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Em campanha de coleta de arquivos da 1ª Guerra, França resgata histórias de combatentes

21/11/2013

Movimento pede que parentes entreguem documentos de soldados, para que sejam digitalizados e exibidos em website

por Opera Mundi

Maurice Chocol era seminarista na França quando se alistou no exército em 1912. Dois anos depois, a Primeira Guerra Mundial estourou e ele foi mandado para o campo de batalha como membro da 2ª Brigada de Ciclistas. Durante quatro anos, Chocol viajou pela região devastada e levou consigo cadernos onde anotava, em detalhe, cada deslocamento do grupo. Mais tarde, voltou para casa, se tornou padre e organizou todos os diários e lembranças daquela experiência. Fez, inclusive, um mapa para visualizar melhor todo seu percurso. Chocol morreu em 1986, aos 95 anos de idade, mas, todo o material que ele organizou metodicamente ao longo dos anos foi conservado pela família e agora vai ser dividido com o mundo.

A França lançou a campanha da “Grande Coleta” de documentos pessoais da Primeira Guerra Mundial para a criação de uma base europeia de memórias. A guerra pela lente das pessoas comuns enriquece a história oficial, que muitas vezes se resume a datas, números e resultados, negligenciando seu lado humano. Todas as lembranças serão digitalizadas, devolvidas às famílias e exibidas em conjunto em um website. Vale qualquer tipo de documento: cartas pessoais, fotografias, diários, cartões postais, cartazes.

A campanha é uma iniciativa europeia que a França abraçou com especial dedicação. Um conselho de administração para a Missão do Centenário foi criado no país com o apoio do governo para organizar a comemoração dos 100 anos do início da guerra, celebrado no ano que vem. E uma das homenagens é mostrar, através dos escritos pessoais dos soldados, um lado mais íntimo da guerra.

Diário de Maurice Chacol

Diário de Maurice Chacol

“Meu avô soube do nascimento da minha mãe quando estava em batalha”, conta o aposentado Jan Simaeys, enquanto procura o trecho no velho diário do avô. Ele é uma das pessoas na fila para digitalizar uma pasta cheia de recordações. Simaeys acha que a campanha é importante para lembrar os homens que deram a vida pelo país, mas que também acaba sendo uma forma de mensagem contra a guerra: “Dá para sentir nos relatos que eles viveram coisas terríveis. Meu avô escreveu aqui sobre um ataque em que eles eram 19, mas voltaram apenas dois”.

Memórias da guerra

As lembranças da 1ª GM já não podem mais ser contadas em primeira pessoa, pois o último soldado morreu em 2011, o americano Frank Buckles. Os franceses e europeus em geral acabam se sentindo mais implicados na 2ª GM, pois ainda há muitas testemunhas. As memórias pessoais da Grande Guerra começam a se perder. Mas nem sempre. Jean-Louis Paumier, arquivista, conta que na sua família sempre ouviu histórias do bisavô, combatente da Primeira Guerra: “Meu avô recebeu uma condecoração por ter se voluntariado a buscar a cozinha móvel durante um ataque. Todos estavam com fome, foi um ato de coragem”, conta. “A parte irônica é que quando ele chegou disparado com a cozinha móvel não conseguiu frear. Só parou porque bateu numa macieira”, ri.

Catherine Laoue, aposentada, acha que vale a pena o esforço para manter viva a memória daqueles tempos. Ela levou as correspondências que seu avô trocou com o filho quando a criança tinha entre 10 e 13 anos. Também levou cartas de um soldado estrangeiro que lutou pela França e foi apadrinhado pelo avô, como era costume na época.

“São muitas histórias contidas aqui e eu não sabia o que fazer com elas. Por isso achei interessante poder partilhar com outras pessoas”, diz. Seu avô chegou a voltar da guerra, mas morreu meses depois em decorrência de um ataque a gás que havia sofrido em batalha.

Os cadernos e correspondências pessoais que esperavam a vez de serem apresentados tinham características muito parecidas: eram pequenos e quase sempre escritos a lápis. A digitalização é uma forma eficaz de conservar a memória dos frágeis documentos cobertos de grafite.

Catherine Laoue: "não sabia o que fazer com as histórias contidas aqui"

Catherine Laoue: “não sabia o que fazer com as histórias contidas aqui”

Primeiro dia

No primeiro dia de coleta cerca de 200 pessoas compareceram com todo tipo de registros. Magali Schickele, responsável pelo serviço de comunicação do Arquivo Nacional francês, comenta a experiência: “Tivemos um bom número de pessoas, mas foi difícil administrar o fluxo porque todos falavam muito e queriam contar a história das famílias”. Ela explica também que algumas pessoas tinham tanto material que tiveram que marcar outro dia para escanear tudo. Além das cartas e diários, também apareceram documentos curiosos, como um caderno de desenhos de um soldado com os retratos de seus camaradas.

Quase nada é recusado. Jean-François Crand, sobrinho-neto de Maurice Chocol, o soldado retratado no início da reportagem, levou com ele além dos diários de trincheira do tio-avô, documentos de racionamento de açúcar e relatórios dos encontros que o padre organizava com seus ex-companheiros de brigada. “Eles marcavam uma reunião todo ano. Quando alguém não podia ir, justificava. Fizeram isso por mais de 50 anos, até que o grupo foi diminuindo. Mas ficaram unidos até o fim”, conta Crand.

A coleta também serviu para que as pessoas olhassem mais de perto os registros de seus ascendentes. Martine Picard conta que descobriu mais sobre a vida de seus dois bisavôs depois que ouviu falar sobre a campanha e decidiu procurar documentos para levar: “Parece que um deles tinha uma patente importante, eu não fazia ideia!”.

A grande coleta aconteceu em mais de setenta pontos de entrega durante uma semana. Todo material digitalizado estará disponível ao público daqui a algumas semanas no site Europeana, junto com documentos pessoais de outros países europeus.

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