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Certa imagem de Hannah Arendt

2 de novembro de 2017

por Thiago Dias da Silva

Hannah Arendt entrou de fato na cena intelectual com o surgimento de seu Origens do totalitarismo, publicado pela primeira vez em 1951, nos EUA. Dentre as contribuições fundamentais do livro, encontramos uma formulação teórica que consistentemente compara o regime de Stálin, ainda em vigor à época, ao de Hitler. Do ponto de vista da disputa ideológica do mundo bipolar, então em pleno funcionamento, este esforço tinha um significado bastante claro; Arendt seria mais uma autora do “mundo livre” interessada em descreditar o socialismo e, consequentemente, afirmar a superioridade da “ordem ocidental”. Esta posição a que autora foi automaticamente lançada pela ordem bipolar permitiu o desenvolvimento de certa imagem de Arendt, para a qual contribuíram também alguns elementos de sua biografia; a judia que sofreu na pele as atrocidades do governo nazista, migrou para a “terra da liberdade” e apareceu na cena se esforçando para criticar governos autoritários.

Embora fosse difícil resistir inteiramente a esta imagem durante a Guerra Fria, já os primeiros estudos dedicados à obra da autora, feitos ao longo dos anos 1970, mostravam ao pequeno círculo dos iniciados que a bipolaridade do mundo de então faz pouco sentido para a compreensão do pensamento arendtiano. Este esforço dos estudiosos se desenvolveu ao longo das décadas, mas não foi suficiente para impedir que esta imagem datada e inapropriada de Arendt exerça ainda hoje uma enorme influência sobre vários de seus leitores, mesmo os mais qualificados.

Em uma coluna recente na Folha de São Paulo, o professor Vladimir Safatle evidenciou a tenacidade desta imagem ao descrever certos argumentos arendtianos aos quais ele se contrapõe. Safatle se dedica aí ao problema do preconceito social confrontando-se com “Reflexões sobre Little Rock”, um dos mais controversos textos de Arendt, que conduz a discussões infinitas a respeito de seu conteúdo e de seu lugar no interior da obra da autora, sendo responsável por reações negativas mesmo entre os leitores mais simpáticos a seu pensamento.

Arendt se dedica aí a analisar uma foto publicada em um jornal, na qual se vê uma menina negra caminhando com seu material escolar rodeada por uma turba de jovens brancos que a hostiliza. Em meio a ameaças e escárnio, a menina volta para casa depois de ter passado seu primeiro e infernal dia de aula em uma escola até então frequentada exclusivamente por brancos e para onde fora enviada por decisão judicial. Os argumentos de Arendt conduzem-na à afirmação de que o preconceito social é inevitável e, em certo sentido, até mesmo necessário para a organização da vida social.

A afirmação é chocante à primeira vista, mas este choque se deve muito mais à forma peremptória da afirmação do que a seu conteúdo propriamente. Um pequeno exercício de imaginação a torna bem mais compreensível. Considerando o Brasil de hoje, em que as relações sociais têm se tornado cada vez mais tensas, imagine o leitor qual seria a efetividade e os benefícios de uma decisão judicial determinando a convivência social entre “coxinhas” e “petralhas”; imagine que amanhã, alguma instituição do Estado determine que “bolsomínions” e “comunistas” visitem algum “museu da tolerância” ao mesmo tempo para aprenderem o valor da convivência pacífica. É difícil imaginar qualquer ganho advindo de uma tal decisão e, mutatis mutandis, foi isso que Arendt viu acontecer no caso analisado; é contra isto que se coloca.

É importante nos lembrarmos que o verbo “discriminar” significa primeiramente “perceber diferenças, distinguir, discernir”. Na vida social, esta capacidade funciona o tempo todo pesando decisivamente sobre nossas preferências, simpatias e antipatias, com efeitos em nossas regras de convivência social: em um clube para a terceira idade, somente idosos; na torcida do Flamengo, apenas flamenguistas; em um congresso científico, apenas cientistas. Eu, que sou “comunista” para os padrões atuais, jamais coloquei os pés no shopping JK-Iguatemi e, se tudo der certo em minha vida, jamais colocarei. Para que isto seja possível, é necessário perceber as diferenças, discriminar o que é igual e o que é diferente e, diante disto, fazer escolhas. A vida social se organiza assim.

Mas a questão enfrentada por Arendt é bem mais complicada. Isto porque ela envolve escola, instituição que para muitos deve ser acessível a todos, e discriminação racial, sentida como insuportável para uma parcela grande da população. Hannah Arendt deplora a discriminação racial, sentida na própria pele ao longo dos anos em que viveu na Alemanha, e pensa que a escola é uma instituição fundamental para as crianças e os jovens. Isto não a impede, no entanto, de constatar que existem diferenças, que existem preconceitos e que uma decisão judicial forçando a convivência não contribui para diminui-los — possivelmente, aliás, resulta no efeito inverso.

Deixando de lado as complicações a que o texto leva — o leitor interessado o encontra na coletânea “Responsabilidade e julgamento” (Cia das Letras) — voltemos à imagem de Arendt presente no texto de Safatle; um texto que, convém mantermos em mente, é uma coluna de jornal e está portanto submetido a limites rígidos de espaço, o que exige do autor simplificações tão maiores quanto mais complexos são os temas abordados. Arendt aparece no texto de Safatle como uma “filósofa liberal”, uma afirmação que se encaixa muito bem à imagem de Arendt, mas que não resiste a qualquer leitura atenta de seus textos mais importantes. Em primeiro lugar, porque ela jamais reivindica a filiação à tradição liberal ou a qualquer um de seus pensadores. Em segundo, porque o indivíduo não é o fundamento de seu pensamento. Em terceiro, porque deplora a transformação da propriedade privada em capital. Mais ainda, porque toda a obra de Arendt é dedicada ao elogio do espaço público e da ação política, que só pode acontecer no espaço público. A ideia tipicamente liberal de que se pode organizar toda a sociedade sobre a crença de que os vícios privados resultam em benefícios públicos é combatida frontalmente por Arendt, grande crítica da redução do homem a seus interesses econômicos.

O percurso de Safatle continua com a apresentação de um conceito de liberdade liberal e supostamente arendtiano, contra o qual será apresentado um outro, assumido por Safatle. A escolha do texto sobre Little Rock para tratar da noção de liberdade para Hannah Arendt não é inteiramente absurda, mas fica particularmente problemática se nos lembrarmos que um dos textos mais importantes da autora é um ensaio intitulado precisamente “O que é liberdade?”. De todo modo, o percurso escolhido por Safatle sintomaticamente oferece dois caminhos alternativos e excludentes para pensar a liberdade. Organizando sua reflexão muito à maneira da oposição entre liberdade negativa e liberdade positiva, Safatle assume esta e deplora aquela, que seria supostamente o conceito arendtiano.

Segundo Safatle, a ideia arendtiana de liberdade “baseia-se na possibilidade de afirmação individual de interesses e escolhas.” Poucas afirmações poderiam ser tão distantes da letra e do espírito de Arendt, que insistiu incansavelmente em afirmar que a liberdade só tem sentido no espaço público, não no privado ou mesmo no social. Para Arendt, a liberdade aparece e ganha seu sentido quando agimos em concerto, na esfera pública, desvinculados dos interesses individuais imediatos; ao fim desta ação, a liberdade desaparece e só volta a aparecer e ter sentido em outra ação conjunta realizada no espaço público. A liberdade não é livre arbítrio, não é um predicado da substância individual a se exercer em conformidade com a vontade de cada pessoa. “Isto não quer dizer”, afirma a autora, “que motivos e objetivos não são fatores importantes em cada ato, mas que eles são fatores determinantes, e a ação só é livre à medida que é capaz de transcender estes fatores.”

Em um dos momentos mais importantes de sua obra, Arendt apresenta uma formulação do que é a condição humana. Nesta teoria, os interesses e a economia são pensados como a expressão daquilo que há de animal no homem, da parte do homem encerrada no reino da necessidade, âmbito que, como o professor de filosofia certamente sabe, é o oposto da liberdade. Consequentemente, além de o indivíduo não ser fundamento de corpo político algum, ele é até mesmo o oposto da política, uma vez que, enquanto indivíduo, os homens se preocupam com o próprio trabalho, com seus próximos, com seus prazeres. A crítica arendtiana à modernidade se baseia precisamente na ampliação deste tipo de preocupação para todas as esferas da vida.

Contra a ideia “arendtiana” de liberdade, Safatle afirma que a “liberdade não é um atributo individual”, concordando inadvertidamente com a autora que pretende combater. Mas no passo seguinte surge efetivamente uma diferença entre ambos, na afirmação de que a liberdade “é uma realização social própria a sociedades marcadas pela igualdade e pela indiferença social às diferenças antropológicas.” Do ponto de vista da obra de Arendt, afirmar que a liberdade é uma realização social não faz muito sentido precisamente porque no social os fatores determinantes não são, e nem devem ser, superados em direção a uma ação política. Um dos esforços do pensamento arendtiano é justamente o de conferir certa autonomia ao político, por oposição ao social, ao privado, ao econômico, ao científico e a outros vários âmbitos que, há muito tempo, mas especialmente ao longo da modernidade, têm roubado o sentido da política.

A noção de “social” em Arendt é difícil e causa grande controvérsia entre os estudiosos, mas não parece haver dúvida que Arendt lamenta o fato de que, na modernidade, o social tem crescido excessivamente e nos feito esquecer do significado do público e do privado. No próprio texto sobre Little Rock ela afirma: “Por razões complicadas demais para discutir aqui, o poder da sociedade em nosso tempo é maior do que em qualquer outra época e não sobraram muitas pessoas que vivam uma vida privada e conheçam suas regras.” O fato de Safatle ter encontrado a discussão sobre a liberdade ao tratar de questões puramente sociais e ter mesmo afirmado que “a liberdade é uma realização social” reforça o argumento de que não sabemos bem o que é a política. Surge, aliás, uma grande ironia aqui, pois esta redução da liberdade ao campo do social é um traço forte no pensamento liberal: “O liberalismo, a despeito do nome, contribuiu para banir a noção de liberdade do âmbito político. Pois a política, de acordo com esta mesma filosofia, tem de se ocupar quase que exclusivamente com a manutenção da vida e a salvaguarda de seus interesses.”

O liberalismo é certamente uma das maiores e mais respeitáveis correntes do pensamento político ocidental. Não é necessário se filiar a ele para estar ciente de que ele tem pouco ou nada a ver com certa gentalha que anda por aí reivindicando sua herança. Safatle também sabe disto e sua crítica ao liberalismo está longe de ser o mero reverso da moeda representada por esta choldra. O que me parece lamentável, na verdade, é a utilização da ultrapassada e equivocada imagem de Arendt como pensadora “liberal contra o totalitarismo”. De fato, toda sua obra se pauta pela oposição ao totalitarismo, mas não à maneira estabelecida pela Guerra Fria e que parece ainda informar muitos leitores contemporâneos, que se tornam incapazes de perceber as contribuições da autora para uma crítica do mundo presente. Para além da imprecisão conceitual na leitura da autora e de seu silenciamento no que se refere à contemporaneidade, esta imagem é um problema porque, para criticar a liberdade negativa supostamente defendida pela autora, seus críticos frequentemente se veem forçados a perigosos flertes com o totalitarismo. A ideia de “comportamentos patológicos”, que para ser minimamente aceitável exige mediações dificilmente adequadas a uma coluna de jornal, caminha nesta direção perigosa e parece culminar na afirmação da necessidade de “intervir em todos os níveis” sobre práticas preconceituosas.

O pensamento liberal funciona muito a partir desta oposição exclusiva e Safatle se mostra ainda preso a ela, sobretudo quando radicaliza sua opção por uma liberdade positiva. Uma das contribuições decisivas de Arendt para o pensamento político do século XX é precisamente tentar nos retirar deste binarismo e oferecer uma maneira nova de pensar o político. Não é necessário darmos todos os passos que ela dá, mas é sem dúvida muito importante dar a ela a atenção que uma autora originalíssima merece. Esta posição de destaque, mas de difícil equilíbrio, foi conquistada graças à firme denúncia do totalitarismo, não apenas como forma de governo, mas também como forma de vida, e também graças a uma profunda crítica à longa tradição de pensamento político, em todas as suas correntes, dentre as quais o liberalismo.

89d604_f6cff591fd5a4aecaf99cf48bbd6db50~mv2 Thiago Dias da Silva é doutorando em Filosofia na USP e pesquisador do Centro de Estudos Hannah Arendt, em São Paulo.

 

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  1. Luiz Claudio permalink
    10 de novembro de 2017 9:32 AM

    Excelente artigo!!! O autor descreve Hannah muito e seu esforço para mostrar o que é o Totalitarismo, está de parabéns.

    Curtir

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