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Sérvios reverenciam autor do atentado que deu origem à Primeira Guerra

29/07/2014

por DW

A Faculdade de Economia está localizada diante da Estação Central de Belgrado e é um local sempre movimentado. Durante o dia, os estudantes se reúnem em frente ao edifício e batem papo antes de entrar para as aulas. À noite, o movimento continua, mas desta vez no parque adjacente à faculdade.

Logo atrás desse ponto popular da capital da Sérvia estende-se a rua Gavrilo Princip. Ela leva o nome do homem que, em 28 de junho de 1914, assassinou, em Sarajevo, o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, Franz Ferdinand, e sua esposa. O atentado foi o estopim da Primeira Guerra Mundial.

Na Sérvia, Princip é reverenciado como um herói, a ponto de haver ruas com o nome dele. Em outros países ele é tido como um terrorista, um assassino, como aquele que deu início à Primeira Guerra Mundial. As vésperas do centenário do atentado, novos livros e peças de teatro são escritos, trazendo à tona um antigo debate: Gavrilo Princip foi um herói ou um terrorista?

Interpretações divergentes

Princip almejava a libertação da Bósnia do domínio austro-húngaro e a criação de um Estado iugoslavo. O seu meio para isso foi um atentado. Para o historiador Holm Sundhausen, a questão, nesse caso, não é se os fins justificam os meios. Para ele, qualificar Princip como herói ou terrorista é um questão de perspectiva.

“O terrorista de uns é o mártir pela liberdade de outros”, concorda o historiador Christopher Clark, da Universidade de Cambridge e autor do livro The Sleepwalkers, sobre os acontecimentos que levaram à Primeira Guerra.

Hoje o termo terrorista é usado para se referir àqueles que atacam cidadãos inocentes. “Princip e seus cúmplices não queriam matar civis inocentes nem espalhar o terror. Eles queriam criar um clima de medo entre a elite política da monarquia.” Por isso, eles não seriam terroristas pela definição atual.

Já o escritor sérvio Vladimir Kecmsnović não tem dúvidas. Para ele, os tiros de Sarajevo foram dados em nome da liberdade, o que faz de Princip um herói. “De que outro modo posso chamar um homem que se sacrificou dessa maneira?”, argumenta.

Na organização Jovem Bósnia, da qual Princip fazia parte, sempre se defendeu que ele assassinou um tirano. Mas, para Sundhausen, o príncipe Franz Ferdinand não era um tirano nem tinha a ambição de promover guerras. “Ele era um monarca que defendia reformas”, observa.

A dramaturga Biljana Srbljanović prefere não usar termos como herói ou assassino para se referir a Princip. “Princip era, acima de tudo, um revolucionário que defendia a libertação de seu país”, argumenta a autora da peça Princip (esta sepultura é pequena demais para mim), que estreou recentemente no teatro Schauspielhaus em Viena, na Áustria. “Os tiros de Sarajevo foram um ato revolucionário mas, infelizmente, violento”, defende.

Ela vê Princip também como vítima de uma sociedade secreta sérvia chamada Mão Negra, que perseguia objetivos nacionalistas e teria o manipulado para seus fins. “Princip não estava ciente de que seus ideais justos eram manipulados por essa organização”, diz a autora.

A culpa sérvia

Após o atentado, a história tomou o seu rumo: o conselho austro-húngaro de ministros decidiu dar um ultimato inaceitável à Sérvia e, no caso – presumível – deste não ser cumprido, dar início a uma ação militar. Apenas 37 dias mais tarde, veio a guerra. O imperador alemão Guilherme 2º declarou apoio militar a Viena em caso de ataque à Sérvia.

Poucos dias mais tarde, Rússia, França e Reino Unido entraram na guerra. Para Clark, as grandes potências calcularam os riscos e os eventuais ganhos. Ao final, todas optaram pela guerra. Por isso, o atentado de Sarajevo é frequentemente citado como o estopim, mas não como o motivo para a Primeira Guerra Mundial. “Seria ridículo e absurdo responsabilizar a Sérvia pela deflagração da guerra”, afirma Clark.

Mas, em The Sleepwalkers, ele afirma também que o assassinato em Sarajevo foi mais do que apenas um pretexto para o início do conflito. Segundo ele, antes do atentado, os defensores da paz superavam os que eram a favor da guerra em Viena. Após o assassinato, a tendência na política austríaca mudou significativamente, já que o maior defensor da paz não podia mais se pronunciar por estar morto.

Mas, para o escritor sérvio Kecmsnović, análises como essa são apenas revisionismo histórico. Ele defende que os historiadores ocidentais tentam relativizar a “culpa germânica” ao jogar a responsabilidade em Princip.

“Durante a Guerra Fria, a Alemanha e a Áustria se posicionaram como aliadas dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido. Até hoje esses países tentam atenuar suas contradições e inimizades históricas”, analisa o escritor. Desse modo, seria fácil culpar um país como a Sérvia, vilipendiado pela guerra da Iugoslávia em 1990.

Sempre que a “culpa sérvia” é discutida, a dramaturga Srbljanović repete sua afirmação de que Gavrilo Princip não se considerava sérvio. Por causa dessa declaração, um jornal sensacionalista de Belgrado a acusou de estar tentando roubar o “herói da Sérvia”. Ela se defende dizendo que Princip era um iugoslavo convicto. “Eu não quero roubar o herói de ninguém.”

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