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Giorgio Agamben: a crise sem fim como instrumento de poder

26/11/2013

Filósofo italiano sustenta: em nome de projeto míope, liderado pelos alemães, Europa renega seu passado e destroi instituições que poderiam preservá-lo

Entrevista a Dirk Schümer, no Diálogo Sul

Professor Agamben, em março desencadeou-se a ideia de uma “soberania latina” contra o domínio alemão na Europa. O senhor poderia imaginar a grande repercussão que isso teria? Enquanto isso, o ensaio foi traduzido para muitos idiomas e apaixonadamente discutido na metade do continente

Giorgio Agamben: Não, não esperava isso. Mas acredito no poder das palavras, quando são chamadas no momento adequado.

A brecha na União Europeia é na realidade entre as economias e estilos de vida do norte “germânico” e o sul “latino?”


Quero dizer antes de mais nada que minha tese foi exagerada pelos meios de comunicação e, portanto, distorcida. Seu título, “O império latino, deveria lançar um contra-ataque” foi criado pelos editores do Liberacion e assumida pelos meios de comunicação alemães. Não foi algo que eu disse. Como poderia opor a cultura latina à alemã, quando um europeu inteligente sabe que a cultura italiana do Renascimento ou cultura da Grécia clássica já estão plenamente integrados à cultura alemã, que a repensou e dela se apropriou?

Portanto, nenhum “império latino” dominante? Nenhum alemão inculto?


Na Europa, a identidade de cada cultura ainda reside em suas fronteiras. Um alemão como Winckelmann ou Hölderlin, poderiam ser mais gregos que os gregos. E um florentino como Dante, assim como um alemão, podia sentir-se como o imperador Frederico II da Suábia. Isto é precisamente o que faz com que a Europa tenha uma característica que volta e meia ultrapassa as fronteiras nacionais e culturais. O objeto de minha crítica não é a Alemanha, e sim a forma como se construiu a União Europeia, sobre uma base puramente econômica. Portanto, não apenas nossas raízes espirituais e culturais foram ignoradas, como também nossas políticas e de nossas jurisprudências. Se isso foi entendido como uma crítica à Alemanha, é só porque a Alemanha, devido a sua posição dominante apesar de sua destacada tradição filosófica, atualmente parece incapaz de imaginar uma Europa baseada em algo mais do que o euro e a economia.

De que maneira a UE negou suas raízes políticas e legais?


Quando falamos da Europa de hoje, enfrentamos o enorme peso de uma dolorosa e, no entanto, evidente verdade: a chamada Constituição Europeia é ilegítima. O texto criado desde cima jamais  foi votado pelo povo. Ou então, quando foi posto em votação, como na França e nos Países Baixos em 2005, foi repudiada frontalmente. Legalmente falando, portanto, o que temos aqui não é uma constituição, e sim um tratado entre governos: do direito internacional, não do direito constitucional. Mais recentemente, o mais respeitado e erudito o jurista alemão, Dieter Grimm, lembrou que a Constituição Europeia carecia do elemento democrático fundamental, já que não foi permitido aos europeus decidir. E agora, todo o projeto de ratificação pelo povo foi silenciosamente congelado.

Na realidade, o famoso “déficit democrático” do sistema europeu

Não se pode perder isso de vista. Os jornalistas, sobretudo na Alemanha, me criticaram por não entender a democracia, mas devem considerar em primeiro lugar que a União Europeia é uma comunidade baseada em tratados entre estados tendo apenas uma constituição democrática para disfarçá-los. A ideia da Europa como potencia constitucional é um fantasma que ninguém se arrisca invocar. No entanto, só tornando válida a constituição é que as instituições europeias poderiam recuperar sua legitimidade.

Isso significa que a União Europeia é vista como uma organização ilegal?


Não é ilegal, mas é ilegítima. A legalidade é a questão das normas de exercício do poder, a legitimidade é o princípio que é a base destas normas. Tratados legais não são certamente só as formalidades, pois refletem uma realidade social. Portanto, é compreensível que uma instituição sem uma constituição não possa seguir uma política original, porém cada estado europeu continua agindo de acordo com seus próprios interesses o que hoje significa, obviamente, acima de tudo os interesses econômicos. O mínimo denominador comum de unidade é alcançado quando a Europa emerge como um vassalo dos Estados Unidos participando de guerras que em nenhum caso são de interesse comum, para não falar da vontade das pessoas. Vários dos países fundadores da UE – como a Itália, com suas numerosas bases militares estadunidenses – estão mais no campo de protetorados do que de Estados soberanos. Em politica e militarmente, há uma aliança atlântica, mas certamente não é uma aliança da Europa.

Na União Europeia, portanto, é preferível uma “soberania latina” como caminho de vida e os “alemães” deverão se adaptar.

Não, talvez eu tenha tomado o projeto de “soberania latina” de Alexandre Kojève por provocação. Na Idade Média, as  pessoas pelo menos sabiam que a unidade das diferentes sociedades políticas deve ser mais que uma sociedade puramente política. Naquela época, o vínculo que unia (os estados) era o cristianismo.  Hoje em dia, acredito que é preciso buscar a legitimidade na história e nas tradições culturais da Europa. Diferentemente dos asiáticos e dos americanos, para quem a história significa algo completamente diferente, os europeus ainda confrontam sua verdade em diálogo com seu passado. O passado significa para nós não apenas à herança e a tradição cultural, como também uma condição antropológica fundamental. Se tivéssemos ignorado nossa própria história, só poderíamos penetrar na passado por meio da arqueologia. O passado para nós é como uma forma distinta de vida. A Europa tem uma relação especial com suas cidades, seus tesouros artísticos, suas paisagens. É nisso que consiste realmente a Europa. E é aí que está a sobrevivência da Europa.

A Europa é sobretudo uma forma de vida, um sentido histórico da vida?


Sim, foi por isso que em meu artigo, destaco incondicionalmente que devemos preservar nossas distintas formas de vida. Quando os aliados bombardearam cidades alemãs, sabiam que com isso poderiam destruir a identidade alemã. Do mesmo modo, os especuladores de hoje em dia estão destruindo a paisagem italiana com concreto e rodovias. Isto significa não apenas a perda de nossa propriedade, mas de nossa identidade histórica.

De modo que a UE deveria focar nas diferenças, em vez da harmonização?


Pode ser que fora da Europa não exista outro lugar no mundo em que a grande variedade de culturas e formas de vida – pelo menos em seus momentos preciosos – seja notável. Anteriormente, na mina opinião, a política se expressava com a ideia do Império Romano, depois, a do império romano-germânico. No entanto, no conjunto ainda mantem intacta as característica dos povos. Não é fácil dizer o que poderia surgir hoje no lugar disso. Mas, certamente, uma entidade política chamada Europa não pode surgir senão a partir desta consciência do passado. É precisamente por esta razão que a crise atual parece tão perigosa. É preciso imaginar a unidade pela primeira vez como uma tomada de consciência das diferenças. Mas muito ao contrário disso, nos países europeus, as escolas e as universidades, as mesmas instituições que deveriam perpetuar nossa cultura e criar um contato vivo entre o passado e o presente, estão sendo destruídas e comprometidas financeiramente. Esse trabalho furtivo se faz junto a uma cada vez maior museificação do passado. Temos muitas cidades que começam a se converter em áreas históricas, onde os habitantes se veem obrigadas a sentir-se turistas no mundo de suas próprias vidas.

Museificação desenfreada que é a contrapartida de uma pauperização progressiva?


GA: É evidente que não só estamos diante de problemas econômicos, mas da existência da Europa em seu conjunto – a partir de nossa relação com o passado. O único lugar onde o passado se pode viver é o presente. E se isto já não é eleger seu próprio passado como algo vivo, então as universidades e os museus se convertem em um problema. É óbvio que há forças no trabalho na Europa de hoje que tratam de manipular nossa identidade, rompendo o cordão umbilical que ainda nos conecta com nosso passado. Nivelam-se as diferenças. Só a Europa não pode ser nosso futuro se deixamos claro que significa, antes de mais nada, todo nosso passado. Mas o passado está sendo cada vez mais liquidado.

Isso significa que a crise, presente em todos os aspectos, a forma de expressão de tudo um sistema de regulação dirigindo nossa vida diária?

O conceito de “crise” de fato transformou-se em uma palavra de ordem da política moderna, e durante muito tempo, ela era parte da normalidade em todos os segmentos da sociedade. A palavra expressa duas raízes semânticas: uma médica, em referência à evolução de uma doença e a outra teológica, do Juízo Final. Os dois significados, no entanto, sofreram uma transformação atual, que eliminou sua relação com o tempo. Na medicina antiga, “crise” significava um julgamento, quando o médico se referia ao momento determinante se o paciente poderia sobreviver ou morrer. A compreensão atual da crise, por outro lado, refere-se a um estado sustentável. Portanto, esta incerteza estende-se indefinidamente no futuro. Este é exatamente o mesmo que no sentido teológico, o Juízo Final é inseparável do fim dos tempos. Hoje, no entanto, o julgamento se divorciou da ideia de resolução e se apresenta em várias ocasiões. Assim, a perspectiva de uma decisão é cada vez menor, e o processo infinito de decisão nunca termina.

Isso significa que a crise da dívida, a crise das finanças estatais, a moeda, a União Europeia, são infinitas?


Atualmente, a crise se transformou em um instrumento de dominação. Serve para legitimar decisões políticas e econômicas que privam os cidadãos de toda possibilidade de decisão. Na Itália, é muito claro. Aqui, um governo foi formado em nome da crise e Berlusconi está de volta ao poder apesar de que ser radicalmente contra a vontade do eleitorado. Este governo é tão ilegítimo quanto a chamada Constituição europeia. Os cidadãos europeus devem deixar claro seus próprios olhos que esta crise sem fim – tanto como o estado de emergência – é incompatível com a democracia.

Que perspectivas restam agora para a Europa?


É preciso começar por restabelecer o sentido original da palavra “crise”, como um tempo de julgamento e de escolha. Não podemos postergá-lo a um futuro indefinido para a Europa. Há vários anos, o filósofo Alexandre Kojève, alto funcionário da embrionária União Europeia propôs que o homo sapiens tinha chegado ao fim da história e que só havia duas possibilidades restantes. Ser o “american way of life” que Kojève viu um acordo pós-histórico. Ou, o esnobismo japonês, simplesmente continuar a a celebração de rituais vivos da tradição, agora privada de significado histórico. Creio, no entanto, que a Europa poderia realizar a alternativa de uma cultura que seja ao mesmo tempo humana e vital, tanto porque se encontrará em um diálogo com sua própria história, ao mesmo tempo que adquiriria uma nova vida.

A Europa, entendida como cultura, não só como espaço econômico, poderia dar uma resposta à crise?


Por mais de duzentos anos, as energias humanas se concentraram na economia. Muitas coisas indicam que talvez tenha chegado o momento para o homo sapiens de organizar uma nova ação humana além desta única dimensão. A velha Europa pode fazer com precisão uma contribuição decisiva para o futuro aqui.


(*) Publicado originalmente em “Bitácora” do Uruguai

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