Skip to content

Encontro Arendt 2016

03/07/2016

por Thiago Dias da Silva

Participei há alguns dias da décima edição do “Encontro Arendt”, que este ano aconteceu em Goiânia, conjuntamente com o VI Colóquio Pensamento Político Contemporâneo. O evento contou com um número maior de participantes, permitindo aos habituais participantes dos dois eventos um panorama mais amplo do trabalho acadêmico sobre Hannah Arendt produzido em departamentos de filosofia na América Latina. A organização foi levada a cabo pelos professores Adriano Correia, Adriana Delbó, Carmelita Felício e por uma competente equipe de simpáticos alunos da UFG. O tema escolhido foi “a dignidade da política em tempos sombrios”.

A mesa de abertura ficou a cargo do professor Eduardo Jardim, que trouxe uma fala a respeito de similaridades entre Arendt e Amós Oz. Servindo-se dos recentes “Judas” e “Como curar um fanático”, Jardim pôs em destaque parte do “método” de elaboração de Oz que consiste em um esforço para se aproximar do sentimento de certa pessoa em determinada situação extrema. Eduardo Jardim encontra aqui similaridades com a noção de “mentalidade alargada”, desenvolvida por Arendt a partir de Kant.

O evento prosseguiu com inúmeras falas de pesquisadores abordando a obra da autora de diferentes perspectivas, com diferentes níveis de desenvolvimento. Muitos “temas arendtianos clássicos”, como a tensão entre filosofia e política, o papel da narração na política, violência, liberdade e amizade e outros estiveram presentes. A relação com outros autores contemplou nesta edição Judith Butler, Amy Allen, Alain Badiou, Nietzsche, Jaspers, Leo Strauss, Maquiavel entre outros. Parece-me que vale a pena destacar a manifestação de três interesses dos pesquisadores: a aproximação do pensamento da autora às candentes questões de gênero; o interesse pelas reflexões arendtianas a respeito da condição dos refugiados, nascido das recentes e cotidianas tragédias envolvendo principalmente refugiados de guerra; o interesse renovado pela noção de desobediência civil, vinculado às turbulências políticas brasileiras.

O Encontro contou ainda com a exibição do filme Ifigênia, de Mihail Kakogiannis, e um debate com o professor Konstantinos P. Nikoloutsos. Ao longo da programação, cinco livros foram lançados: o livro com os textos do VIII Encontro Arendt; Ética, responsabilidade e juízo em Hannah Arendt, da professora Bethânia Assy; Democracia e estado de exceção, do professor Edson Teles; Revolución y violencia en la filosofia de Hannah Arendt, organizado por Marco Estrada Saavedra e María Teresa Muñoz; Politica y filosofia em Hannah Arendt, de Anabella di Pego.

Minha fala foi sobre Retrato calado, livro em que Luiz Roberto Salinas Fortes narra sua descida aos infernos da tortura sob a ditadura civil-militar brasileira. Meu argumento foi o de que este livro constitui uma autêntica ação política na medida em que traz à luz o escuso procedimento da tortura substituindo a palavra indigna arrancada pela dor por uma palavra muito digna elaborada a partir da dolorosa marca deixada pela tortura. Neste mesmo movimento, o livro ainda revela quem o escreve, colocando o leitor diante de uma pessoa dilacerada e, não obstante, comprometida com a fala pública. Com Retrato calado, Salinas revela aquilo que Arendt chama de verdade exemplar, “uma experiência limítrofe para um filósofo: ao estabelecer um exemplo e ‘persuadir’ a multidão da única maneira a ele aberta, o filósofo começa a agir.”

O momento mais festejado foi, sem dúvidas, a mesa composta pelo professor Edson Teles e pelo deputado Jean Wyllys. Habitué dos eventos sobre Arendt, Teles estava em casa e elegantemente optou por uma fala curta a fim de deixar mais tempo para a visita. Dedicou-se ao que resta da ditadura em nossa frágil democracia. O deputado foi recebido calorosamente em meio a aplausos e algumas manifestações feministas, e ofereceu uma fala muito bem organizada, preparada e quase sem improviso. Revelando-se um leitor atento de Arendt e passando por cima da necessária chatice dos especialistas, Wyllys indicou certos pontos em que a autora o influenciou de modo mais ou menos direto. Ele afirmou, por exemplo, que o texto “Reflexões sobre Little Rock”, presente na coletânea Responsabilidade e julgamento, o fez compreender que a luta LGBT deveria se centrar na questão do casamento igualitário, não na criminalização da homofobia como ele então a pensava. A presença de Wyllys revelou-se um grande acerto dos organizadores por, entre outros motivos, expor de modo inequívoco uma tradução das ideias arendtianas em ações muito concretas.

A última mesa se dedicou a homenagear o professor Claudio Boeira Garcia, um dos “pais fundadores” do evento. Em falas repletas de gratidão e admiração, Claudio foi celebrado como professor cuidadoso, pesquisador generoso e avesso ao carreirismo, além de bom amigo. Eu não o conheci, mas as falas me fizeram perceber que o espírito particularmente aberto que marca os Encontros e do qual eu gosto tanto parece ter sido insuflado pelo Claudio, o que me força a engrossar o coro daqueles que lhe são gratos.

One Comment leave one →
  1. 03/07/2016 23:26

    Pena que fiquei sabendo do encontro depois do encerramento. Gostaria de ter participado pois sou apaixonado pelo pensamento e pela pessoa de Hannah Arendt. Se possível, gostaria de receber com antecedência um alerta para o próximo encontro. Abs.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: