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O que as imagens de Abu Ghraib realmente nos dizem sobre a guerra

12/05/2014

Soldados norte-americanos posando ao lado de prisioneiros encapuzados e de cadáveres em uma prisão iraquiana – há 10 anos  – revelam a “banalidade do mal”

Por Sean Willcock, em New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes (Revista Forum)

Em junho de 2003, enquanto o Iraque vivia um clima de violência brutal após a invasão anglo-americana do país um mês antes, a reservista do exército norte-americano Sabrina Harman estava tirando fotos. “Eu vi meu primeiro cadáver”, ela escreveu em uma empolgada carta ao seu pai, dizendo ainda: “Eu tirei fotos!”. Dentro de um ano, o entusiasmo de Harman com suas fotografias extremistas ficou conhecido por todo o mundo – seu sorriso radiante ao lado de prisioneiros iraquianos mortos, torturados e abusados, detidos na notória prisão de Bagdá: Abu Ghraib.

Já se passou uma década desde que as primeiras notícias da imprensa surgiram a respeito das incríveis fotos de Abu Ghraib. Tiradas por Harman e seus colegas carcerários durante um período em 2003 e vindo a público no final de abril de 2004, as fotografias ainda trazem um efeito chocante e perturbador. Elas mostram prisioneiros que tiveram suas roupas arrancadas, exceto seus sinistros capuzes usados para vendá-los; prisioneiros lambuzados no que aparenta ser sangue e fezes; prisioneiros acuados e encolhidos pelas dores e pressões de suas posições cansativas, cães rosnando, e uma miríade de humilhações pornográficas visualizadas pelos captores norte-americanos: masturbações públicas forçadas, posições de sexo simuladas, corpos desnudos pilhados em uma horrenda pirâmide humana. “Eu estou falando sobre pessoas se divertindo. Você já ouviu falar sobre alívio emocional”? foi o que falou Rush Limbaugh, conservador norte-americano e apresentador de um talk-show de uma rádio, que descreveu o comportamento visto nas imagens como “nada diferente do que acontece com os processos de iniciação de calouros em universidades”.

A noção de que Abu Ghraib foi apenas uma “boa e velha” piada também aparece em memes de internet como “Dando uma de Lynndie”, onde se via pessoas postando fotos com as mãos e fazendo sinal de positivo enquanto apontavam para as genitálias de seus prisioneiros nus e encapuzados. Lynndie England foi outra reservista do exército norte-americano que trabalhou como carcerária em Abu Ghraib. Os cenários aqui variam desde o estranho – crianças “dando uma de Lynndie” com seus cachorros – até ao sinistro, onde pessoas fazem o mesmo sinal para estranhos na rua.

Se o meme “Dando uma de Lynndie” é aceito tão facilmente, isso sugere algo importante sobre as imagens em Abu Ghraib, pois é precisamente a complacência pueril dos guardas sorridentes nessas fotografias que realmente atingem o estômago. Em um artigo publicado logo após a divulgação das imagens, a proeminente intelectual Susan Sontag capturou o impacto das imagens quando escreveu que o “o horror do que foi mostrado nas fotografias não podia ser desassociado do horror de que elas foram tiradas com os perpetradores posando e exultando sobre seus cativos impotentes”. Sontag apontou que as fotografias do início de século 20 de linchamentos nos EUA eram um precedente perturbador para as imagens de Abu Ghraib, mas, na realidade, a ligação da câmera com a crueldade e a agressividade triunfante data de outros tempos.

A mais antiga fotografia de um cadáver em tempos de guerra foi tirada mostrando corpos amarrados e encapuzados de supostos insurgentes, pendurados de uma forca aos redores de Lucknow, durante o motim indiano de 1857-58.

De acordo com o tenente Arthur Moffat Lang, um britânico colonial presente no enforcamento, o autor da medonha imagem, Felice Beato, correu até os corpos balançantes dos indianos e “amarrou” os pés deles, quando suas vidas já haviam sido extintas, para serem fotografadas de maneira bonita. Um deliciado Lang em sua sanha por vingança contra os rebeldes indianos escreveu em seu diário que acreditava que “fotografar [o enforcamento] deve ter aumentando o horror da cena” para a multidão de indianos que assistiam a tudo.

Sendo assim, a fotografia tem há tempos sido utilizada para ampliar os efeitos psicológicos da violência; para o tenente Lang, em 1858, a câmera não era uma ferramenta documentária neutra, mas algo que participava dos horrores da guerra, um fato que os prisioneiros em Abu Gharib certamente concordariam. Nota-se também, que a excitação de Lang com a intervenção mórbida do fotógrafo na cena seria, 145 anos depois, reproduzida na carta de Sabrina Harman para o seu pai.

Em outras palavras, as fotos de Abu Ghraib não eram – como alguns críticos disseram na época – o produto de um torpor moral de jovens norte-americanos corrompidos pela cultura pop da violência e pornografia de Hollywood. Elas emanam, primeiramente, de uma antiga linha de pensamento que os coloniais britânicos do século 19 eram também adeptos: uma que coloca os “civilizados” (ocidentais) contra os “selvagens” (orientais). Ao primeiro grupo é oferecido o status de “pessoas”, enquanto ao segundo, oferece-se o status de “coisas”. Apenas objetos.

Observa-se, por exemplo, que a montanha de iraquianos nus com Sabrina Harman sorrindo ao lado de seu colega, Charles Graner (considerado o líder do grupo de abusadores e o que recebeu a maior sentença: 10 anos de prisão, a qual ele serviu apenas seis), foi meticulosamente montada. É visível que sua composição foi encenada diversas vezes pelos captores. Sendo assim, é compreensível que foi precisamente o poder estético (apesar de a frase soar estranha) que fixou essas imagens na consciência pública de forma irrevogável.

Afinal, quem é que não viu a foto do homem encapuzado em Abu Ghraib em uma pose como Cristo – agora um permanente ícone antiguerra? Dez anos depois, as imagens de Abu Ghraib continuam a assombrar o discurso sobre a Guerra no Iraque. Os sorrisos de Sabrina Harman e de seus colegas, enquanto eles presidem um inferno na terra, trouxe à tona um dos termos mais famosos ditos por Hannah Arendt: “a banalidade do mal”, mostrando que a imagem de torturador que nos vêm à mente não é uma figura sinistra e malévola e sim um jovem  imaturo de sorriso desdenhoso e totalmente “humano”.

Essas fotografias nos ensinaram que a trilha sonora para a agonia insuportável poderia ser o rotineiro clique de uma câmera e a risada juvenil de pessoas “se divertindo”.

 

O mundialmente famoso “homem encapuzado” é um professor islâmico chamado Ali Shalal. Ele foi preso enquanto se dirigia a uma mesquita para fazer suas preces (WikiCommons)

      O mundialmente famoso “homem encapuzado” é um professor islâmico chamado Ali Shalal. Ele foi preso enquanto se dirigia a uma mesquita para fazer suas preces (WikiCommons)

Após a divulgação das fotos, Charles Graner foi sentenciado a 10 anos (cumpriu 6) (WikiCommons)

  Após a divulgação das fotos, Charles Graner foi sentenciado a 10 anos (cumpriu 6) (WikiCommons)

Eu vi meu primeiro cadáver”, Sabrina Harmann escreveu para o seu pai em uma carta (WikiCommons)

Eu vi meu primeiro cadáver”, Sabrina Harmann escreveu para o seu pai em uma carta (WikiCommons)

 

One Comment leave one →
  1. Markut permalink
    12/05/2014 23:50

    Vale o aforismo de Nietzsche : “o homem é uma corda estendida entre o animal e o super- homem; uma corda sobre o abismo”.

    Esse extranho ser, capaz de descer ao inferno da ignomínia e se elevar aos píncaros da sublimação.

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