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O paradoxo da opinião

6 de setembro de 2020

Por Cláudia Perrone-Moisés e Ludmyla Franca-Lipke

Hannah Arendt foi de encontro à tradição da filosofia ao mostrar a importância da opinião nos assuntos humanos. Uma vez que, para ela, a opinião faz parte da política: “A antiga e aparentemente obsoleta questão da verdade versus opinião vale a pena ser reaberta”. (Verdade e Política, p. 283). Para Arendt, é a opinião que sustenta o poder e não a verdade: “A persuasão não vem da verdade, mas da opinião” (Verdade e Política, p.320). Para Arendt, a discussão das opiniões é a condição para que uma realidade possa se manifestar aos homens, gerando, assim, um “mundo comum”. O espaço político é, em última instância, criado por essa troca de opiniões. Apoiada na tradição socrática Arendt lembra que cada pessoa tem sua doxa (opinião, glória e fama) e o importante é que cada doxa possa se revelar para si e para os outros na esfera pública. Essa revelação de nossas opiniões uns aos outros depende, para Arendt, do pensamento e é fundamental para que formemos nosso juízo. Essa é uma das razões pelas quais ela sustenta que a pluralidade é a lei da terra (Filosofia e Política, p. 101).

No último dia 30 de agosto, em Paris, na manifestação de centenas de pessoas contra o uso obrigatório de máscaras, lia-se em um cartaz a seguinte citação de Arendt: “quando todo mundo mente permanentemente o resultado não se traduz na crença na mentira, mas sim no fato de que todos passem a não acreditar em mais nada. Um povo que não pode acreditar em mais nada não pode formular uma opinião. Ele é, então, não somente privado da capacidade de agir, mas também da capacidade de pensar e julgar. E com um povo nessa situação, você pode fazer o que quiser.”

Esse acontecimento foi analisado por Géraldine Mosna-Savoye no Carnet de philo do podcast da France Culture. Nele é dito, com razão, que a estranheza da utilização da citação não vem somente do fato de que ela é longa demais para uma manifestação ou por ela ser parte de uma entrevista dada por Arendt e retirada de seu contexto. A utilização de frases soltas de Arendt, sem qualquer apoio no conhecimento mais profundo da obra, se tornou prática nos últimos anos, em que seu pensamento vem sendo explorado e banalizado de todas as formas que se possa imaginar, para ilustrar afirmações das mais variadas espécies. A utilização de citação tão longa em uma manifestação, por outro lado, é um acontecimento interessante.

Mas a verdadeira estranheza desse acontecimento é produzida, como bem dito na matéria, pelo fato de que com essa citação se afirma o desaparecimento da opinião justamente para sustentar uma opinião: a de que existiria “um complô das empresas farmacêuticas para impor uma ditadura médica mundial”. Este evento coloca em evidência a contradição que vivemos, a verdadeira questão por trás do fenômeno: o que parece ocorrer no mundo de hoje é que só existem opiniões e a verdade que é construída pela ciência, pode ser considerada uma mentira. Não devemos esquecer que Arendt também alertava para os perigos da conversão dos fatos em opinião, ao defender o estatuto da verdade factual como condição pré-política. Como bem disse Arendt: “a persuasão e a violência podem destruir a verdade, mas não a substituem”.

Um dos aspectos para os quais Arendt chama atenção em suas considerações sobre a mentira na política é a confusão dos conceitos de realidade e verdade. A realidade é interpretável, maleável, ao passo que a verdade não o é. Ao falarmos em verdade, portanto, estamos, segundo Arendt, buscando salvaguardar os fatos dos perigos das construções de realidades baseadas em substituição dos fatos por fantasias, mentiras e ilusões. Segundo Arendt “o apagamento da linha divisória entre a verdade factual e a opinião é uma das formas que a mentira pode assumir” (Verdade e Política, p. 309). A mentira na política é uma forma de destruir a verdade, não uma questão de simplesmente escondê-la, pois ela visa substitui-la ao moldar a realidade para encaixá-la em crenças. A veracidade dos fatos é aniquilada e os indivíduos ficam à mercê do auto-engano, da mentira e da estupidez, embotados pela “verdade ideológica” de um grupo ou de um líder. Como lembra Arendt, “o que impede histórias, imagens e pseudofatos de se tornarem um substituto adequado para a realidade e a factualidade?”(Verdade e Política, p. 313). Assim, ao negar a ciência, ao distorcer fatos e criar conspirações, o que se pretende é destruir a verdade e inserir os sujeitos numa realidade paralela na qual suas crenças e medos se confirmam. É neste turbilhão de mentiras e fantasias, criadas na esteira das ideologias, que as frases de Arendt são, muitas vezes, deturpadas e descontextualizadas para satisfazer a ignorância de alguns.

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  1. Osvaldo José da Silva permalink
    6 de setembro de 2020 20:31

    Profa. Cláudia. Texto instigante para pensarmos também uma ampla gama de contextos e contradições que estamos vivenciando. Vou reler para aprender mais ainda. Grato, por disponibilizar tão preciosa reflexão.

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