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Retorno de jihadistas é ameaça para a Alemanha

11/08/2014

Da Síria, salafista saxão anuncia ataques em território alemão, citando alvos específicos. Autoridades estão preocupadas com retorno de partidários do “Estado Islâmico”.

por DW Brasil

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O rapaz no vídeo canta uma melodia cativante, com letra complicada. E cheia de ameaças: “Então venha se juntar às fileiras/ Do ‘Estado Islâmico’/ Uma vida de obediência/ Cheia de honra e satisfação, e terror para os kafir…”

O termo árabe kafir é uma designação depreciativa e significa “infiéis”. A mensagem do vídeo, divulgado online pelo grupo jihadista “Estado Islâmico” (EI), é inequívoca: quem não estiver disposto a professar o islamismo e se submeter às suas regras, será punido.

O portador das “boas novas” – como são anunciadas no vídeo – é Silvio K.. O alemão de 27 anos é o rosto alemão do EI, antes conhecido como EIIL (Estado Islâmico no Iraque e no Levante). Nascido na Saxônia, no leste do país, ele aderiu em Essen à associação salafista Millatu Ibrahim, declarada ilegal na Alemanha, antes de passar para a sucursal do grupo na cidade vizinha de Solingen.

No momento, acredita-se que ele se encontre na Síria, de onde fez seu chamado aos muçulmanos ocidentais para se juntarem à luta armada com o objetivo de formar um califado sob o controle do EI. Questionável é se Silvio K. realmente internalizou seus próprios versos: durante todo o vídeo, ele olha para baixo, como se estivesse lendo as palavras que recita.

Autoridades em alerta

Silvio K., contra quem corre um mandado de prisão internacional, é um velho conhecido dos investigadores. “Ele é a estrela da cena jihadista, e suas palavras encontram eco entre 5 mil ou até 10 mil salafistas na Alemanha”, diz o especialista em terrorismo Guido Steinberg, do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), em Berlim. Considerado perigoso e imprevisível, o islamista saxão já ameaçou assassinar a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel.

Agora ele voltou a colocar em alerta as autoridades de segurança de Washington e Berlim: em sua mais recente ameaça terrorista, conclama abertamente a atentados na Alemanha. Segundo os jornais do grupo alemão de mídia Funke Mediengruppe, Silvio K. insta, numa carta, os “guerreiros de Alá” a lutarem contra os infiéis no país, para dar-lhes “um golpe que jamais esquecerão”.

Como o salafista conta com um número elevado de adeptos, as autoridades de segurança estão levando essa ameaça a sério, especialmente por incluírem informações bastante específicas sobre os alvos planejados. Um deles é a base militar de Büchel, no estado da Renânia-Palatinado, onde estariam estacionadas cerca de 20 ogivas nucleares dos Estados Unidos.

De acordo com o Funke Mediengruppe, a segurança foi reforçada no local, assim como na base aérea de Ramstein. Além dessas instalações americanas, da lista de alvos dos extremistas constam, ainda, órgãos públicos e privados, igrejas, escritórios administrativos, agências do governo, vias e meios de transporte na Alemanha.

Ameaça em alta tecnologia

Desde o início da guerra civil síria, em 2011, as autoridades de segurança alemãs registraram a partida de cerca de 320 jihadistas alemães para a Síria, com um aumento drástico a partir de 2013. Silvio K. estava entre eles.

Segundo o jornalista Ahmet Senyurt, especialista em islamismo, esse afluxo de homens jovens pode ser atribuído ao desejo de fazerem parte de uma “vanguarda revolucionária”. “O califado islâmico do EI é um contraponto social a nossa sociedade de orientação ocidental” e, portanto, de acordo com os radicais, algo a ser defendido.

“A ideologia dos militantes do ‘Estado Islâmico’ pode nos parecer medieval, mas eles usam estratégias avançadas de comunicação e de mídia”, disse Senyurt à DW. Usando tais métodos, o “Estado Islâmico” consegue se conectar com aqueles que nunca estiveram realmente integrados à sociedade alemã.

Problema europeu

Especialistas em segurança têm alertado para o perigo de uma possível volta dos jihadistas à Alemanha, depois de terem sido radicalizados e treinados com técnicas militares. Senyurt não vê motivo para pânico, “mas todos os fatos justificam que se esteja atento e preparado”.

Também são possíveis atentados suicidas, como o registrado em maio, em Bruxelas, quando quatro pessoas foram mortas a tiros por um jovem, complementa o jornalista. É quase certo que o suposto fundamentalista muçulmano tenha participado da “guerra santa” na Síria.

De acordo com Hans-Georg Maassen, presidente do Departamento Federal de Proteção à Constituição, o ataque na capital belga é um sinal concreto de que a volta dos combatentes da Síria tornou-se um problema europeu e um grande desafio para as agências de segurança do continente.

Maassen enfatiza que as autoridades não deveriam focar suas investigações apenas em elementos do sexo masculino. No início de agosto, as autoridades de inteligência da Baviera anunciaram a prisão de uma mulher recém-chegada da Síria. Lá, ela participara da luta radical islâmica contra o regime de Bashar al-Assad, tendo levado seus dois filhos para a zona de combate.

Mussum e o País ingênuo que não existe mais

08/08/2014
Vinte anos após a morte do humorista, a sua imagem é hoje usada por quem se ressente por não poder esculachar minorias sem provocar ofensas
por Matheus Pichonelli |Carta Capital 
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Os Trapalhões

Os Trapalhões

Quem acompanhou as homenagens ao humorista Antonio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, morto há exatos 20 anos, imagina que o Brasil era um lugar puro, ingênuo e agradável no tempo dos Trapalhões. Não havia maldade, não havia patrulha, não havia preconceito. Tal qual Adão e Eva no Paraíso, toda a maldade estava nos olhos de seus criadores, os chatos que inventaram de inventar o pecado e a escuridão e transformaram brincadeira em ofensa e alegria, em constrangimento.

Por algum motivo, o histórico dos Trapalhões se tornou exemplo de como era possível viver em harmonia, sem patrulhas nem amarras politicamente incorretas, até bem pouco tempo atrás. A perda dessa “inocência” é lamentada por quem vê no Mussum, um ator e músico de talento incomparável, o símbolo de um período permissivo, libertário e saudável. Um tempo em que o da poltrona podia ver um negro alcoólatra sacaneando um cearense cabeça chata, que sacaneava o travesti desbocado, que sacaneava o negro banguela.

É sempre delicado analisar, de forma isenta, o que formou e faz parte da nossa memória afetiva. Os Trapalhões são parte dessa memória, pelo menos da minha, que passei boa parte da vida chegando em casa ansioso depois dos passeios de domingo para assistir ao programa da TV Globo. Até hoje me pego rindo à toa das esquetes, algumas disponíveis no YouTube graças às almas mais altruístas. Mas me incomoda um discurso comum entre os antigos fãs do quarteto: naquele tempo não tinha maldade. Como me incomoda o uso da imagem do Mussum como prova desse discurso: “Olha só, batíamos nele e ele nem ligava”.

Aparentemente não ligava mesmo, e isso torna a discussão ainda mais complicada – algo como “se ele não se ofendia, quem sou eu para me ofender por ele?” Mas, zapeando pela internet, encontrei recentemente uma entrevista antiga do comediante à revista humorística Casseta. Me perguntei se aquela entrevista seria aceita hoje e os porquês. Foi o encontro de dois tipos de humor, que tiveram o seu tempo, e hoje talvez não produzissem o mesmo efeito por um motivo simples: evoluímos. Aos trancos, e não na velocidade ou totalidade que deveríamos, mas evoluímos.

Na entrevista é possível rir em muitos momentos e vivenciar o clima de despojamento da época e do bar onde foi gravada. Mas há uma certa melancolia ao tropeçar no velho humor sexista e homofóbico do Casseta e Planeta, grupo que fez sucesso nos anos 1990 sem que parte dos seus integrantes tivesse saído da fase anal. A cada quatro perguntas, três tinham alguma pegadinha de duplo sentido. Você deu? Sentou? Entrou? É chegado? É de fora pra dentro? E gargalhadas.

Alguém, certificando-se de não estar sendo vigiado, poderia confessar: “Foi engraçado, vai?”. E outros poderiam dizer: engraçado para quem?

Na história dos movimentos sociais, só quem sofreu todos os preconceitos na carne (ou na pele) pode dizer quantos anos foram congelados no tempo graças às piadas que ridicularizavam determinados tipos sociais. Quantos anos de luta e sofrimento foram desmoralizados pela ofensa preservada no estereótipo da bicha louca, do negro burro, do judeu (ou o turco/árabe) muquirana, da vizinha devassa?

No caso do Mussum, apelido dado por Grande Otelo em referência a um peixe liso, a história é um pouco mais complexa. Primeiro porque nem ator nem personagem eram totalmente ingênuos, como hoje parecem ser lembrados. O primeiro aprendeu a se virar desde cedo, quase sempre em grupo, no morro, no bar, na Aeronáutica, no teatro, na roda de samba, no estúdio da tevê. O segundo rebatia provocações e não levava desaforo para casa – “negro é seu passado”.

A negação à questão causava desconforto aos grupos antirracismo já na época. Na entrevista, Mussum comentava a reação do movimento negro a uma frase de Renato Aragão ao ver integrantes de sua família em uma piscina: “Pensei que fosse uma sopa de berinjela”. Mussum dizia não entender a gritaria. Argumentava que também sacaneava os cearenses, caso do colega, chamando-os de cabeça de passar roupa. E que ninguém se ofendia por isso. Talvez seja esse o fator de nostalgia de quem hoje vê no período um tempo de inocência: o tempo em que uma minoria podia sacanear outra minoria em canal aberto e ninguém dizia se ofender por isso.

Na mesma resposta, Mussum dizia não aceitar as críticas de que não ajudava os negros, e citava como exemplo o fato de alimentar vários deles em sua casa. E terminava dizendo estar disposto a debater o racismo apenas em casos de discriminação expressas, caso alguém dissesse, por exemplo, ter sido proibido de entrar em determinados lugares por causa da cor.

A entrevista é de outubro de 1991. Mussum já havia visto e vivido muito da vida. Consolidara uma carreira brilhante com uma generosidade ímpar, como atestam todos os testemunhos sobre ele desde a sua morte. Mas não parecia ter se dado conta a tempo do quanto servia a um discurso violento, que na prática, e fora das telas, provocava mais choro do que gargalhada – ao menos para quem era diariamente maltratado e/ou ridicularizado por causa da cor da pele.

O Brasil dos tempos dos Trapalhões, como o Brasil de hoje, não era um País inocente. Era um País onde a maioria da população era negra ou morena, mas não era maioria nas universidades, nos postos de destaque de empresas, nos gabinetes públicos, nos sistemas de representação, na produção científica, nos tribunais e até nos shoppings. Era maioria, no entanto, nas ruas, nos grupos de jovens abandonados, nos morros, nas cadeias, nas fotos com tarja preta dos jornais.

No Brasil do tempo dos Trapalhões, como o Brasil de hoje, poucos admitiam ter preconceito, e poucos seriam capazes de barrar a entrada de alguém em um espaço público pela cor da pele. Como hoje, e como em outros países, havia quem atirasse bananas para jogadores negros ou mulatos no campo, mas só porque eram, como ainda são, protegidos pelo anonimato da arquibancada.

Ao pé do ouvido, e certificando-se de não estar sendo vigiado, havia, como ainda há, quem colocasse em prática os mecanismos invisíveis de seleção, a começar dentro de casa, na escolha das companhias dos filhos (sobretudo das filhas), no discurso de dois pesos e duas medidas a depender da cor de quem prestava um serviço (ou uma barbeiragem no trânsito ou um chute torto no jogo de futebol) ou nas piadas inocentes que mantinham todos na mesma posição herdada dos avós, quando a escravidão formal fora substituída por outras formas de escravidão.

Naquele Brasil, o personagem negro e alcoólatra sacaneava o cearense cabeça chata, que sacaneava o travesti desbocado, que sacaneava o negro banguela – para alegria dos patrões brancos que não entravam na trama.

O Brasil de hoje não é tão diferente do Brasil dos Trapalhões, mas o acumulado de anos, lutas, instrumentos de políticas públicas, campanhas e debates começam a produzir um mínimo de constrangimento a velhas gracinhas antigamente aceitas e transmitidas de pais para filhos.

Tempos atrás, o integrante de uma banda de um stand up comedy abandonou o espetáculo ao ser chamado de “macaco” por um comediante branco diante de uma plateia de maioria branca. Esses são os tempos de consciência que a casa grande confunde com hipocrisia: os tempos em que os anos de sofrimento e luta não estão expostos para o riso, nem dos amigos, nem da plateia. Uma pena que Mussum não tenha vivido para ver. E uma pena que sua imagem, entre genial e inocente, seja usada hoje para apelos ao retorno de outros tempos: os tempos em que a risada era a única arma disponível contra o esculacho dos séculos de escravidão não abolida.

Antisemitism on rise across Europe ‘in worst times since the Nazis’

07/08/2014

Experts say attacks go beyond Israel-Palestinian conflict as hate crimes strike fear into Jewish communities

Jon Henley | The Guardian

In the space of just one week last month, according to Crif, the umbrella group for France’s Jewish organisations, eight synagogues were attacked. One, in the Paris suburb of Sarcelles, was firebombed by a 400-strong mob. A kosher supermarket and pharmacy were smashed and looted; the crowd’s chants and banners included “Death to Jews” and “Slit Jews’ throats”. That same weekend, in the Barbes neighbourhood of the capital, stone-throwing protesters burned Israeli flags: “Israhell”, read one banner.

In Germany last month, molotov cocktails were lobbed into the Bergische synagogue in Wuppertal – previously destroyed on Kristallnacht – and a Berlin imam, Abu Bilal Ismail, called on Allah to “destroy the Zionist Jews … Count them and kill them, to the very last one.” Bottles were thrown through the window of an antisemitism campaigner in Frankfurt; an elderly Jewish man was beaten up at a pro-Israel rally in Hamburg; an Orthodox Jewish teenager punched in the face in Berlin. In several cities, chants at pro-Palestinian protests compared Israel’s actions to the Holocaust; other notable slogans included: “Jew, coward pig, come out and fight alone,” and “Hamas, Hamas, Jews to the gas.”

Across Europe, the conflict in Gaza is breathing new life into some very old, and very ugly, demons. This is not unusual; police and Jewish civil rights organisations have long observed a noticeable spike in antisemitic incidents each time the Israeli-Palestinian conflict flares. During the three weeks of Israel’s Operation Cast Lead in late 2008 and early 2009, France recorded 66 antisemitic incidents, including attacks on Jewish-owned restaurants and synagogues and a sharp increase in anti-Jewish graffiti.But according to academics and Jewish leaders, this time it is different. More than simply a reaction to the conflict, they say, the threats, hate speech and violent attacks feel like the expression of a much deeper and more widespread antisemitism, fuelled by a wide range of factors, that has been growing now for more than a decade.

“These are the worst times since the Nazi era,” Dieter Graumann, president of Germany’s Central Council of Jews, told the Guardian. “On the streets, you hear things like ‘the Jews should be gassed’, ‘the Jews should be burned’ – we haven’t had that in Germany for decades. Anyone saying those slogans isn’t criticising Israeli politics, it’s just pure hatred against Jews: nothing else. And it’s not just a German phenomenon. It’s an outbreak of hatred against Jews so intense that it’s very clear indeed.”

Roger Cukierman, president of France’s Crif, said French Jews were “anguished” about an anti-Jewish backlash that goes far beyond even strongly felt political and humanitarian opposition to the current fighting: “They are not screaming ‘Death to the Israelis’ on the streets of Paris,” Cukierman said last month. “They are screaming ‘Death to Jews’.” Crif’s vice-president Yonathan Arfi said he “utterly rejected” the view that the latest increase in antisemitic incidents was down to events in Gaza. “They have laid bare something far more profound,” he said.

Nor is it just Europe’s Jewish leaders who are alarmed. Germany’s chancellor, Angela Merkel, has called the recent incidents “an attack on freedom and tolerance and our democratic state”. The French prime minister, Manuel Valls, has spoken of “intolerable” and clearly antisemitic acts: “To attack a Jew because he is a Jew is to attack France. To attack a synagogue and a kosher grocery store is quite simply antisemitism and racism”.

France, whose 500,000-strong Jewish community is one of Europe’s largest, and Germany, where the post-war exhortation of “Never Again” is part of the fabric of modern society, are not alone. In Austria last month, a pre-season friendly between Maccabi Haifa and German Bundesliga team SC Paderborn had to be rescheduled after the Israeli side’s previous match was called off following an attempted assault on its players.

The Netherlands‘ main antisemitism watchdog, Cidi, had more than 70 calls from alarmed Jewish citizens in one week last month; the average is normally three to five. An Amsterdam rabbi, Binjamin Jacobs, had his front door stoned, and two Jewish women were attacked – one beaten, the other the victim of arson – after they hung Israeli flags from their balconies. In Belgium, a woman was reportedly turned away from a shop with the words: “We don’t currently sell to Jews.”

In Italy, the Jewish owners of dozens of shops and other businesses in Rome arrived to find swastikas and anti-Jewish slogans daubed on shutters and windows. One slogan read: “Every Palestinian is like a comrade. Same enemy. Same barricade”; another: “Jews, your end is near.” Abd al-Barr al-Rawdhi, an imam from the north eastern town of San Donà di Piave, is to be deported after being video-recorded giving a sermon calling for the extermination of the Jews.

There has been no violence in Spain, but the country’s small Jewish population of 35,000-40,000 fears the situation is so tense that “if it continues for too long, bad things will happen,” the leader of Madrid’s Jewish community, David Hatchwell, said. The community is planning action against El Mundo after the daily paper published a column by 83-year-old playwright Antonio Gala questioning Jews’ ability to live peacefully with others: “It’s not strange they have been so frequently expelled.”

Studies suggest antisemitism may indeed be mounting. A 2012 survey by the EU’s by the Fundamental Rights agency of some 6,000 Jews in eight European countries – between them, home to 90% of Europe’s Jewish population – found 66% of respondents felt antisemitism in Europe was on the rise; 76% said antisemitism had increased in their country over the past five years. In the 12 months after the survey, nearly half said they worried about being verbally insulted or attacked in public because they were Jewish.

Jewish organisations that record antisemitic incidents say the trend is inexorable: France’s Society for the Protection of the Jewish Community says annual totals of antisemitic acts in the 2000s are seven times higher than in the 1990s. French Jews are leaving for Israel in greater numbers, too, for reasons they say include antisemitism and the electoral success of the hard-right Front National. The Jewish Agency for Israel said 3,288 French Jews left for Israel in 2013, a 72% rise on the previous year. Between January and May this year, 2,254 left, against 580 in the same period last year.

In a study completed in February, America’s Anti-Defamation League surveyed 332,000 Europeans using an index of 11 questions designed to reveal strength of anti-Jewish stereotypes. It found that 24% of Europeans – 37% in France, 27% in Germany, 20% in Italy – harboured some kind of anti-Jewish attitude.

So what is driving the phenomenon? Valls, the French prime minister, has acknowledged a “new”, “normalised” antisemitism that he says blends “the Palestinian cause, jihadism, the devastation of Israel, and hatred of France and its values”.

Mark Gardner of the Community Security Trust, a London-based charity that monitors antisemitism both in Britain and on the continent, also identifies a range of factors. Successive conflicts in the Middle East he said, have served up “a crush of trigger events” that has prevented tempers from cooling: the second intifada in 2000, the Israel-Lebanon war of 2006, and the three Israel–Hamas conflicts in 2009, 2012 and 2014 have “left no time for the situation to return to normal.” In such a climate, he added, three brutal antisemitic murders in the past eight years – two in France, one in Belgium, and none coinciding with Israeli military action – have served “not to shock, but to encourage the antisemites”, leaving them “seeking more blood and intimidation, not less”.

In 2006, 23-year old Ilan Halimi was kidnapped, tortured and left for dead in Paris by a group calling itself the Barbarians Gang, who subsequently admitted targeting him “because he was a Jew, so his family would have money”. Two years ago, in May 2012, Toulouse gunman Mohamed Merah shot dead seven people, including three children and a young rabbi outside their Jewish school. And in May this year Mehdi Nemmouche, a Frenchman of Algerian descent thought to have recently returned to France after a year in Syria fighting with radical Islamists, was charged with shooting four people at the Jewish museum in Brussels.

If the French establishment has harboured a deep vein of anti-Jewish sentiment since long before the Dreyfus affair, the influence of radical Islam, many Jewish community leaders say, is plainly a significant contributing factor in the country’s present-day antisemitism. But so too, said Gardner, is a straightforward alienation that many young Muslims feel from society. “Often it’s more to do with that than with Israel. Many would as soon burn down a police station as a synagogue. Jews are simply identified as part of the establishment.”

While he stressed it would be wrong to lay all the blame at the feet of Muslims, Peter Ulrich, a research fellow at the centre for antisemitism research (ZfA) at Berlin’s Technical University, agreed that some of the “antisemitic elements” Germany has seen at recent protests could be “a kind of rebellion of people who are themselves excluded on the basis of racist structures.”

Arfi said that in France antisemitism had become “a portmanteau for a lot of angry people: radical Muslims, alienated youths from immigrant families, the far right, the far left”. But he also blamed “a process of normalisation, whereby antisemitism is being made somehow acceptable”. One culprit, Arfi said, is the controversial comedian Dieudonné: “He has legitimised it. He’s made acceptable what was unacceptable.”

A similar normalisation may be under way in Germany, according to a 2013 study by the Technical University of Berlin. In 14,000 hate-mail letters, emails and faxes sent over 10 years to the Israeli embassy in Berlin and the Central Council of Jews in Germany, Professor Monika Schwarz-Friesel found that 60% were written by educated, middle-class Germans, including professors, lawyers, priests and university and secondary school students. Most, too, were unafraid to give their names and addresses – something she felt few Germans would have done 20 or 30 years ago.

Almost every observer pointed to the unparalleled power of unfiltered social media to inflame and to mobilise. A stream of shocking images and Twitter hashtags, including #HitlerWasRight, amount, Arfi said, almost to indoctrination. “The logical conclusion, in fact, is radicalisation: on social media people self-select what they see, and what they see can be pure, unchecked propaganda. They may never be confronted with opinions that are not their own.”

Additional reporting by Josie Le Blond in Berlin​, Kim Willsher in Paris, John Hooper in Rome and Ashifa Kassam in Madrid

Achado neto de líder das Avós da Praça de Maio roubado na ditadura há 36 anos

06/08/2014

da AFP em Buenos Aires

Enriqueta Estela Barnes de Carlotto usando o pañuelo, marca distintiva das Madres e símbolo de sua luta.

Enriqueta Estela Barnes de Carlotto usando o pañuelo, marca distintiva das Madres e símbolo de sua luta.

A presidente da organização humanitária Avós da Praça de Maio, Estela Carlotto, reencontrou nesta terça-feira seu neto, de 36 anos, que tinha sido roubado pela ditadura argentina (1976-1983) logo depois do nascimento, enquanto sua mãe era mantida em poder dos militares, anunciou um familiar.

“O resultado é positivo. Encontramos o meu sobrinho depois de 36 anos. Ele se apresentou voluntariamente, submeteu-se a um exame de DNA e deu 99,9% de compatibilidade. É uma emoção enorme”, disse ao canal Todo Noticias Kivo Carlotto, filho de Estela e tio do homem encontrado. Kivo também é secretário de Direitos Humanos da província de Buenos Aires.

A mãe deu o nome de Guido à criança, que depois seria roubada pela ditadura. Laura Carlotto foi sequestrada durante a gravidez. Ela foi assassinada no dia 26 de junho de 1978, pouco tempo depois de dar à luz, segundo o relato de uma companheira de cativeiro.

Desde então, Estela Carlotto procurava seu neto, certa de que ele estava vivo.

“É um choque terrível para ele. Mas ele se apresentou voluntariamente, e está tudo bem”, acrescentou Kivo Carlotto, antes de a líder da organização humanitária se manifestar em uma entrevista coletiva à imprensa convocada para esta terça à tarde.

A organização Avós da Praça de Maio nasceu em outubro de 1977 como uma organização próxima das Mães da Praça de Maio, quando algumas mães de desaparecidos deram prioridade à busca por seus netos, sequestrados junto com seus pais ou bebês nascidos nos centros de tortura e extermínio, hoje adultos.

O neto de Carlotto é o 111° encontrado pelas Avós de cerca de 500 bebês e crianças que foram roubados por repressores ou por seus cúmplices durante a ditadura.

Angela Davis critica ausência de negros no poder e na televisão no Brasil

06/08/2014
Mariana Tokarnia | Agência Brasil
A filósofa, escritora, professora e ativista norte-americana Angela Davis criticou no último dia 25 a ausência de negros nos espaços de poder e nos meios de comunicação no Brasil.  “Não posso falar com autoridade no Brasil, mas às vezes não é preciso ser especialista para perceber que alguma coisa está errada em um país cuja maioria é negra e a representação é majoritariamente branca”, disse. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade da população brasileira (50,7%) é negra.

Angela Davis integrou o grupo Panteras Negras e o Partido Comunista dos Estados Unidos e chegou a constar na lista dos dez fugitivos mais procurados pelo FBI (agência federal de investigação dos Estados Unidos).  Ela foi presa na década de 1970 e inspirou a campanha Libertem Angela Davis, que angariou apoiadores em todo o mundo.

“Quantos senadores negros há no Brasil? Se olharmos para o Senado não saberíamos que os negros constituem mais de 50% da população brasileira”, disse, em participação no Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra. “Sempre assisto TV no Brasil para ver como o país se representa e a TV brasileira nunca permitiu que se pensasse que a população é majoritariamente negra”.

Apesar da constatação, Angela fez um alerta: “Não significa somente trazer pessoas negras para a esfera do poder, mas garantir que essas pessoas vão romper com os espaços de poder e não simplesmente se encaixar nesses espaços”. A ativista citou o caso dos Estados Unidos, em que houve época em que não havia político negro e que atualmente é presidido por um negro, Barack Obama. “O que mudou?”, perguntou, sem responder.

Angela voltou a comentar o conflito na Faixa de Gaza, entre Israel e Palestina. “Temos que reconhecer Israel como único Estado colonizador do século 21 que continua a se expandir. Da mesma forma que desafiamos o apartheid [na África do Sul], temos que lutar contra oapartheid israelense. Vidas de crianças estão sendo destruídas em Gaza”, disse. “Temos que expressar nossa solidariedade ao povo da Palestina”.

No dia 23 de julho, Angela defendeu o boicote a Israel como estratégia para barrar o conflito.

EUA: os super-ricos exigem nova classe de criados

05/08/2014

Mordomos, cozinheiros de luxo, governantas, atendentes de bordo: como a desigualdade faz ressurgir profissões quase extintas na democratização pós-II Guerra

Por Lynn Stuart Parramore, no Alternet | Tradução Maria Teresa de Souza, Opera Mundi

Nos Estados Unidos, muitas pessoas ainda acham que empregados domésticos são algo pertencente a uma era distante, uma época menos igualitária e democrática do que a nossa, como a Grã-Bretanha da série sobre a aristocracia inglesa Downton Abbey. Mas à medida que entramos em uma segunda “Era Dourada”, o relógio parece estar voltando atrás, e os super-ricos estão cada vez mais dependendo de criados para cuidar de sua alimentação e das roupas, e também para se sentirem confortáveis. A “recuperação” econômica quase não produz empregos suficientes, mas o setor dos empregados domésticos certamente está crescendo.

As agências estão sendo inundadas por pedidos de mordomos, cozinheiros, motoristas e outros empregados. De que serve um jato particular sem um atendente de bordo? De que serve um iate sem um massagista? De acordo com Claudia Khan, fundadora de uma agência de recrutamento de empregados, em Los Angeles, os ricos estão requisitando “serviços do tipo de Downton Abbey” para igualar o que veem na TV. Ela observa que uma governanta trabalhando para um bilionário pode ganhar US$ 60 mil por ano (o salário médio no setor é de menos de US$ 20 mil), mas uma “empregada exclusiva para uma senhora” pode receber US$ 75 mil dólares. Mordomos em período integral podem conseguir US$ 70 mil por ano, e alguns que viajam com a família em iates e jatos particulares chegam a ganhar até US$ 200 mil por ano.

Vincent Minuto, que atende clientes ricos nos Hamptons [balneário de luxo no estado de Nova York], recomenda uma governanta para cada área de 280 metros quadrados. Se você tem uma propriedade como a do magnata David Siegel, você vai precisar de pelo menos 16 empregados para sua casa de cerca de 4.700 metros quadrados em Windermere, na Flórida.

Em Nova York, interessados no serviço doméstico podem estudar os fundamentos da culinária e dos serviços de lavanderia em um curso ministrado pelo ex-mordomo da multimilionária Brooke Astor, que planeja “revolucionar” o negócio dos mordomos ao fazer os alunos compreenderem por que uma pessoa especializada em lavagem a seco possivelmente não pode passar roupas adequadamente. Do outro lado do Atlântico, o número de empregados domésticos também está chegando às alturas. Um estudo recente realizado pela Wetherell, agência do setor imobiliário para megarricos, revelou que há mais criados trabalhando na área chique de Mayfair, em Londres, do que havia 200 anos atrás.  Entre os 4,5 mil moradores que possuem casa na região, 90% têm criados, enquanto o percentual de moradores de apartamentos é de  80%.Por todo o Reino Unido, a demanda por mordomos dobrou entre 2010 e 2012.

Estigma
A classe dos criados cresceu nas últimas décadas por várias razões. Para a classe média, o arranjo do pós-guerra em que o marido trabalhava e a mulher ficava em casa aspirando pó e fazendo outros serviços era o padrão, mesmo não sendo um esquema especialmente agradável (como Betty Friedan descreveu memoravelmente em A Mística Feminina). Isso indicava  um distanciamento em relação a épocas anteriores, quando mesmo residências de classe média baixa costumavam ter empregados.  Na prática, a tecnologia e melhores perspectivas de emprego para os potenciais trabalhadores domésticos fizeram com que as esposas e mães se tornassem empregadas não pagas, responsáveis por todas as tarefas domésticas.

Mas à medida que mais mulheres começaram a trabalhar fora, e as jornadas dos trabalhadores, em especial nos Estados Unidos, ficaram mais longas, as casas mergulharam no caos. Afinal, as camas não são feitas num passe de mágica. O serviço doméstico tinha de ser feito, e mesmo quando os homens se lançavam a ele, a verdade é que tanto marido como esposa estavam normalmente trabalhando demais e por muito tempo para poder fazer adequadamente as tarefas domésticas. Apesar de um leve estigma nos Estados Unidos ligado à contratação de criados no pós-guerra, diaristas de meio período e babás se tornaram para muita gente o único meio de restabelecer a sanidade.

O mais recente aumento na procura por trabalhadores domésticos está relacionado com a desigualdade. Em lugares como o Oriente Médio, bem como em Hong Kong, Cingapura, Malásia e Taiwan, sempre foi comum importar trabalhadores domésticos de países mais pobres. Mas essa tendência está se espalhando. No Reino Unido, não se trata mais de Jeeves [mordomo personagem da literatura inglesa] fazendo  o chá, mas de Vlad, da Romênia. Nos Estados Unidos, quase metade dos empregados e governantas não nasceram no país, e os latino-americanos dominam. (Um grande bloco dos ricos apoia alegremente a imigração em massa de mão de obra barata, para que esses trabalhadores possam continuar a ser mal pagos.)

Abuso
O trabalho no serviço doméstico sempre é uma forma difícil de emprego, exposta a abusos. Historicamente, criados não podiam recorrer à lei para sua proteção até a imposição no Reino Unido do Master and Servant Act  (Lei dos Patrões e Criados), de 1823, que influenciou a legislação de outros países. Era favorável aos patrões, mas era melhor que nada, e incluía cláusulas para coisas como refeições, roupas e abrigo. Nos Estados Unidos, o New Deal excluiu empregados domésticos das proteções trabalhistas, como é bem conhecido,  e esses serviços ainda continuam sendo um segmento amplamente sem regulamentação.

Empregados domésticos imigrantes estão especialmente propensos a abusos porque estão isolados e com frequência desconhecem seus direitos legais. Trabalhadores sem documentação adequada no país estão à mercê dos empregadores, e alguns casos recentes, como a descoberta de que um homem de Seattle mantinha uma empregada Filipina virtualmente como escrava, mostram como as condições podem ser horríveis. Em 2008, mais de um quarto de todas as empregadas e governantas nos Estados Unidos não tinham documentos para trabalhar no país.

Não deveria haver nenhum estigma ligado ao serviço. Trabalho é trabalho, e ser um chofer ou uma governanta é um meio perfeitamente digno de ganhar a vida. Não há nenhuma razão pela qual essa forma de emprego deva ser sempre insegura e mal paga. Nos Estados Unidos, empregados domésticos vêm obtendo avanços na batalha para serem tratados como os demais trabalhadores. No ano passado, a Califórnia e o Havaí seguiram Nova York e se tornaram, respectivamente, o segundo e o terceiro Estados do país a aprovar uma legislação sobre empregados domésticos, que abrange cozinheiros, garçons, mordomos e algumas babás. Massachusetts pode em breve se tornar o quarto. Mas ainda há um longo caminho pela frente.

Nos tempos antigos, as pessoas costumavam preferir o trabalho doméstico a serviços perigosos ou sujos nas fábricas. Aqueles empregos industriais só se tornaram mais atraentes quando os trabalhadores se organizaram e conquistaram direitos e proteções.

Além de garantirem pagamento por horas extras, períodos de descanso, licença médica e outros direitos básicos, a expansão da rede de seguro social e uma reforma razoável da imigração avançariam bastante no caminho para melhorar as vidas dos empregados domésticos.  Eles estão cada vez mais se tornando uma espinha dorsal da economia, e já deviam estar sendo tratados dessa maneira.

O Hamas e seus 2 milhões de escudos humanos

03/08/2014
Diante de um adversário impiedoso, o Hamas utiliza uma tática que coloca em risco toda a população da Faixa de Gaza
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por José Antonio Lima |Carta Capital
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O elevado número de civis palestinos mortos na Operação Protective Edge (Borda Protetora) tem feito Israel, e seus defensores, baterem repetidas vezes na tecla de que o Hamas utiliza escudos humanos. O assunto é bastante controverso, mas a realidade é que, a despeito de Israel estar realizando ataques desproporcionais, a tática do Hamas de fato coloca toda a população da Faixa de Gaza em perigo.

Na quinta-feira 31, as Forças Armadas israelenses divulgaram dois vídeos importantes. O primeiro, abaixo, mostra imagens aparentemente captadas por drones do que seriam 12 lançamentos de foguetes a partir de áreas civis na Faixa de Gaza.

O segundo mostra a vistoria feita por soldados em uma mesquita destruída em combate. É possível ver armas pesadas que, segundo os israelenses, estariam escondidas no templo, também usado para acobertar entradas da rede de túneis utilizada pelo Hamas.

Desde o início da operação, a Unrwa, a agência da ONU para os refugiados palestinos, encontrou foguetes em três de suas escolas, que estavam vazias. Em 29 de julho, um outro vídeo divulgado pelos militares israelenses mostrou o que seriam os lançamentos de três foguetes a partir de uma escola em Gaza.

Em 25 de julho, em análise sobre possíveis crimes de guerra cometidos por Israel e Hamas, a Anistia Internacional lembrou que, em conflitos anteriores, a ONG documentou o uso de instalações civis como depósito de armas e local de lançamento de foguetes por parte de facções palestinas contra alvos civis israelenses, o que é ilegal. Desta vez, sobre a questão do possível uso de escudos humanos, há relatos, afirma a Anistia, de que o Hamas tem pedido para a população permanecer em suas casas mesmo com os avisos de Israel, feitos por telefonemas e por panfletos, sobre ataques iminentes em áreas civis. Para a Anistia, isso não configura crime de guerra oficialmente, uma nomenclatura que exigiria ordens diretas a civis para proteger instalações e equipamentos militares. Com base nisso, repórteres da BBC e do jornal The New York Times disseram não ter visto evidências de uso de escudos humanos.

Israel não tem dúvidas sobre a tática do Hamas. Para o governo israelense, o grupo palestino usa este artifício com o objetivo de aumentar o número de vítimas civis e fazer o Hamas ganhar a “guerra da propaganda”. “Nós pedimos para a população: ‘saiam’. Nós pedimos a eles de novo e de novo. Nós ligamos para eles, mandamos mensagens de texto, damos panfletos. Nós pedimos que eles saiam, e alguns saem. O Hamas diz: ‘não saiam, nós proibimos vocês’. Então o Hamas está usando essas pessoas, esses civis, como escudos humanos”, disse Benjamin Netanyahu, o premier israelense, em entrevista à BBC em 20 de julho.

Há duas ponderações importantes sobre as acusações. A primeira é que a Faixa de Gaza é um território minúsculo, de 11 quilômetros por 40 quilômetros, onde moram 1,8 milhão de pessoas. Quase todas as áreas são densamente povoadas, o que dificultaria a separação entre áreas militares e civis mesmo que o Hamas desejasse fazer essa distinção. As considerações sobre o tamanho da Faixa de Gaza costumam irritar os israelenses, mas até a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, falou sobre isso em entrevista recente. A segunda ponderação é mais importante. Como afirmou à CNN na semana passada Hanan Ashrawi, da Organização para a Libertação da Palestina, o Hamas não é só uma guerrilha, mas também um movimento islâmico responsável por escolas, creches e hospitais. O Hamas é ainda um partido político, e também o governo da Faixa de Gaza. Inúmeras instituições civis, assim, pertencem ao grupo. Se Israel tem o Hamas como um todo como alvo, tem sob sua mira todas essas instalações.

Mesmo diante dessas observações e, da constatação de que o Hamas não está cometendo um crime de guerra no rigor da lei, é óbvio que os atos do grupo militante colocam em risco a população palestina.

Em 17 de julho, reportagem do jornal The Washington Post revelou que o subterrâneo do hospital Al-Shifa, o mais importante da cidade de Gaza, se tornou o “quartel general dos líderes do Hamas, que podem ser vistos nos corredores e escritórios”. O pouco destaque dado a essa informação na imprensa internacional indignou publicações pró-Israel, como a revista judaica Tablet, que fez uma longa reportagem detalhando como os jornalistas estrangeiros são ameaçados pelo Hamas.

Há evidências para corroborar a crítica. Na semana passada, o jornal francês Libération tirou do ar uma reportagem no qual seu colaborador Radjaa Abou Dagga descrevia como fora ameaçado por integrantes do Hamas. A alteração se deu a pedido do jornalista, que tem familiares em Gaza. O jornal Algemeiner, judaico como a Tablet, teve acesso ao relato de Dagga e conta que o jornalista foi interrogado dentro do hospital Al-Shifa. Na terça-feira 29, o repórter italiano Gabriele Barbati afirmou que os jornalistas estrangeiros em Gaza são mesmo ameaçados pelo Hamas. Pelo Twitter, Barbati confirmou que um ataque na segunda-feira 28 contra o campo de refugiados de Shati, na cidade de Gaza, que matou nove crianças, foi fruto de um erro do Hamas, e não das forças israelenses.

O fato de apenas publicações judaicas, como a Tablet e o Algemeiner, darem destaque para as ameaças feitas pelo Hamas a jornalistas fortalece a tese, vigente em círculos pró-Israel, de que o país é perseguido, e também a vitimização utilizada pelo governo israelense para ganhar apoio interno. Lamentavelmente, dá argumentos para quem busca deslegitimar o jornalismo que é feito na Faixa de Gaza e, assim, defender as ações israelenses. O ápice desta prática foi o post de David Bernstein no blog The Volokh Conspiracy, do Washington Post, com “40 perguntas para a mídia internacional“. Há pontos válidos, mas as perguntas acabam por tentar tirar a credibilidade de todo o jornalismo feito na Faixa de Gaza.

Como já dito, as hostilidades atuais só tiveram início por conta de uma atuação deliberada do governo Netanyahu. Uma vez iniciado o conflito, no entanto, sua dinâmica deixa claro que Israel e o Hamas compartilham um abominável desprezo pelas vidas de civis palestinos. O uso de tanques de guerra e artilharia naval e aérea em áreas residenciais é crime de guerra pois viola o ponto da Convenção de Genebra que proíbe ataques intencionais contra populações civis. Isso não absolve o Hamas, entretanto. O grupo diz lutar pela liberação da Palestina e dos palestinos, mas suas ações são imorais e eticamente condenáveis, pois nada mais fazem do que colocar os habitantes da Faixa de Gaza sob risco. Essas quase 2 milhões de pessoas podem não ser escudos humanos na letra fria da lei, mas o são de fato.