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Hannah Arendt e o fio da vida | Ludmyla Franca-Lipke e Renan Teles

14 de outubro de 2020

O diário “Unser Kind”, escrito majoritariamente por Martha Arendt, que integra o livro “À travers le mur: un conte et trois paraboles”, descreve os primeiros passos da vida de sua filha Hannah Arendt, do nascimento até os 12 anos de idade. Dos registros de Martha e Paul Arendt obtemos pistas que ajudam a biografar os anos iniciais da pensadora: “(…) nenhum dom artístico, tampouco habilidades manuais, mas sem dúvida uma precocidade intelectual. Sobretudo um interesse ardente por letras e livros[1] ou, ainda, uma “sensibilidade extraordinária[2] são descrições maternas que nos apresentam um retrato da criança Hannah Arendt. Apesar das cortinas do destino, Martha Arendt anteviu em seus escritos que, ao se posicionar entre as estantes de livros e a sensibilidade na compreensão de um mundo-limite, sua filha teria a perspicácia de ler os dois.

Arendt foi uma criança marcada pela circunstância de ter um pai doente. Sofrendo os efeitos da sífilis, que à época era incurável, Paul Arendt perdia lentamente a razão e o contato com a realidade, enquanto sua única filha crescia solitária, mas alegre. Privada da presença de outras crianças, Hannah Arendt cresceu entre ruínas, livros e impressões, marcada pela necessidade de entender o que acontecia à sua volta – na infância, o exercício da compreensão se realiza em face dos infortúnios familiares; na vida adulta, o seu olhar se volta para as tragédias do século XX e do mundo enquanto casa da humanidade.

Hannah Arendt perde seu pai poucos dias após seu aniversário de 7 anos. Diante da morte, a mãe observa que a filha, ainda tão pequena, não se atém à perda. Antes, ela nota a beleza das flores, das músicas e da reunião das pessoas ligadas por vínculos afetivos. Viuvez era algo comum na família, havia outras mulheres criando filhos sozinhas e referidas a um mundo feminino onde mulheres fortes e engajadas tomam as rédeas de suas vidas. Apesar disso, sua mãe registra no diário da criança seu maior receio: que a filha, crescendo sem a presença do pai, torne-se, como ela, uma mulher cujas emoções a levam a sofrer em suas relações. Deseja para ela a força dos Arendt, mas reconhece a si mesma na sensibilidade da filha.

No colo do pai, Paul Arendt

Ao longo da vida, Hannah Arendt vai realmente viver essa sensibilidade, expressa em suas cartas românticas, nas cartas às amigas, nos seus poemas e escritos íntimos. Aos 17 anos, viverá uma intensa paixão com Martin Heidegger, que a fará sofrer profundamente e pela qual será julgada, especialmente após sua morte. Um julgamento sem par na história dos grandes pensadores. Arendt terá sua vida e obra vinculadas a essa experiência amorosa de uma forma que nenhum outro pensador ou pensadora experimentou, em uma tentativa de depreciá-la enquanto mulher para deslegitima-la como intelectual. Sua condição feminina, contudo, não será vivida da forma como esperavam. Apesar da fragilidade emocional notada por sua mãe, a criança torna-se uma mulher que se insere, sem pedir permissões, em um mundo masculino. E vence, apesar de tudo. Talvez o pai, morto quando ela ainda era pequena, tenha deixado para Arendt a chave de sua autoafirmação: uma imensa biblioteca e a paixão pela poesia, pela literatura e pelos clássicos da Antiguidade.

A criança que preferia os livros às bonecas, que se encantava com a beleza dos funerais, que se perdia na biblioteca de casa e dizia preferir morrer a ser privada de ler seus livros e exercitar sua compreensão acerca do mundo, fez daquela suposta fraqueza notada pela mãe a sua maior força: o pensar apaixonado na esteira do amor pelos livros e pela arte, que a levaria a inquietações profundas até chegar numa de suas construções teóricas mais potentes: o amor mundi, o amor ao mundo.

No momento que o pânico paralisa o pensar e o agir, os ensinamentos de Hannah Arendt representam suspiro e reflexão. Com método de escrita e conteúdo singulares, o texto arendtiano causa um certo estranhamento inicial. É exemplo concreto do pensamento livre e despreocupado em agradar os fragmentos ideológicos de um mundo fraturado. Não por outra razão, quando carregamos para a leitura das obras arendtianas a pré-compreensão de palavras-chaves do cotidiano, tais como liberdade, política, ação, cultura ou mundo, Hannah Arendt golpeia e surpreende nossos sentidos. Retira o chão sob nossos pés e nos desafia a pensar. Ao longo da vida, precisamos estabelecer uma amizade duradoura com o texto arendtiano para um melhor entendimento daquilo que ele nos diz. 

Se o fio da vida pessoal de Hannah Arendt encontra um ponto de partida no diário escrito por seus pais, o da obra pode ser contado a partir das várias categorias que compuseram o seu pensar, apresentando-se a natalidade como uma das que nos auxiliam nesse percurso. Em Origens do Totalitarismo[3], Arendt conclui o texto com a ideia de que “O começo, antes de tornar-se evento histórico, é a suprema capacidade do homem; politicamente, equivale à liberdade do homem. Initium ut esset homo creatus est – ‘o homem foi criado para que houvesse um começo’, disse Agostinho. Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós” (p. 531). Após a apreensão e a angústia causadas pela leitura de Origens, Arendt encerra afirmando, com apoio no texto agostiniano, a potencialidade de um começo (initium) decorrente do milagre da vida. No instante em que se esperava a mudez e a imobilidade decorrentes da análise realizada em torno do terror, Hannah Arendt nos lança para a ideia da capacidade humana de criar algo novo, ainda que desconhecido.

No excerto citado, natalidade e começo encontram-se entrelaçados. Porém, a concepção do “outro”, a explosão que o nascer carrega em si e o corte que principia a constituição do indivíduo não são enquadrados, dentro do pensamento arendtiano, apenas na perspectiva biológica, ou seja, enquanto “elemento da existência humana” (A Condição Humana, p. 11)[4]. O biológico desencadeia a ideia de natalidade, sem esgotá-la. Arendt ensina que o “(…) nascimento e a morte de seres humanos não são simples ocorrências naturais, mas referem-se a um mundo no qual aparecem e do qual partem indivíduos singulares, entes únicos, impermutáveis e irrepetíveis” (A Condição Humana, p. 119).

Ao afirmar que trabalho, obra e ação se encontram “enraizados na natalidade” (A Condição Humana, p. 6), o nascimento passa a figurar como uma das bases para a compreensão da vita activa. E, embora as esferas da condição humana encontrem no nascimento uma raiz, Arendt esclarece ser com a ação que a natalidade estabelecerá maior proximidade, visto que “(…) somente o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, de agir” (A Condição Humana, p. 11). A capacidade de começar e, com esse começo, “iniciar algo novo” é fundante para pensar as categorias da política e da liberdade arendtianas. Como lançado em Origens do Totalitarismo, a liberdade política é inserida “nesse poder-começar que, por seu lado, está contido no fato de que cada homem é em si um novo começo, uma vez que, por meio do nascimento, veio ao mundo que existia antes dele e vai continuar existindo depois dele” (O que é política?)[5].

Ao transcender a categoria biológica, a natalidade desperta o desfiar do fio da vida. O tecer ganha a dimensão do narrar. Nascemos como estranhos em um mundo comum e, apesar de compartilharmos desde a chegada o mundo das coisas, o “mundo factual depende para sua realidade e existência contínua, em primeiro lugar da presença de outros que tenham visto e ouvido e que se lembrem” (A Condição Humana, p. 117). A natalidade implica a potencialidade que cada individuo carrega de criar algo novo e de transmitir o mundo em um processo de partilha e construção do comum. Há um novo que se imbrica no processo de transformação da lembrança em estórias contáveis por sujeitos plurais e na aptidão desse narrar em garantir o compartilhamento do mundo.

Com sua mãe, Martha Arendt

Inexiste trivialidade na afirmação da natalidade corresponder a “(…) categoria central do pensamento político” (A Condição Humana, p. 11). Ao escrever que a morte é objeto de investigação metafísica e não da teoria política, Hannah Arendt afasta-se do ser-para-a-morte, fundante em determinada corrente do pensamento filosófico, ao passo em que dirige a reflexão às possibilidades abertas pelo agir dentro de um mundo vivo. É o grito do recém-chegado o gérmen do futuro discurso. Com isso não concluímos que a palavra morte desapareça dos textos arendtianos. Entretanto, não há na morte a potencialidade viva da criação. Além disso, como nos chama atenção Paul Ricoeur: “Só a natalidade pode escapar às ilusões da imortalidade de parte dos mortos que pensam na eternidade[6].

A morte não assusta Hannah Arendt. Ao voltar seu olhar para o exato oposto do luto, que é a natalidade e todas as possibilidades que surgem com o nascimento de cada ser humano, sempre único, insubstituível, portador da promessa e das transformações, ela se despede da tradição filosófica e abraça o desafio de construir uma reflexão política original, capaz de dar conta do vazio a que fomos inseridos pelas experiências ocorridas na primeira metade do século XX. A natalidade, como promessa e abertura para o milagre do novo, está atrelada a como realizaremos o nosso compromisso com o mundo, se somos capazes de amá-lo ao ponto de nos sentirmos responsáveis por ele, para usarmos as palavras da própria Arendt. É nesse elo de amor e responsabilidade, na esteira do milagre do novo, que se insere a reflexão arendtiana sobre a condição humana e suas implicações.

Na política diária e não arendtiana a que estamos atualmente imersos, a morte veste-se de tragédia ou resulta de regimes criminosos que atentam sistematicamente contra a ideia de humanidade. Não encontraremos em Hannah Arendt fórmulas ou soluções concretas para resistirmos a essa realidade que nos envolve. O legado arendtiano é uma obra viva, que instiga a pensar, a ir além, a buscar caminhos sabendo que nossa tradição se perdeu e nossa herança não possui testamento, que não há amparos, trilhos ou corrimãos para nos guiar. Se quisermos assumir a responsabilidade pelo mundo é preciso coragem para se expor, pensar e julgar.

As reflexões dela dialogam com as aflições atuais em que o compreender se torna essencial. É a partir de um olhar amoroso, de sua sensibilidade e paixão pela vida, pelo conhecimento e pelo mundo, que Arendt vai desenvolver sua rica contribuição intelectual, deixando como legado não um sistema de teorias e conceitos frios para serem apreendidos, reproduzidos e concretizados por uma legião de seguidores. Sua obra tem sobrevivido às críticas qualificadas ou às irreflexões ocasionais dos guias das multidões. Pensar a partir de (e não contra) Hannah Arendt é imperativo para o estranhamento e o agir crítico face ao obscurantismo narcisístico que arquiteta, em uma temporalidade que parece flertar com o infinito, formas injustas de demolir a essência da política que reside na liberdade do poder-começar.


[1] Tradução livre do original: “Künstlerische Begabung scheint mir in keiner Hinsicht da zu sein, auch keine manuelle Geschicklichkeit, wohl aber eine intellektuelle Frühreife und vielleicht auch Befähigung“. In.: À travers le mur : un conte et trois paraboles précédés de Martha Arendt/Notre Enfant (journal). Payot: Paris, 2015, p. 54-55.

[2] Tradução livre do original: “Sie ist von einer außerordentlichen seelischen Sensibilität“. Ibid., p. 70-71

[3] ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

[4] ARENDT, Hannah. A condição humana. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2020.

[5] ARENDT, Hannah. O que é política? 12. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2018, posição 490 (E-book).

[6] Tradução livre do original: “Seule la natalité peut échapper aux illusions de l’immortalité de la part de mortes qui pensent l’éternité”. RICOEUR, Paul. Préface. In.: ARENDT, Hannah. Condition de L’Homme Moderne. Paris : Calmann-Lévy, 2018 (E-book).

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  1. Osvaldo José da Silva permalink
    14 de outubro de 2020 13:57

    Muito bom meus amigos! vou agregar aos meus apontamentos.

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