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O totalitarismo de tempos sombrios: um diálogo entre Doutor Fausto e Origens do totalitarismo |Pedro Ferreira Leite

15 15-02:00 abril 15-02:00 2020

Hannah Arendt (1987) empresta sua concepção de “tempos sombrios” do poema An die Nachgeborenen (À posteridade), de Bertolt Brecht, para tratar da primeira metade do século XX. Esse período, marcado pelas catastróficas guerras mundiais, pelos horrores do totalitarismo e por um surpreendente desenvolvimento das artes e das ciências, permeou toda a obra legada por Arendt, numa tentativa de compreender os fenômenos brutais que abalaram todo o mundo de maneira irreversível. Como ela nota, muito embora Brecht retrate uma catástrofe pública, não secreta, de desordem e fome, de massacres e assassinos, de cólera contra a injustiça e desespero quando só havia injustiça e não revolta, tudo isto “não era em absoluto visível para todos, nem foi tão fácil percebê-lo; pois, no momento mesmo em que a catástrofe surpreendeu a tudo e a todos, foi recoberta, não por realidades, mas pela fala e pela algaravia de duplo sentido, muitíssimo eficiente, de praticamente todos os representantes oficiais que, sem interrupção e em muitas variantes engenhosas, explicavam os fatos desagradáveis e justificavam as preocupações” (Ibid., p. 7-8). Os “tempos sombrios” assim são porque foram escondidos, por governos invisíveis e por um discurso público que não se preocupa em discutir e entender os eventos humanos, mas escondê-los debaixo do tapete. Nas sombras, o mundo se torna tão dúbio que as pessoas almejam fugir da realidade, deixando de resistir a ela com sua humanidade. Resta, então, voltarmos nossa atenção justamente àquilo que é concreto, real, para compreendermos e, assim, resistirmos aos tempos sombrios.

Em Doutor Fausto (2015), Thomas Mann procura criar “nada menos do que um romance da minha época, disfarçado numa história de vida de artista altamente precária e pecaminosa” (MANN, 2001, p. 35). Assim, retrata, por outra perspectiva, os mesmos tempos sombrios que Hannah Arendt. Na trama de Mann, a história do compositor Adrian Leverkühn é também a história da Alemanha, que faz um pacto com o Demônio para tentar alcançar a grandeza e revolucionar completamente a música — e a História. O pacto fáustico, segundo Mann (2001, p. 29) reinterpretando Goethe, é a “escapatória das dificuldades da crise da cultura, a ânsia por eclosão, a qualquer custo, de um espírito orgulhoso e ameaçado de esterilidade, assim como o paralelismo entre a embriaguez popular fascista e uma euforia danosa desembocando num colapso”. Entendendo “cultura” como a própria tradição humanista alemã, percebe-se que o pacto é resultado de uma crise dos valores do humanismo burguês, dentre os quais se encontram os ideais da Revolução Francesa. Adrian, ao criar seu magnum opus, busca revogar o bom, o nobre, a alegria e a esperança dos princípios humanistas, substituindo-os pela “lamentação” do destino que tomaram estes princípios (MANN, 2015, p. 562).

 

Para ler o texto integral, CLIQUE AQUI.

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  1. Osvaldo José da Silva permalink
    15 15-02:00 abril 15-02:00 2020 6:08 PM

    Distinto e notável teu texto Pedro Leite, sobretudo por apontar a partir de Thomas Mann, o nos atuais tempos sombrios: “”Os “tempos sombrios” assim são porque foram escondidos, por governos invisíveis e por um discurso público que não se preocupa em discutir e entender os eventos humanos,”” o obnubilamento do cenário contemporâneo provocando um risco para o exercício da democracia política. Parabéns!

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