller-Universität Jena). Historiador especializado em História do Pós-Guerra e Oral History, sendo o responsável pelo desenvolvimento da Alltagsgeschichte (história do cotidiano), uma forma de abordagem histórica cujo escopo é analisar a experiência cotidiana a partir da memória e dos testemunhos, buscando reconstruir, de uma forma subjetiva, eventos históricos de uma população particular ou de um milieu, recorrendo assim à subjetividade dos seus integrantes por meio de questionários, interrogatórios e testemunhos, Niethammer é um dos maiores historiadores vivos da Alemanha.

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Livro do Prof. Lutz Niethammer sobre experiências de vida na DDR

Prof. Niethammer discorreu sobre Imaginações de Sistemas e Experiência: o conceito de totalitarismo após a Guerra Fria. Seu foco foi refletir sobre o caráter da República Democrática Alemã (DDR, na sigla em alemão), especialmente após Stálin. Ele identifica a presença de elementos totalitários na experiência socialista alemã e entende que a Stasi (Ministerium für Staatssicherheit ou Staatssicherheitsdienst, a polícia secreta da Alemanha Oriental) foi a responsável pelo fim da DDR. Segundo o Prof. Niethammer, havia elementos liberais na DDR, que não podem ser de todo ignorados, esquecidos ou negados. (Aqui nos lembramos, por exemplo, do tratamento dado às mulheres na DDR, muito mais egualitário e emancipador do que o modelo vigente na Alemanha Ocidental). Dito isto, ele destaca as condições sob as quais a dominação ditatorial teve ressonância na população, com as perseguições, espionagens, mas também com a criação de tradições, rituais, uniformes, ritos e outros aspectos que remetem a uma “religião política”, que ele entende como marca do totalitarismo. Entretanto, ele nega a alcunha de Estado totalitário à DDR e recusa-se a denomina-la de “o Estado do SED” (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands, o partido regente da Alemanha Oriental). Para Niethammer, a DDR foi uma ditadura que combinou traços totalitários (especialmente com Stálin no comando da URSS), mas também liberais, sendo equivocado reduzi-la ao SED ou classifica-la como um estado totalitário, tal qual fora a Alemanha Nazista de Adolf Hitler.

Ao final de sua fala, o Prof. Niethammer deixa sua percepção sobre o totalitarismo: não é simplesmente um sistema, mas sim a experiência, aquilo que se faz com os sujeitos ao longo do tempo, remontando, assim, à sua perspectiva de Alltagsgeschichte e ao valor da experiência dos sujeitos na avaliação histórica e política.

Após as considerações do Prof. Niethammer, abriu-se o primeiro painel do dia. No painel “Pensar as ditaduras: genealogia – tipologia – práticas“, o foco foi a análise das diferenças entre dominação autoritária e dominação totalitária, como são explicadas as origens das ditaduras na História e na Ciência Política, se o caráter excepcional da ditadura é perceptível no cotidiano, tudo isso a partir da discussão sobre o enfoque da compreensão do fenômeno ditatorial em seus aspectos essenciais.

O Prof. Dr. Ralph Jessen, historiador da Universidade de Colônia, marcou a diferença entre totalitarismo e autoritarismo a partir da análise do elemento primário do totalitarismo, a ideologia, que substitui a ideia de Estado constitucional (ainda presente numa ditadura, a despeito do autoritarismo). Como exemplo atual, o Prof. Jessen apresenta o “totalitarismo sultânico”, citando a Coréia do Norte, onde se dá uma dominação total de uma família sobre a população desprovida de elementos objetivos de poder e justiça (daí a referência à figura do sultão).

A Profa. Dra. Mary Fulbrook, decana que estuda história alemã na University College of London, ao discorrer sobre o tema, insiste na percepção subjetiva e na experiência cotidiana, em como o sujeito muda no cotidiano em função da ditadura: o que pensa e o que faz, destacando as consequências a longo prazo da vivência autoritária no imaginário coletivo e nos sujeitos em particular.

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As “duas” Alemanhas: BRD (Alemanha Ocidental) e DDR (Alemanha Oriental)

Professora de História Contemporânea na Martin-Luther-Universität Halle-Wittenberg, Dra. Silke Satjukow fala sobre o conceito de Fürsorge Diktatur (Welfare Dictatorship ou, em português, Ditadura Assistencialista), uma das marcas da experiência comunista da DDR, que significa garantir aos sujeitos condições de vida seguras, mantidas pelas políticas de Estado, que cuidam para que os cidadãos tenham supridas todas as suas necessidades. Pleno emprego, aluguéis baratos, educação gratuita, saúde pública, dentre outros aspectos de ordem social são providos pelo Estado, fazendo com que a ditadura tenha nuances mais complexas do que uma simples dominação opressora em relação à população. Esta foi uma faceta própria da DDR, que não se observa tanto em outros países integrantes do Bloco Comunista, que sofriam com as ondas de fome e de escassez, especialmente durante o governo de Stálin, que, em alguns casos, propositalmente deixou milhões de pessoas morrerem de fome. Outrossim, a professora da Universidade de Halle-Wittenberg destaca o problema dos Bálcãs, que, para além do elemento autoritário, possuía uma diversidade étnica que era pano de fundo para muitos conflitos, algo inexistente na DDR.

Este primeiro painel encerra-se destacando que a experiência totalitária destrói a espontaneidade humana (na esteira das reflexões arendtianas sobre a banalidade do mal) e que esta marca distintiva do totalitarismo deve ser mais explorada nos estudos sobre o tema.

O Painel II: Após o Memory Boom: pesquisa sobre ditadura e política histórica em perspectiva transnacional discute os estudos atuais após os anos 1990 no âmbito internacional e como se vê hoje a ideia de que a Alemanha é a “Campeã Mundial da Superação do Passado”, se é uma verdade ou uma forma de bloquear estudos mais profundos e apontar contradições ainda persistentes, porém varridas para debaixo do tapete.

A historiadora Dra. Ulrike Jureit, da Fundação Hamburguesa para Promoção da Pesquisa em Ciência e Cultura, discorre sobre a questão da memória como um discurso das vítimas (passivas e inocentes), propondo um novo desafio à cultura da memória (Erinnerungskultur) por meio da globalização e da mudança geracional, que seriam capazes de pluralizar este discurso. Dra. Jureit defende a memorialização constante e cada vez mais profunda da Shoá, destacando a possibilidade de uma memória oposta à normatividade e aos fins lucrativos de sua exploração. Segundo ela, as leis de memória (o Nunca Mais e o Contra o Esquecimento) podem descambar em tabus, bem como a instrumentalização política da história cria uma “história para consumo” dentro de uma indústria turística na esteira da Global Event Culture, na qual os acontecimentos históricos são cada vez menos aprendidos e mais “vividos e sentidos”. Na sua conclusão, ela destaca o caráter do passado como identidade e questiona se Arendt cometera um equívoco em seu trato desta questão.

Doutora e assistente científica de História do Leste Europeu, a russa Ekaterina Makhotina discorreu sobre as emoções na transmissão da memória, discutindo sobre a distância epistemológica do historiador em seu mister de observação objetiva. Enquanto a Erinnerungskultur centrada na vítima está praticamente esgotada na Alemanha, ela é desejável na Rússia, onde o processo de memória coletiva, ainda bastante marcado pela figura do herói, é substituído pela memória familiar, por uma individualização da lembrança acerca do passado socialista. A memória individual/familiar seria o contraste necessário para se colocar em xeque as construções, que remontam à URSS, de uma memória coletiva pautada pela ideia do heroísmo soviético e trazer à luz outras perspectivas em relação ao que foi a experiência soviética e seus efeitos na Rússia atual.

O historiador e sociólogo francês Dr. Guillaume Mouralis, do Centre Marc Bloch (Berlin, Alemanha), traz a perspectiva de que a Erinnerungskultur não se cinge a uma posição científica, mas representa também um poder da memória em face de interesses políticos, que pode ser observada na forma como foi conduzida a pesquisa sobre a memória da DDR ao longo dos anos 1990. Neste sentido, ele destaca a contradição existente entre uma tendência normativa (judicialização da memória) e uma tendência emocional (reviver o passado através de sentimentos).

af1045bb520e03e3c21b60f1f6c42b4dO Painel III: Experiências ditatoriais na “província” Europa em vista dos Outros buscou refletir sobre as narrativas europeias sobre seu passado ditatorial em contraste com outras regiões do mundo, buscando compreender seu papel como exemplo ou como modelo negativo para o tratamento do passado de ditaduras e guerras civis em outras partes do mundo. O objetivo foi pensar o tratamento da memória e da superação das ditaduras em uma perspectiva globalizada. O Prof. Dr. You Jae Lee, professor de estudos coreanos na Eberhart Karls Universität Tübingen, destacou em sua fala como as ditaduras estão relacionadas de forma essencial à ideia de modernização da colônia, por força da experiência colonial, que deixa o legado de dominação e a forte impressão de necessidade de modernizar o país por meio de um comando ditatorial, que segue o modelo da dominação colonial (algo que podemos relacionar fortemente com as experiências no Brasil e em outros países latino-americanos). O Dr. Frank Schubert, por sua vez, evidencia a relação entre colonialismo e ditaduras a partir do somatório de dois fatores, a saber: raça e dominação, onde o conceito de cidadão é preterido em função do tratamento da população como um conjunto de meros sujeitos, submetidos ao domínio de uma figura ou cultura superior (racismo). Citando a África como exemplo, Schubert aponta a diferença econômica como fator ligado ao anseio por modernização típico das ditaduras. Dra. Julia Schulz Wessel, da Universität Leipzig, apresenta a questão a partir da perspectiva de que o conceito de cidadania é um projeto europeu (conforme também destacado por Arendt em sua obra “Origens do Totalitarismo”) e que tal projeto não foi transmitido às suas colônias, restando aí a dificuldade em tratar os sujeitos como cidadãos e em criar meios políticos que não passem pela ideia de dominação autoritária.

Por fim, o Painel IV: Autocracia, populismo e “Democracia soberana”: para onde vamos com a pesquisa sobre totalitarismo e ditadura? traz um apanhado de reflexões importantes sobre os problemas e o futuro das discussões sobre totalitarismo e ditadura e sobre a zona cinzenta entre democracia e ditadura, colocando a questão se a liberalidade e a democracia não seriam indissociáveis. Quais os novos desafios no que tange a estas questões e quais estratégias futuras podem ser adotadas no tratamento destes?

Dra. Juliane Fürst, professora no Instituto de História da University of Bristol, destaca, mais uma vez, que a pesquisa acerca das ditaduras é um instrumento de poder, muitas vezes condicionado a manipulações e pesquisas seletivas, haja vista que os interesses democráticos por trás desses estudos sucumbem diante das demandas capitalistas na seara acadêmica. Ela aponta que é interessante superar as discussões contrastando ditadura e democracia em vista de uma melhor pesquisa e compreensão do fenômeno ditatorial em si.

A Profa. Dra Ellen Bos, da Universidade de Andrássy (Budapeste), partiu do discurso arendtiano sobre a verdade na política e discorreu sobre o populismo, destacando como este não possui qualquer compromisso ou respeito com a verdade, vez que a verdade é, no entendimento de Hannah Arendt, um limite à política. Bos destaca que, na Hungria, o discurso político fomentou uma polarização a partir da conversão da figura do oponente político em inimigo, descambando em radicalização de posturas e discursos de ódio (algo que podemos também observar no Brasil atual, especialmente a partir das tensões de 2014 em diante, cujas consequências são igualmente a polarização e a radicalização dos cidadãos). Segundo a professora, a retomada da comunicação é imprescindível para a confiança nos processos democráticos e que tais polarizações são o solo fértil para eclosão de anseios autoritários que podem culminar em ditaduras, uma vez que impedem que tal comunicação ocorra.

O professor da University of North Carolina at Chapell Hill, Dr. Konrad H. Jarausch, discorreu sobre o triunfalismo dos anos 1990 e como a simples noção de liberal-democracia não tem o condão de impedir tampouco de cessar o advento e a prática do populismo, uma vez que as perturbações pós-democráticas com a Queda do Muro de Berlim e o fim da Cortina de Ferro, notadamente a crise econômico-social mundial, revigoram e fortalecem o poder dos discursos populistas entre os cidadãos, viabilizando que figuras tidas como outsiders, como Donald J. Trump, logrem ascender ao poder manipulando discursos nesta esteira da insatisfação e da desconfiança do eleitor nas instituições democráticas e na política. Prof. Jarausch frisou que a democracia não é fácil, exigindo muito esforço, convicção e trabalho para ser realizada, e que deve-se saber lidar com essas dificuldades de forma a evitar descambar em pulsões autoritárias, que produzem o ressurgimento aqui e ali dos movimentos de caráter populista (uma lição igualmente importante para o Brasil e para a América Latina, cuja política é marcada por alternância entre ditaduras e populismo, sendo este presente nas experiências autoritárias, mas também e especialmente nas fases democráticas, a exemplo do Peronismo na Argentina e do Varguismo no Brasil, este último buscando um sopro de vida ainda, encarnado por novos atores e movimentos políticos, a exemplo do Lulismo).

Para Jarausch, comunismo e fascismo são sistemas diferentes, pois que existem espectros ideológicos distintos, nos quais estes se encontram, a saber: ideologia liberal, ideologia socialista e ideologia fascista. Porém, uma observação importante para a atualização dos procedimentos ditatoriais hodiernos: quando se cria o discurso do “inimigo”, não é necessário mais recorrer a nenhuma ideologia para lidar com os cidadãos – o discurso do inimigo – em substituição ao do mero oponente político – está na raiz da desconfiança, que mina os processos democráticos e compromete a democracia como um todo. No fim das contas, fica como norte para os cidadãos o recurso à Zivilcourage (“coragem civil”, uma forma ativa de resistência) como meio para impedir a destruição da democracia.

A experiência de participar deste evento teve um saldo bastante positivo, pois, além de trazer os conceitos arendtianos para reflexão de situações atuais, os palestrantes destacaram aspectos relevantes para a compreensão do fenômeno ditatorial, muito mais complexo do que outrora, as nuances da democracia, que pode ser destruída de dentro para fora, deixando só uma “aparência democrática” ou “democracia de fachada” para tentar legitimar autoritarismos, o esforço em distinguir a dominação totalitária dos conceitos de autoritarismo e de ditadura – uma confusão sempre presente, seja por ignorância, seja por interesses políticos em instrumentalizar a história -, as especificidades da questão em face do colonialismo e os desafios no trato da história hoje. Como latino-americana, muitas vezes as discussões me remeteram aos processos políticos pretéritos e atuais ocorridos na América, e como a maturidade política – diretamente ligada à estabilidade econômica, à justiça social e à igualdade dos cidadãos perante as leis – é essencial para que seja possível construir uma democracia sustentada nos fundamentos republicanos e abandonar práticas e anseios paternalistas e autoritários, caminho no qual ainda nos resta muito a percorrer, haja vista a atmosfera inóspita de rivalidade, dominada pelo pensamento político binário e a ocorrência cíclica de encenações no âmbito de nossa história e de nosso sistema político.

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Ludmyla Franca-Lipke é mestre em Direito pela Universidade Federal da Bahia, doutoranda em Ciência Política pela Universidade Livre de Berlim, onde pesquisa sobre memória, juízo e o cotidiano do socialismo na extinta República Democrática Alemã, e editora deste blog.

 


*Título original: “Diktaturforschung und Diktaturerfahrung in der Demokratie”

**Hannah-Arendt-Institut für Totalitarismusforschung e.V. an der Technischen Universität Dresden

Hannah Arendt and Walter Benjamin Don’t Talk. They Sing.

26 de junho de 2018

By A.J. Goldmann | The New York Times.

HAMBURG, Germany — Opera and philosophy make strange bedfellows. The larger-than-life theatricality and emotionalism of Puccini and Verdi don’t exactly lend themselves to clarifying complex, precise ideas.

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Yet by coincidence, not one but two new music dramas about major 20th-century thinkers — two German-Jewish intellectuals who fled the Nazis — have their premieres in Germany this season. Few would have predicted that Walter Benjamin and Hannah Arendt would be joining the ranks of Don Giovanni and Carmen.

“There is no document of civilization which is not at the same time a document of barbarism,” Benjamin wrote in 1940, the year he committed suicide in the Spanish border town of Portbou. Peter Ruzicka’s powerful third opera, “Benjamin,” written for the Hamburg State Opera, where it ran through June 16, takes us through the various stations of the philosopher’s exile in 90 feverish minutes. From beginning to end, it feels like the music of cataclysm: anguished, outraged, hellishly surreal.

Mr. Ruzicka, a former artistic director in Hamburg, is one of a handful of living opera composers who can write music this ambitious and affecting. (Jörg Widmann, Wolfgang Rihm, Thomas Adès and George Benjamin come to mind among the Europeans.)

The nonlinear, associative libretto by Yona Kim — who also directed the gripping staging, set in what seems to be a decaying 19th-century salon — swerves from Berlin to Moscow and from Paris to Riga. Its seven scenes form a hallucinatory series of episodes from Benjamin’s life.

He plays chess and talks Marxism with Bertolt Brecht (the imperious tenor Andreas Conrad), quarrels over Zionism with the kabbalah scholar Gershom Scholem (the insistent bass Tigran Martirossian) and dreams of proletarian children’s theater with his Latvian mistress, Asja Lacis (the charged coloratura soprano Lini Gong). Benjamin himself is a hounded, haunted figure, sung with panic by the baritone Dietrich Henschel. (Mr. Ruzicka bifurcates Benjamin’s personality by adding a spoken double, played by the actor Günter Schaupp.)

The opera includes a scene between Bertolt Brecht (Andreas Conrad, sitting) and Benjamin’s speaking double (Günter Schaupp, underneath the table).

Written for a large orchestra, offstage musicians, a full chorus and a children’s chorus, “Benjamin” is a major undertaking. With the composer in the pit, the score hissed and crackled with furious energy. Mr. Ruzicka’s musical language is heterogeneous and fluid — by turns lyrical, dissonant, shrill and sparse. At times the jagged vocal lines seem lacerated by furiously driven strings; at others, soft winds and strings support sustained notes by the soloists or chorus.

The opera’s centerpiece is an infernal chorus adapted from Mr. Ruzicka’s 2001 opera about Paul Celan, the Eastern European Jew and Holocaust survivor who is considered one of the 20th century’s greatest German-language poets. The piercing cries of “Jerusalem!” seem to express both a longing for escape and the messianic tendencies in Benjamin’s unorthodox thought. The work will be performed next season in Heidelberg, Germany: An opera this robust and impressive deserves to be seen widely.

Hannah Arendt has a cameo in Hamburg, singing a Baudelaire setting to Benjamin as he takes his life, but she’s the leading lady in the picturesque Bavarian city of Regensburg, where the Israeli composer Ella Milch-Sheriff’s new opera, “Die Banalität der Liebe” (“The Banality of Love”) dramatizes the famous — or infamous — romance between Arendt, the great political theorist, and Martin Heidegger, the towering German philosopher and member of the Nazi Party.

Unlike Mr. Ruzicka, Ms. Milch-Sheriff opts for a straightforward narrative, and music to match. At various points, the music is lush, ironic and quotation-heavy; there’s quite a bit of Wagner, Mahler and even Bernstein in the score. But the lack of a unifying harmonic or melodic language is only part of what makes this moderately entertaining, frequently infuriating two-hour work a bumpy ride.

One of Ms. Milch-Sheriff’s odder inspirations is making the young Heidegger a lyric tenor (the robust Angelo Pollak). We meet him, along with Arendt (sung as a young woman with virginal purity by Anna Pisareva and in middle age by Vera Semieniuk, a toughened mezzo), in 1924, during a philosophy lecture in Marburg.

In a witty classroom scene, Ms. Milch-Sheriff sets a passage from Heidegger’s “Being and Time” to music that is a parody of a serenade, complete with mandolin accompaniment. The scene is played primarily for laughs — Heidegger’s language is notoriously complex — and there isn’t much discussion of his philosophy in what follows. He comes across less as a thinker than as a Svengali who seduces and humiliates his young Jewish pupil. Their onstage romance is full of kinky, S&M touches.

“Die Banalität der Liebe” (“The Banality of Love”) is about the romance between the philosophers Martin Heidegger and Hannah Arendt (Vera Semieniuk, seated).CreditJochen Quast 

The libretto by Savyon Liebrecht, based on her play, leaps fluidly from the 1920s to the 1970s and from Germany to Israel and America. In 1933, when the Nazis appoint Heidegger as rector of Freiburg University, Ms. Milch-Sheriff replaces the rakish tenor with a Mephistophelean baritone (Adam Kruzel).

Itay Tiran’s production does a fine job handling the frequent geographical and temporal displacements. While his images are often striking, the production has its excesses. During Heidegger’s Nazi-extolling inaugural address in Freiburg, yellow stars of David rain down on the audience, and the Adolf Eichmann trial scene is a piece of kitsch worthy of Ken Russell.

Gideon Hausner, the Israeli chief prosecutor, has a star of David emblazoned on his forehead, while his hands are outstretched in the manner of the Jewish priestly blessing (not unlike the Vulcan salute, which it inspired). He is a bloodsucking caricature straight out of “The Protocols of the Elders of Zion.” Ms. Milch-Sheriff scores the scene with organ, making the trial seem like an auto-da-fé. Meanwhile, it is Arendt, not Eichmann, who occupies the famous glass box, answering to the claim that she “defended” Eichmann out of love for Heidegger.

The opera stops short of accusing Arendt, who coined the controversial phrase “banality of evil” to help explain the crimes of the Third Reich, of giving the Nazis a free pass because she worshiped German culture (and its great personification, Heidegger).

But in a program note, Ms. Milch-Sheriff writes that her opera is meant to indict, among others, those Jews who continued to “venerate German culture and thus their own murderers.” It’s a false dichotomy: Jewish thinkers like Arendt, and Benjamin, were a fundamental part of the culture whose brilliance the Nazis sought to extinguish. That’s the pity of it all.


Die Banalität der Liebe
Through July 12 at the Theater Regensburg; theater-regensburg.de.
Benjamin
Performed at the Hamburg State Opera, where it returns for two performances in October; staatsoper-hamburg.de.

As iluminações de Hannah Arendt

24 de junho de 2018

Por Richard J. Bernstein*

Tradução de Adriana Novaes 

No prefácio de sua reunião de ensaios de 1968, Homens em tempos sombrios, Hannah Arendt escreveu: “Mesmo nos tempos mais sombrios, temos o direito de esperar alguma iluminação”. Hoje, nos nossos tempos sombrios, a obra de Arendt tem sido lida com uma urgência nova, precisamente porque ela nos dá tal iluminação.

Nascida na Alemanha em 1906, Arendt estudou com proeminentes filósofos de seu tempo, mas deixou o país em 1933, vivendo por um tempo em Paris e, mais tarde, nos Estados Unidos. Ela é conhecida por obras como A condição humana, Sobre a violência, Verdade de política, Origens do totalitarismo e, especialmente, Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, resultado de sua cobertura da julgamento do nazista Adolf Eichmann para a revista The New Yorker.

Ela percebeu de maneira notável alguns dos mais profundos problemas, perplexidades e tendências perigosas da vida política moderna, muitos deles ainda hoje presentes entre nós. Quando fala em “tempos sombrios” e alerta para as “exortações, a moral, que de outro modo, sob o pretexto de confirmar verdades antigas, rebaixam toda verdade à trivialidade sem significado”, podemos ouvir não apenas a crítica aos horrores do totalitarismo do século XX, mas também um aviso sobre as forças que permeiam a política nos Estados Unidos e na Europa hoje.

Arendt foi uma das primeiras pensadoras políticas a alertar que o constante aumento do número de apátridas e de refugiados continuaria a ser um problema intratável. Em um artigo de 1943, o ensaio “Nós refugiados”, baseado em sua experiência pessoal como apátrida, levanta questões fundamentais. Ela descreve graficamente o que significa perder o lar, a língua, o trabalho e conclui com uma afirmação mais geral sobre as consequências políticas do novo fenômeno de massa – a “criação” de massas de pessoas forçadas a deixarem suas casas e seu país: “Refugiados levados de país a país representam a nova vanguarda de seus povos… O comitê de povos europeus se despedaçou quando permitiu que seus membros mais fracos fossem excluídos e perseguidos”.

Quando Arendt escreveu isso, dificilmente poderia ter percebido quão relevantes seriam suas observações em 2018. Quase todo evento político significativo nos últimos 100 anos resultou na multiplicação de novas categorias de refugiados e parece não haver fim à vista. Agora, há milhões de pessoas em campos de refugiados com pouca esperança de voltar para seus lares ou até de encontrar um novo lar.

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Hannah Arendt, aqui em 1969, escreveu sobre sua condição de apátrida como consequência do Holocausto e a substituição da verdade por ficções na política. Neal Boenzi/The New York Times

Em sua obra de 1951, Origens do totalitarismo, Arendt escreveu sobre os refugiados: “A calamidade da falta de direitos não é porque as pessoas são privadas da vida, da liberdade e da busca da felicidade, ou da igualdade perante a lei e da liberdade de opinião, mas porque elas não pertencem mais a qualquer comunidade, seja qual for”. A perda da comunidade tem como consequência a expulsão do povo da própria humanidade. Apelos aos abstratos direitos humanos não significam nada, a menos que haja instituições efetivas que garantam esses direitos. O direito mais fundamental é o “direito a ter direitos”. Ao tratar dos horrores do totalitarismo e repetir que o objetivo da dominação total é destruir a espontaneidade, individualidade e pluralidade humana, Arendt examina o que significa viver plenamente uma vida humana na comunidade política e começar algo novo – o que ela chama de natalidade. Ela também busca examinar as ameaças à dignidade da política – o tipo de política na qual indivíduos se enfrentam como politicamente iguais, deliberando e agindo juntos – uma política na qual o empoderamento pode crescer e a liberdade pública prospera sem violência.

 Seu ensaio “Verdade e política”, publicado em 1967, poderia ter sido escrito ontem. Sua análise da mentira sistemática e do perigo que isso representa para as verdades factuais é urgentemente relevante. Porque verdades factuais são contingentes e consequentemente poderiam ter sido de outra maneira, é muito fácil destruir uma verdade factual e substituí-la por “fatos alternativos”.

Em “Verdade e política”, ela escreveu: “Liberdade de opinião é uma farsa, a menos que a informação factual seja garantida e os próprios fatos não estejam em disputa”. Infelizmente, uma das mais bem-sucedidas técnicas para borrar a distinção entre verdade factual e falsidade é afirmar que qualquer verdade factual é apenas uma outra opinião – algo que ouvimos quase todos os dias do governo Trump. O que aconteceu tão descaradamente nos regimes totalitários tem sido praticado hoje por políticos de destaque com grande sucesso – criar um mundo ficcional de “fatos alternativos”.

De acordo com Arendt, há um perigo ainda maior: “O resultado de uma total e consistente substituição de mentiras por verdades factuais não é que as mentiras agora serão aceitas como verdades e que as verdades serão difamadas como mentiras, mas que o sentido pelo qual nos orientamos no mundo real – e a categoria de verdade versus falsidade está entre os significados mentais para este fim – está sendo destruído”. As possibilidades de mentir não têm barreiras e frequentemente encontram pouca resistência.

Muitos liberais ficam perplexos porque quando sua checagem mostra clara e definitivamente que uma mentira é uma mentira, as pessoas parecem despreocupadas e indiferentes. Mas Arendt compreendeu como a propaganda realmente funciona. “O que convence as massas não são os fatos, nem mesmo fatos inventados, mas apenas a consistência do sistema do qual eles presumivelmente fazem parte”.

Pessoas que sentem que têm sido negligenciadas e esquecidas anseiam por uma narrativa – mesmo uma ficcional e inventada – que dê sentido à ansiedade que estão experimentando e que prometa algum tipo de redenção. Um líder autoritário tem enorme vantagem explorando a ansiedade e criando uma ficção na qual as pessoas querem acreditar. Uma história fictícia que promete resolver os problemas tem muito mais apelo do que fatos e argumentos “razoáveis”.

Arendt não era pessimista. Para contrapor seus alertas sobre os perigos políticos, ela elaborou uma detalhada concepção da dignidade da política. Por causa de nossa natalidade, de nossa capacidade de agir, podemos sempre começar algo novo. O tema mais profundo em Arendt é a necessidade de ter responsabilidade por nossas vidas políticas.

Ela avisou contra ser seduzido pelo niilismo, cinismo e pela indiferença. Ela foi corajosa em sua descrição da mentira, do engano, do autoengano, da construção de imagem e da tentativa dos que estão no poder de destruir a distinção entre verdade e falsidade.

Sua defesa da dignidade da política fornece um padrão crítico para julgar a situação na qual muitos de nós nos encontramos, em que a oportunidade de participar, de agir em conjunto e de se engajar em debates genuínos com pares está sendo reduzida. Nós devemos resistir à tentação de nos excluirmos da política e achar que nada pode ser feito diante de toda atual feiura, decepção e corrupção. O projeto de toda a vida de Arendt foi honestamente confrontar e compreender o lado sombrio de nossos tempos, sem perder de vista a possibilidade de transcendência e iluminação. Este também deveria ser nosso projeto.

*Richard J. Bernstein é professor de filosofia da New School for Social Research e autor do livro “Why read Hannah Arendt Now”.


Agradecemos a Adriana Novaes pelo trabalho de tradução do artigo “The Illuminations of Hannah Arendt”, do Richard Bernstein, e pela generosidade de disponibiliza-lo.

Conglomerados do ensino superior avançam sobre a educação básica

22 de junho de 2018

Com 40 mil escolas e R$ 60 bi em mensalidades, mercado é pulverizado, o que estimula aquisições.

JOANA CUNHA

Após dominar o mercado de faculdades privadas, grandes companhias do setor de ensino com ações em Bolsa avançam sobre a educação básica, que abrange do infantil até o ensino médio.

O passo mais contundente de uma série de iniciativas foi a decisão da Kroton, maior empresa de ensino superior do país, de comprar a gigante do ensino básico Somos, em uma operação avaliada em mais de R$ 6 bilhões anunciada em abril.

A transação gerou uma nova empresa, a Saber, que na semana passada iniciou processo de abertura de capital.

Em rota semelhante, a concorrente Estácio, segunda maior no ensino superior, começou a usar espaços vazios de seus campi para abrigar turmas de ensino médio.

A Ânima, outra grande no mercado de graduação e pós-graduação, fez parceria com a escola Lumiar.

Com cerca de 40 mil escolas privadas no país, o ensino básico é pulverizado em pequenas instituições, o que gera terreno fértil para aquisições.

Nesse universo, é difícil precisar o faturamento total da educação básica no país.

A consultoria especializada Hoper calcula algo em torno de R$ 60 bilhões ao ano só em mensalidades —valor acima do total movimentado pelo ensino superior, de R$ 54,5 bilhões em 2017.

O ensino básico é visto como um mercado mais resiliente a crises porque os pais dificilmente trocam a escola particular por outra mais barata.

Já a graduação, muitas vezes paga pelo próprio estudante, é um gasto que costuma ser postergado quando é necessário economizar.

A corrida das empresas rumo ao básico ocorre no momento em que o Fies, programa de financiamento estudantil do governo, deixou de ser o motor que atraiu alunos para faculdades privadas com crédito barato a partir de 2010.

Desde 2015, quando o corte no Orçamento forçou o governo a enxugar o Fies, elevando os juros cobrados dos alunos e reduzindo a carência, as matrículas de graduação no programa despencaram.

A inclinação para o básico também ganhou força após o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) proibir a fusão entre Kroton e Estácio, em 2017, sinalizando que a concentração do ensino superior por grandes aquisições teria atingido o limite.

O cenário traz dificuldades para a Kroton, que em outubro superava R$ 21 por ação, mas veio caindo até chegar a algo em torno dos R$ 10.

A alternativa rumo ao básico surgiu como boa resposta da Kroton a seus investidores, segundo William Klein, presidente da consultoria Hoper.

Em menos de um mês, ela anunciou a compra do Centro Educacional Leonardo Da Vinci, em Vitória, e a megaoperação da Somos.

A Kroton nega que se trate de uma reação ao mercado. Diz que “há mais de dois anos já discutia impulsionar os investimentos em educação básica” e que tem experiência na modalidade com a marca Pitágoras, desde 1966.

“A decisão de investir em educação básica privada já estava definida, por se tratar de um segmento relevante em alunos e receitas, além de ser um mercado pulverizado e em forte transformação, seja pelo impacto da tecnologia, seja pela demanda social por alunos com competências mais amplas”, diz a Kroton.

A educação básica passou a atrair também outras empresas sem tradição no meio.

É o caso do grupo de investimento Bahema, que começou na década de 1950 como empresa de implementos agrícolas e participou de marcas como Unibanco e Metal Leve.

Desde 2017, o grupo anuncia aquisições no setor de educação. Levou participações majoritárias ou pequenas fatias em escolas como Balão Vermelho e Mangabeiras, em Belo Horizonte, a Escola Parque, no Rio de Janeiro, e a Escola da Vila, em São Paulo.

O receio de que um grupo com esse perfil tenha um olhar financeiro demais sobre o ensino deixou pais apreensivos e houve protestos.

Fred Affonso Ferreira, diretor da Bahema, nega que seu projeto seja de escala.

“Podemos contribuir na gestão financeira e administrativa, mas garantimos às escolas total independência e autonomia na área pedagógica. O retorno é pelo crescimento, não pelo corte de despesas”, diz.

Allan Kenji, pesquisador da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), aponta que as quatro maiores empresas de educação no Brasil reúnem 2.270 fundos institucionais, reflexo do interesse do mercado financeiro pelo sistema educacional brasileiro.

Para ele, é preocupante o fato de serem estrangeiros muitos dos fundos que agora avançam sobre o ensino básico.

Kenji avalia que, à medida que se expandem, ganharão espaço para influenciar políticas públicas de educação.

Em 2017, a gestora de private equity americana General Atlantic elevou sua participação na empresa de sistemas de ensino SAS, que oferece livros didáticos, consultoria pedagógica e outros serviços a mais de 700 escolas no país.

O portfólio da General Atlantic mostra que a empresa já fez investimentos no Airbnb, de hospedagem, e Flixbus, de transporte.

Outro private equity americano, a Warburg Pincus foi atraída pelo ensino brasileiro e levou uma fatia do grupo de educação básica Eleva, do qual também é acionista o investidor Jorge Paulo Lemann. No Brasil, outros negócios em que a Warburg Pincus já ingressou variam de petshops a moda.

​Essas grandes companhias, tanto do ensino superior como os fundos de investimento, são atraídas pela educação básica no Brasil em razão de um mercado com alto potencial de expansão.

Os números desse setor mostram que o país tem cerca de 8,9 milhões de alunos em escolas privadas.
Eles representam, no entanto, menos de 20% do total dos estudantes brasileiros.

Os outros 80% que estão em escolas públicas também são um público-alvo, por meio da venda de sistemas de ensino e material didático.

O caso da compra da Somos pela Kroton, anunciada em abril, é relevante porque faz da companhia a maior em número de alunos de ensino básico, segundo Klein, da Hoper.

Mas o negócio também se destaca pelo gigante mercado de sistemas de ensino e livros didáticos.

Historicamente, a Kroton já atuava com educação básica por meio da marca Pitágoras.

Com a Somos, que é dona do Anglo e das editoras Ática, Scipione e Saraiva, ela também se torna líder no mercado de livros didáticos e sistemas de ensino, para a venda de apostilas e apoio pedagógico.

Para Kenji, da UFSC, a investida da Kroton no mercado de editoras e sistemas de ensino reflete a vocação da empresa em buscar crescimento apoiado no setor público.

Se a expansão das grandes companhias de ensino superior, como a Kroton, na década passada, se deveu em grande parte aos recursos públicos direcionados por meio do Fies, o ingresso na educação básica agora contaria com uma força do governo na demanda por material didático e sistemas de ensino, diz Kenji.

“Eles já capturaram o grosso da formação em ensino superior. Agora, avançam sobre a formação da juventude. Com essa força social concentrada, algo inédito no campo educacional, eles terão a capacidade de determinar políticas e rumos na educação”, diz Kenji.

Maria Helena Guimarães de Castro, ex-secretária-executiva do Ministério da Educação, afirma que ainda é difícil prever qual será o projeto dos grandes grupos de ensino superior para a formação de crianças e jovens.

Ela, porém, rejeita para o setor uma repetição das estratégias de massificação e escala adotadas para os cursos de graduação e pós-graduação.

“Espero que não transformem as escolas básicas como fizeram no ensino superior privado, que, ao olhar muito a escala e a facilidade do Fies, acabou enveredando por um caminho que não é o da qualidade”, afirma Castro.

Procurado, o Ministério da Educação afirma que não cabe a ele observar a concentração de mercado. “A qualidade dos cursos e das instituições é aferida em critérios e na legislação, independentemente de partição de mercado, que não é o foco do MEC”, diz o órgão, em nota.

O Cade afirma que não se manifesta sobre casos em tese ou que ainda não tenham sido notificados, como a operação entre a Kroton e a Somos.

FSP 17.06.2018

The Illuminations of Hannah Arendt

21 de junho de 2018

By Richard J. Bernstein, “Opinion” – The New York Times

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Hannah Arendt, shown here in 1969, wrote of her condition as a stateless person following the Holocaust and of the substitution of truth with fictions in politics. Neal Boenzi/The New York Times

In the preface to her 1968 collection of essays, “Men in Dark Times,” Hannah Arendt wrote: “Even in the darkest of times we have the right to expect some illumination.” Today, in our own dark time, Arendt’s work is being read with a new urgency, precisely because it provides such illumination.

Born in Germany in 1906, Arendt studied with prominent philosophers of her time, but fled the country in 1933, living for a time in Paris, and later, in the United States. She is best known for her major works, including “The Human Condition,” “On Violence,” “Truth and Politics,” “The Origins of Totalitarianism” and especially “Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil,” which grew out of her coverage of the trial of the Nazi Adolf Eichmann for The New Yorker.

She was remarkably perceptive about some of the deepest problems, perplexities and dangerous tendencies in modern political life, many of them still with us today. When she speaks of “dark times” and warns of the “exhortations, moral and otherwise, that under the pretext of upholding old truths degrade all truth in meaningless triviality” we can hear not only a critique of the horrors of 20th-century totalitarianism, but also a warning about forces pervading the politics of the United States and Europe today.

Arendt was one of the first major political thinkers to warn that the ever-increasing numbers of stateless persons and refugees would continue to be an intractable problem. One of Arendt’s early articles, the 1943 essay “We Refugees,” based on her personal experiences of statelessness, raises fundamental questions. In it, she graphically describes what it means to lose one’s home, one’s language and one’s occupation, and concludes with a more general claim about the political consequences of the new mass phenomenon — the “creation” of masses of people forced to leave their homes and their country: “Refugees driven from country to county represent the new vanguard of their peoples … The comity of European peoples went to pieces when, and because, it allowed its weakest member to be excluded and persecuted.”

When Arendt wrote this she could scarcely have realized how relevant her observations would be in 2018. Almost every significant political event during the past 100 years has resulted in the multiplication of new categories of refugees, and there appears to be no end in sight. There are now millions of people in refugee camps with little hope that they will be able to return to their homes or ever find a new one.

In her 1951 work, “The Origins of Totalitarianism,” Arendt wrote of refugees: “The calamity of the rightless is not that they are deprived of life, liberty and the pursuit of happiness, or of equality before the law and freedom of opinion, but that they no longer belonged to any community whatsoever.” The loss of community has the consequence of expelling a people from humanity itself. Appeals to abstract human rights are meaningless unless there are effective institutions to guarantee these rights. The most fundamental right is the “right to have rights.”

By dwelling on the horrors of totalitarianism, and grasping that the aim of total domination is to destroy human spontaneity, individuality and plurality, Arendt probed what it means fully to live a human life in a political community and begin something new — what she called natality. She also sought to probe the threats to the dignity of politics — the type of politics in which individuals confront each other as political equals, deliberate and act together — a politics in which empowerment can grow and public freedom thrive without violence.

Her essay “Truth and Politics,” published in 1967, might have been written yesterday. Her analysis of systematic lying and the danger it presents to factual truths is urgently relevant. Because factual truths are contingent and consequently might have been otherwise, it is all too easy to destroy factual truth and substitute “alternative facts.”

In “Truth and Politics,” she wrote: “Freedom of opinion is a farce unless factual information is guaranteed and the facts themselves are not in dispute.” Unfortunately one of the most successful techniques for blurring the distinction between factual truth and falsehood is to claim that any so-called factual truth is just another opinion — something we hear almost every day from the Trump administration. What happened so blatantly in totalitarian regimes is being practiced today by leading politicians with great success — creating a fictional world of “alternative facts.”

According to Arendt, there is an even greater danger: “The result of a consistent and total substitution of lies for factual truth is not that the lies will now be accepted as truth, and the truth defamed as lies, but that the sense by which we take our bearings in the real world — and the category of truth vs. falsehood is among the mental means to this end — is being destroyed.” The possibilities for lying become boundless and frequently meet with little resistance.

Many liberals are perplexed that when their fact-checking clearly and definitively shows that a lie is a lie, people seem unconcerned and indifferent. But Arendt understood how propaganda really works. “What convinces masses are not facts, not even invented facts, but only the consistency of the system of which they are presumably a part.”

People who feel that they have been neglected and forgotten yearn for a narrative — even an invented fictional one — that will make sense of the anxiety they are experiencing, and promises some sort of redemption. An authoritarian leader has enormous advantages by exploiting anxieties and creating a fiction that people want to believe. A fictional story that promises to solve one’s problems is much more appealing than facts and “reasonable” arguments.

Arendt was not a doomsayer. To counter her warnings about political dangers, she elaborated a detailed conception of the dignity of politics. Because of our natality, our capacity to act, we can always begin something new. The deepest theme in Arendt is the need to take responsibility for our political lives.

She warned against being seduced by nihilism, cynicism or indifference. She was bold in her description of the lying, deception, self-deception, image-making and the attempt of those in power to destroy the very distinction between truth and falsehood.

Her defense of the dignity of politics provides a critical standard for judging the situation many of us find ourselves in today, where the opportunity to participate, to act in concert and to engage in genuine debate with our peers is being diminished. We must resist the temptation to opt out of politics and to assume that nothing can be done in face of all the current ugliness, deception and corruption. Arendt’s lifelong project was to honestly confront and comprehend the darkness of our times, without losing sight of the possibility of transcendence, and illumination. It should be our project, too.

Richard Bernstein is a professor of philosophy at The New School for Social Research and the author of the forthcoming “Why Read Hannah Arendt Now.”

Todos iguais, tão desiguais

19 de junho de 2018

Ideal de autenticidade abraçado por grupos minoritários é falho e excludente.

por Juliana de Albuquerque, para a Folha de S. Paulo.

1803_53Em 1959, Hannah Arendt foi alvo de polêmica ao publicar um artigo sobre Elizabeth Eckford, a adolescente negra cuja foto, no seu primeiro dia de aula, tornou-se ícone do final da política de segregação nas escolas norte-americanas. Na foto, Elizabeth entra no colégio escoltada pela polícia e sob protestos de manifestantes brancos.

Comovida, Arendt escreveu que, independente de raça, nenhuma criança deveria ser obrigada a suportar o ônus de um problema que os adultos não foram capazes de resolver. Arendt ainda protestou que: “… de qualquer forma, a discriminação é um direito social, do mesmo modo que a igualdade é um direito político.

Segundo Michelle Dean, autora de Sharp: The Women Who Made an Art of Having an Opinion (algo como “Sagazes: As Mulheres que Fizeram do Opinar uma Arte”, em tradução livre), Arendt demonstrou não ter conhecimento e vivência suficientes do problema racial norte-americano. No entanto, a autora também comenta que Arendt teria sido motivada a escrever sobre Elizabeth Eckford por motivos nobres; mesmo que se tenha revelado instrumento de uma bondade estrábica.

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Fabiana Cozza

Assim como Arendt escreveu sobre Elizabeth Eckford, hoje escrevo sobre Fabiana Cozza; também por motivos nobres. Talvez eu seja igualmente acusada de miopia social, mas isto pouco importa. O que as políticas identitárias demonstram no Brasil é que, apesar da boa vontade, somos todos obtusos. A única diferença talvez seja a de que, enquanto uns impõem a miopia como cosmovisão, outros têm o bom senso de duvidar dos próprios sentidos.

Muito me comoveu a carta de renúncia da cantora escolhida para interpretar a sambista Ivone Lara no teatro, na qual se lê: “Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e, numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos.”

O protesto de Cozza lembrou-me uma série de outros a que tive acesso para produzir um relatório sobre cristãos novos e judeus retornados, encomendado por um instituto de pesquisa israelense. A acusação de que ela teria a pele muito clara para interpretar Ivone Lara lembrou-me o fato de uma imigrante acusada pelo companheiro de não ser judia o suficiente.

O que mais assusta nessas histórias é o descaso cada vez mais patente pelas narrativas de pessoas que poderiam optar por uma identidade convencional e livre de preconceitos, mas não veem para si outra opção senão abraçar o lado de suas origens que a sociedade enxerga como sendo o mais problemático. Se, ao identificarem-se como negras ou judias, são vítimas de iguais preconceitos, por que será que muitas vezes elas também se sentem vitimadas dentro das suas próprias comunidades?

Em sua carta, Fabiana Cozza escreve que não devemos trazer o racismo para dentro do nosso próprio terreiro. Há de se concordar com Fabiana, cujo comentário reverbera a crítica do poeta Heinrich Heine sobre o judaísmo: talvez os nossos maiores adversários estejam entre nós mesmos.

Hoje muito se comemora o fato de apenas as minorias terem autoridade para decretar quem faz ou deixa de fazer parte dos seus contingentes. O que não se percebe é como o ideal de autenticidade abraçado por grupos minoritários é falho e excludente, muitas vezes sintomático do próprio trauma: acarretando na perpetuação do ciclo de violência moral contra o indivíduo em seu processo de autoconhecimento.

Juliana de Albuquerque

É mestre em filosofia pela Universidade de Tel Aviv e doutoranda em filosofia e literatura alemã pela University College Cork.

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