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O fascismo explicado por Jason Stanley

16 16-02:00 dezembro 16-02:00 2019

Alfons C. Salellas

    Na primavera de 2018 apareceu nas prateleiras das livrarias do Brasil um ensaio importante, que está fazendo sucesso em todo o mundo, intitulado Como funciona o fascismo, do professor de filosofia da Universidade de Yale, Jason Stanley, publicado pela L&PM de Porto Alegre e traduzido por Bruno Alexander.

    Bem ao início do seu livro, Stanley deixa claras duas coisas. A primeira, que a política fascista, tóxica de qualquer modo, não leva necessariamente ao estabelecimento de um Estado fascista. E a segunda, que o atual pode ser que não tenha a mesma aparência que tinha durante a década de 1960, mas que todos os sintomas daquilo que um dia chamou-se de fascismo voltam a estar presentes na cena internacional dos nossos dias. É sobre isto mesmo que versa este trabalho, brilhante e necessário, que revisita múltiplos exemplos entre a Itália dos anos vinte do século passado, passando pela Alemanha dos trinta e quarenta, até Myanmar, Hungria, Polônia e os Estados Unidos do presente. Cabe entender que a ausência do Brasil bolsonarista só se deve a época de redação do ensaio, mas o leitor não deixará de perceber estratégias que lhe serão infelizmente familiares.

      O problema com o fascismo é que dele criamos um mito, e os mitos são inatingíveis por definição, nada pode ser comparado a eles. Porém, lamentavelmente o fascismo não tem nada de mitológico. Foi uma realidade para milhões de pessoas durante o século XX i aqueles que fizeram a experiência contam que o clima que respiramos hoje tem muito a ver com aquele que existia nos momentos prévios aos grandes desastres humanitários. Com o nazismo se passa algo parecido. Uma coisa é que ele seja invocado automaticamente e seja usado como desqualificador aos cinco minutos de começar uma discussão entre duas pessoas com pontos de vista políticos opostos e, no outro extremo, que nunca se possa falar nele porque é um monstro que quedou relegado à noite dos tempos e ali é que deve ficar, quieto e guardado. Tanto a frivolidade como o respeito reverencial fazem-nos sombra para tratar de entender isto que hoje está a nos acontecer e é por este motivo que são tão bem-vindas as palavras de Stanley sobre a progressiva normalização de políticas extremistas em diferentes partes do mundo como, por exemplo, o trato desumano aos refugiados, as detenções indiscriminadas e encarceramentos injustos, as retóricas de candidaturas eleitorais contra a imigração que falseiam os dados com o intuito de chegar ao poder ou a mentira tratada como notícia, entre outros. Costumar-se a práticas moralmente reprováveis significa tornar habitual e ordinário aquilo que pouco tempo antes teríamos vivido como excepcional. Desta maneira vamos tolerando o intolerável cada vez com maior tranquilidade e, por conseguinte, como escreve o autor do livro, as acusações de fascismo sempre nos parecem exageradas posto que a invasão de condições ideologicamente extremas vão nos parecendo cada dia mais normais. A normalização, afirma Stanley, significa que as regras do jogo para o uso legítimo do adjetivo “extremo” estão mudando sem parar e isto faz com que as acusações de “fascismo” sempre nos pareçam exageradas, mas isto, segundo ele, não é um bom argumento contra o uso da palavra. Assim as coisas, torna-se necessária uma compreensão cabal do significado e as táticas que o fascismo emprega quotidianamente, e esta é a razão de ser e a pertinência do ensaio de Jason Stanley.    

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    O livro é dividido em dez pontos e um epílogo. Explica a necessidade que o fascismo sempre teve de apresentar a nação com um passado mítico, fabuloso e adulterado; a propaganda que usa para seus fins, a fobia a toda amostra de sofisticação intelectual – o fascismo não existe para dialogar e debater racionalmente, mas para ser imposto de forma visceral e emocional -; as teorias da conspiração nas quais acredita, ou finge que acredita, para inundar a sociedade de um irrealismo necessário para a melhor aplicação de medidas radicais, que logo serão socialmente percebidas como normais; o senso da hierarquia entre vidas que valem mais e vidas que valem menos; a vitimização com a emoção que esconde a contradição entre movimentos nacionalistas movidos pela igualdade e movimentos nacionalistas movidos pela dominação (os oprimidos de hoje podem converter-se nos opressores do amanhã ao querer promover a própria hegemonia); a obsessão com a lei a ordem por cima da igualdade e da justiça social; a demagogia dirigida contra as minorias sexuais, uma ameaça ao patriarcado, e, finalmente, as grandes metrópoles vistas como centros de perversão, mestiçagem e promiscuidade para definir aquilo que de um ponto de vista distinto é entendido como exemplo de pluralismo social salutar. O livro de Stanley não é um ensaio de filosofia política propriamente dito, mas uma explanação trufada de exemplos das estratégias que o fascismo usa para condicionar a política e a vida quotidiana da gente e, eventualmente, chegar ao poder.

    Sobre o problema histórico que o Brasil continua a carregar, vale a pena ler este fragmento: “Desde que Platão e Aristóteles escreveram sobre o assunto, os teóricos políticos sabem que a democracia não pode florescer em solo envenenado pela desigualdade. Não é só que os ressentimentos criados por tais divisões sejam alvos tentadores para um demagogo. O ponto mais importante é que a dramática desigualdade representa um perigo mortal para a realidade compartilhada necessária numa democracia liberal saudável. Aqueles que se beneficiam das desigualdades são frequentemente sobrecarregados por certas ilusões que os impedem de reconhecer a contingência de seus privilégios. Quando as desigualdades se intensificam, essas ilusões tendem a entrar em metástase.”

    Como funciona o fascismo pode ser entendido como uma longa meditação sobre aquilo que tanto preocupou Hannah Arendt, isto é, a persistência de elementos totalitários nas assim chamadas sociedades livres, motivo pelo qual não gostaria de acabar estas notas sem uma menção especial às últimas páginas do capítulo final, antes do epílogo, nas quais Stanley estabelece um fio condutor entre a iniciativa privada e a meritocracia defendidas por Hitler e o mercado livre desregulado promovido pelo liberalismo económico. Não é só que Hitler deplorasse que os sindicados representassem, segundo ele, a ineficiência nos negócios e na vida da nação – quando na verdade o fascismo os rejeita pela ligação que estabelecem entre indivíduos passando por cima de diferenças de raça ou de religião –, mas entendia a iniciativa privada como a plataforma ideal para entronizar o líder, o homem forte que a través do princípio da meritocracia se outorga o direito de governar aqueles que são tidos como fracos. O liberalismo económico vincula a virtude e a liberdade à riqueza que cada um foi capaz de acumular, de modo que, seguindo esta ideologia, não só a liberdade é algo que se “ganha” como o mesmo respeito é algo que as pessoas devemos fazer por merecer. Stanley, não obstante, já havia lembrado muito antes que não forma do vocabulário democrático que o respeito básico e igualitário deva ser uma conquista do esforço laboral, mas que todos somos merecedores dos bens básicos da sociedade e que toda a vida é igualmente digna. “Os movimentos fascistas – escreve – compartilham com o darwinismo social [do liberalismo económico] a ideia de que a vida é uma competição pelo poder, segundo a qual a divisão dos recursos da sociedade deve ser deixada para a pura concorrência do livre mercado. Os movimentos fascistas compartilham seus ideais de trabalho duro, iniciativa privada e autossuficiência. Ter uma vida digna de valor, para o darwinista social, é ter superado os outros pela luta e pelo mérito, ter sobrevivido a uma feroz competição por recursos. Aqueles que não competem com sucesso não merecem os bens e recursos da sociedade. Numa ideologia que mede valor pela produtividade, a propaganda que apresenta os membros de um grupo externo como preguiçosos é uma maneira de justificar sua colocação inferior numa hierarquia de valor”. Stanley admite sem problemas que todas as instituições e sistemas são imperfeitos, incluindo aqueles que dão as boas-vindas aos sindicados e promovem a ideia do bem-estar social, mas isto não representa para ele obstáculo algum, antes todo o contrário, para a defesa de uma mobilização conjunta visando melhores condições de vida universais, deixando a um lado diferenças de qualquer tipo – culturais, religiosas, de gênero ou de aptidão física e mental – que nos permita reconhecer aquilo que a todos nos une como humanos.

2 Comentários leave one →
  1. Osvaldo José da Silva permalink
    16 16-02:00 dezembro 16-02:00 2019 2:38 PM

    Prezados.
    A resenha realizada pelo sr Alfons sobre a obra de Stanley, é de uma preciosidade impar para os tempos hodiernos quanto à realidade política do Brasil. Já coloquei a obra Como Funciona o Fascismo, na minha lista.
    Sinto falta dos eventos do C.H.A. Há planos para oportunas ações?
    Abraços,
    Osvaldo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. jairofedel permalink
    19 19-02:00 dezembro 19-02:00 2019 3:47 PM

    infelizmente os bons estão em silêncio, isso é muito perigoso para a democracia, faz com que o facismo cresça e nem percebamos. Já estamos no meio desse caldo…

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