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As mulheres, o nascimento e a natalidade em Hannah Arendt | por Camila Külkamp*

27 27-02:00 abril 27-02:00 2019

Hannah Arendt foi a única “filósofa” que pude estudar “formalmente” na minha graduação em Filosofia na Universidade Federal do Pará, que conclui em março de 2019. Coloquei a palavra “filósofa” em aspas, pois, mesmo que eu quisesse estudar uma filósofa no curso, Arendt não costumava afirmar que se reconhecia enquanto tal. Se considerava mais uma teórica política, e não se sentia aceita nos círculos dos filósofos, como afirmou para a entrevista com Günter Gaus em 1964.

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Hannah Arendt e sua mãe, Martha

E a palavra “formalmente” também é destacada, porque cito aqui apenas as referências bibliográficas das disciplinas obrigatórias oferecidas pelos professores e professoras do meu curso. Desde o início da minha graduação já percebia o campo da filosofia brasileira como majoritariamente masculino e europeu, e me senti determinada em dar visibilidade para as mulheres que fizeram filosofia em nossa história. Tive que estudar as obras das filósofas, muitas vezes de difícil acesso, em momentos extraclasse, sem orientação docente. Desse modo, decidi partir das condições que me foram dadas, tentei aliar as reflexões filosóficas da única “filósofa” (também proveniente da Europa) que estudei na minha graduação com os debates feministas.

Comecei minha pesquisa buscando saber o que Hannah Arendt escreveu acerca das mulheres. Partindo de comentários polêmicos que a pensadora dirigiu aos movimentos de mulheres de sua época, busquei analisar em meu trabalho o que Arendt registrou sobre o tema, seja em seus ensaios em que a pensadora abordou variados aspectos da história da vida de Rosa Luxemburgo e de Karol Blixen, assim como a resenha que fez sobre a questão da emancipação feminina em que comentou a obra de Alice Rühle-Gerstel, como também o livro que escreveu sobre a vida de Rahel Varnhagen.

Mas para entender por que Arendt escreveu sobre as mulheres da maneira que fez, tive que abordar também variados aspectos da sua filosofia política. Escolhi apresentar no trabalho os conceitos de nascimento e de natalidade da autora, expostos tanto em sua tese sobre o conceito de amor em Santo Agostinho, quanto em obras posteriores que revelam em pormenores a teoria política arendtiana. Entendo ser importante questionar acerca da coincidência que podemos levantar: que além de Arendt escrever sobre a história de vida de grandes mulheres, ela tem como conceito principal de sua filosofia a natalidade, conceito este, que pode nos remeter, à primeira vista, ao trabalho reprodutivo das mulheres.

Este percurso teórico foi delineado com vistas a possibilitar, no último capítulo do meu trabalho, a criação de uma breve leitura contemporânea de Arendt acerca do nascimento político das mulheres. Nesta última parte, busco apresentar uma breve leitura contemporânea do posicionamento de Arendt acerca do nascimento político das mulheres, e as dificuldades implicadas neste nascimento que foram expostas no material apresentado nos dois capítulos anteriores. Meu intuito é explorar o que Arendt escreveu sobre as mulheres, apresentar tensões e conflitos teóricos em relação aos conceitos de nascimento e natalidade, e contribuir para as relações que podem ser realizadas entre as reflexões de Hannah Arendt com as teorias políticas feministas contemporâneas.

Concluindo, confesso que não foi nada fácil realizar esta pesquisa, pelo esforço que tive em manter o foco e não fugir muito do escopo do trabalho. Comento também a ampla bibliografia internacional de teóricas feministas que produzem com base na filosofia arendtiana, e que por vezes, ainda são de difícil acesso no Brasil e sem tradução.

Meu trabalho foi o primeiro em toda a história do curso de filosofia da UFPA que abordou um tema relacionado com as mulheres e os debates feministas. Entendo que a conclusão principal foi averiguar que Arendt não estava alheia à questão da identidade política das mulheres na sua época, ao contrário do que poderíamos pensar por suas declarações polêmicas. E que além das insuficiências expostas pelas críticas que podem ser dirigidas a Arendt, a sua filosofia política apresenta uma ampla abertura para muitas reflexões significativas que as teorias políticas feministas buscam debater na contemporaneidade.

Mas meu objetivo mesmo era fazer com que a única “filósofa” estudada no curso chegasse um pouco mais perto dos anseios levantados pelos debates feministas, em prol da liberdade e tendo como fundamento a construção de uma crítica contra a subordinação das mulheres. Anseios que inúmeras estudantes, como eu, apresentam ao buscarem se reconhecer na filosofia.

Para ler o trabalho de Camila Külkamp, clique aqui.


*Camila Külkamp é bacharela em Direito (CESUPA) e Advogada (OAB-PA), especialista em Filosofia da educação (UFPA), licenciada em Filosofia (UFPA), mestra em Ciência Política (UFPA) e doutoranda em Filosofia (UFSC).

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  1. Osvaldo José da Silva permalink
    27 27-02:00 abril 27-02:00 2019 11:02 AM

    O livro sobre Marx que nunca terminou
    O livro inacabado de Hannah Arendt sobre Marx oferece um diálogo filosófico oportuno para nossa era de precariedade econômica.
    GEOFFREY WILDANGER
    O Desafio Moderno à Tradição: Fragmente eines Buchs
    Hannah Arendt, editada por Barbara Hahn e James McFarland, com Ingo Kieslich e Ingeborg Nordmann
    Wallstein Verlag, € 49.00 (pano)

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