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Al-Quds, Yerushaláyim, Jerusalém e a paz no Oriente Médio

10 de janeiro de 2018

por Luciana Garcia de Oliveira[1]

Al-Quds, é como os árabes e os muçulmanos chamam Jerusalém e Yerushaláyim, é como esta cidade é chamada pela comunidade judaica e israelense. Nos últimos dias a atenção do mundo voltou-se a Jerusalém e, mais uma vez, a terra santa voltou a ser palco de manifestações e de conflitos. Entretanto, a razão para esse novo ciclo de violência não foi um atentado suicida promovido por algum militante do Hamas ou da Jihad Islâmica e nem um ataque a facadas promovido por um judeu ultra ortodoxo indignado com a parada do Orgulho Gay na cidade. Dessa vez o desencadeamento da violência é resultado de uma declaração irresponsável por parte de um presidente inescrupuloso e intransigente. Donald Trump decretou a transferência da embaixada dos Estados Unidos em Israel da cidade de Tel Aviv para Jerusalém. Em um discurso realizado no congresso da organização lobista The American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) assinalou que Jerusalém é a eterna capital do povo judeu e que ele estaria atuando em nome da comunidade judaica americana. Disse, com entusiasmo, que a sua filha, Ivanka, estaria esperando um “bebê judeu” e que esta criança ficaria feliz com Jerusalém como capital.[2]

Além de irresponsável, o discurso de Donald Trump é comprovadamente desonesto. A declaração do presidente americano visou tão somente agradar a maioria do seu eleitorado, formado por evangélicos e fundamentalistas cristãos. De acordo com uma interpretação messiânica, Jerusalém é a capital indivisível de Israel pois a cidade é sagrada desde que o rei Davi a proclamou como capital no 10º século a.C. Além disso, Jerusalém foi o local do Templo de Salomão e do Segundo Templo.

Uma pesquisa realizada pela organização J. Street junto à comunidade judaica americana em 2014 apontou que 80% dos entrevistados disseram defender uma solução de dois Estados e 72% afirmaram apoiar Jerusalém Oriental “como capital de um Estado palestino independente ao lado de Israel”.[3] O American Jewish Committee chegou a resultados semelhantes quando o assunto abordado, em uma pesquisa de opinião, foi a mudança da embaixada americana para Jerusalém em 2017. Apenas 16% dos entrevistados afirmaram apoiar esta medida, enquanto que 44% reprovavam a transferência de embaixada. [4]

 O presidente Trump usou de má-fé ao se referir aos judeus em seus discursos, já que a maioria da comunidade judaica americana não compõe o seu eleitorado e a sua base de apoio no congresso dos Estados Unidos.

O anúncio da transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém e o reconhecimento de Jerusalém como a capital indivisível do Estado de Israel fez eclodir uma série de manifestações e conflitos em uma cidade conhecida por sua vulnerabilidade à violência sectária. Segundo o livro anual de estatísticas de Jerusalém, a cidade abriga cerca de 1200 sinagogas, 150 igrejas e 70 mesquitas. E, apesar dos inúmeros esforços em manter a coexistência pacífica entre cristãos; judeus ortodoxos e seculares; muçulmanos sunitas, xiitas e sufis; drusos e armênios, a cidade tem sido disputada entre palestinos e israelenses desde 1948.

 Foi durante a guerra de independência de Israel e da Nakba (catástrofe) palestina, em 1948, que as Forças de Defesa de Israel (FDI) concentraram suas forças em Jerusalém, muito embora o plano de partilha da Palestina decretado pela Organização pelas Nações Unidas (ONU) não abrangesse a divisão da cidade sagrada. Jerusalém deveria se tornar um corpo separado, ou corpus separatum, e regida sob um regime internacional. De acordo com o professor da Universidade de Oxford, Avi Shlaim, “a batalha por Jerusalém foi iniciada por uma ofensiva israelense poucos dias antes do fim do mandato britânico, e foi em resposta a essa ofensiva que, no dia 17 de maio, o rei Abdullah ordenou que a legião árabe avançasse para defender a Cidade Velha” (2004, p. 76)

Anos mais tarde, em junho de 1967, durante a brutal guerra dos Seis Dias, mais precisamente no dia 7 de junho, aproximadamente às 10 horas da manhã, Jerusalém já estava mantida sob o domínio israelense. Três horas depois, o general Moshe Dayan, em frente ao Muro das Lamentações, declarou: “Esta manhã a FDI libertou Jerusalém. Nós reunimos a Jerusalém dividida, a capital seccionada de Israel. Retornamos aos nossos lugares sagrados, voltamos com o objetivo de não partirmos nunca mais” (SHLAIM, 2004, p. 302).

Talvez a realidade de uma Jerusalém ocupada por Israel desde 1967 seja determinante para que muitos militantes pela causa Palestina não se surpreendam com a decisão de Donald Trump. A parte oriental de Jerusalém, reivindicada pelos palestinos, além de estar ocupada por Israel é permeada por assentamentos israelenses. Em outubro deste ano de 2017 as autoridades israelenses aprovaram a construção de mais 176 casas para os judeus em um bairro palestino de Jerusalém Oriental. A ampliação da colônia Nof Zion, “que já tem 91 casas, será o maior assentamento dentro de um bairro palestino da cidade de Jerusalém”[5]. Em uma realidade de ocupação territorial, a declaração de Donald Trump sobre Jerusalém apenas oficializa uma realidade pré-existente de toda a Palestina ocupada e fragmentada desde 1948.

 A construção da pátria judaica nunca dependeu da cooperação entre árabes e judeus e entre palestinos e israelenses. Dependeu quase exclusivamente do empreendimento pioneiro judaico e do apoio financeiro da comunidade judaica da diáspora e dos Estados Unidos. O isolamento econômico e social de Israel permitiu a implementação de uma estrutura econômica avançada, ao mesmo tempo que conduziu a população judaico-israelense a um sistema à parte, denominado por Hannah Arendt de “planta estufa” no meio de uma população nativa e de Estados árabes hostis (2016, p. 711). O desenvolvimento econômico do novo Estado criou novos empregos voltados para os trabalhadores imigrantes, deixando a população nativa sem perspectivas de trabalho. As autoridades sionistas não se preocuparam com a realidade da Palestina, apenas se atentaram com o problema da apatridia judaica, sem considerar a população nativa.

A Palestina histórica, não somente Jerusalém, é uma terra santa para as três religiões monoteístas, tanto os árabes-palestinos como os judeus-israelenses têm direito a desfrutá-la. A Palestina já era um Estado binacional antes da fundação de Israel. Em 1948, Hannah Arendt, inspirada pelas ideias do ex-reitor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Judah L. Magnes, clamava sobre a necessidade da participação palestina em uma federação no Oriente Médio como o melhor projeto a fim de se evitar conflitos, intolerâncias e derramamento de sangue (2016, p. 732).

Ao invés de cooperação entre palestinos e israelenses houve guerra, a dominação de um povo sobre o outro e o deslocamento de cerca de 700 mil palestinos dos territórios dominados por Israel. A insistência nacionalista na soberania absoluta em um país tão pequeno como Israel, de acordo com Arendt “só pode conduzir à balcanização de toda a região e sua transformação em um campo de batalhas para os interesses conflitantes das grandes potências em detrimento de todos os autênticos interesses nacionais” (2016, p. 730).

O projeto de uma Palestina confederada deveria ser posta em prática tão somente com Jerusalém como capital comum, da mesma forma como havia sido estabelecido pela ONU. E o apoio financeiro vindo de uma grande potência deveria acontecer em situações de emergência. A dependência financeira de Israel, de certo modo, forçou o Estado a criar situações de emergência com base em uma política de agressividade e de expansão territorial. Nesse passo, a declaração do presidente americano apenas dá continuidade à política de ocupação territorial de Israel implementada desde 1948.

A decisão de transferir a embaixada dos Estados Unidos para a cidade de Jerusalém torna-se ainda mais grave se pensarmos no significado de Jerusalém para o mundo muçulmano. Isso porque Jerusalém é considerada a terceira cidade mais sagrada para o islã, depois de Meca e Medina, localizadas na Arábia Saudita. A primeira cidade sagrada, Meca, segundo o Alcorão sagrado, foi construída pelo patriarca Abraão, a segunda, Medina, foi a casa do profeta Muhammad e a terceira é Jerusalém. Está registrado no Alcorão sagrado, na Surata 17 o Al-Isrá (a viagem noturna) milagrosa do profeta Muhammad de Meca para a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém.

Segundo a renomada escritora britânica Karen Armstrong (1997), no imaginário islâmico, Meca e Jerusalém são uma cidade só, um território contínuo sagrado. Outro detalhe importante é que Jesus Cristo é um dos cinco principais profetas do Islã portanto, além das tradicionais mesquitas de Jerusalém, muitos muçulmanos ao redor do mundo costumam peregrinar pela Via Dolorosa até a igreja do Santo Sepulcro, passam pelo Monte das Oliveiras até a Tumba da Virgem Maria.

O presidente Donald Trump, ao reconhecer Jerusalém como a capital do Estado de Israel, estendeu o conflito Israel-Palestina para todo o mundo muçulmano. Ao encorajar outros países ocidentais a transferirem a suas embaixadas de Tel Aviv para Jerusalém, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, provocou lideranças de muitos países de maioria islâmica como a Turquia, Irã, Egito, Síria, Líbano, Iraque, Malásia e Indonésia. Além de provocar a fúria de grupos islâmicos como a Irmandade Muçulmana, Hamas e Hezbollah.

Após anunciar a transferência da embaixada dos Estados Unidos em Israel, Donald Trump reafirmou, cinicamente, o seu comprometimento em facilitar um “acordo de paz aceitável” tanto para israelenses como para palestinos e em apoiar uma solução de dois Estados para o Oriente Médio. Caberá saber, ao certo, em que espaço será construído o futuro Estado palestino e como é que a paz será reestabelecida após a maior potência do mundo reconhecer a cidade sagrada de Jerusalém como a capital do Estado de Israel, de modo a contrariar toda a comunidade internacional.

A paz é indiscutivelmente essencial para o Estado de Israel, para o povo árabe e para o povo palestino. No entanto e, de acordo com Hannah Arendt, “a paz não pode ser imposta de fora, ela só pode ser o resultado de negociações, compromisso mútuo e acordo final entre judeus e árabes” (2016, p. 699). Uma paz duradoura e permanente é o resultado de muito diálogo e de sacrifícios entre as partes envolvidas no conflito. Uma medida inoportuna e unilateral vinda de fora apenas irá piorar uma realidade permeada por ameaças, sectarismos, radicalismos e violência.

 

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Luciana Garcia de Oliveira é mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo e pesquisadora associada do Centro de Estudos Hannah Arendt. E-mail: luciana.garcia83@gmail.com

 


REFERÊNCIAS

  1. Referências bibliográficas:

ARENDT, Hannah. Escritos Judaicos. São Paulo: Amarilys, 2016.

ARMSTRONG, Karen. Sacred Space: The Holiness of Islamic Jerusalem. Journal of Islamic Studies, 1997, pp. 5-20.

SHLAIM, Avi. A Muralha de Ferro – Israel e o Mundo Árabe. Rio de Janeiro: Fissus, 2004.

  1. Outras fontes de pesquisa:

HAYEK, Samir E. (Trad.). Alcorão Sagrado com comentários. São Paulo: MarsaM Editora Jornalística, 2004.

Israel aprova novos assentamentos em bairro palestino de Jerusalém. Rádio France Internationale, outubro, 2017. Disponível em: http://br.rfi.fr/mundo/20171025-israel-aprova-novos-assentamentos-em-bairro-palestino-de-jerusalem.

AJC Survey of American Jewish Opinion 2017. AJC Global Voice. September, 2017. Disponível em: https://www.ajc.org/survey2017.

2014 Election-Night Poll Results. J. Street – The political home for pro-Israel, pro-peace Americans. November, 2014. Disponível em: http://jstreet.org/press-releases/2014-electionnight-poll-results-_1/#.WjlTtd-nHIU.

LANGER, Armin. Opinião: Jerusalém, Trump e o eleitorado evangélico. Disponível em: http://www.dw.com/pt-br/opini%C3%A3o-jerusal%C3%A9m-trump-e-o-eleitorado-evang%C3%A9lico/a-41746670.

[1] Mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo e pesquisadora associada do Centro de Estudos Hannah Arendt. E-mail: luciana.garcia83@gmail.com.

[2] LANGER, Armin. Opinião: Jerusalém, Trump e o eleitorado evangélico. Disponível em: http://www.dw.com/pt-br/opini%C3%A3o-jerusal%C3%A9m-trump-e-o-eleitorado-evang%C3%A9lico/a-41746670. Acessado no dia 19 de dezembro de 2017.

[3] 2014 Election-Night Poll Results. J. Street – The political home for pro-Israel, pro-peace Americans. November, 2014. Disponível em: http://jstreet.org/press-releases/2014-electionnight-poll-results-_1/#.WjlTtd-nHIU. Acessado no dia 19 de novembro de 2017.

[4] AJC Survey of American Jewish Opinion 2017. AJC Global Voice. September, 2017. Disponível em: https://www.ajc.org/survey2017. Acessado no dia 19 de dezembro de 2017.

[5] Israel aprova novos assentamentos em bairro palestino de Jerusalém. Rádio France Internationale, outubro, 2017. Disponível em: http://br.rfi.fr/mundo/20171025-israel-aprova-novos-assentamentos-em-bairro-palestino-de-jerusalem. Acessado no dia 19 de dezembro de 2017.

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