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Em crise, Comissão da Verdade encerra grupo investigativo

29/09/2013

LUCAS FERRAZ
DE SÃO PAULO

Folha de S. Paulo

A crise instalada na Comissão Nacional da Verdade levou à interrupção, há mais de quatro meses, de uma equipe de investigação responsável por apurar crimes e omissões das Forças Armadas na ditadura, buscar documentos militares e informações sobre o financiamento da repressão por empresários.

Formado por historiadores e jornalistas, o grupo era conhecido internamente como “equipe ninja”, já que o objetivo era realizar investigações e tomar depoimentos de militares e ex-agentes da repressão sem fazer alarde.

Os temas são considerados sensíveis por causa da resistência do empresariado e de militares. O trabalho foi desarticulado após a apresentação do relatório do primeiro ano da comissão, em maio.

O grupo era coordenado pela historiadora Heloísa Starling, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que ainda hoje assessora a comissão. “O trabalho foi desativado em maio e desde então não foi mais retomado”, confirmou Starling.

A “equipe ninja”, formada por 24 pessoas, entre jornalistas e historiadores, gerou desconfianças e provocou discussões entre comissários.

Segundo Maria Rita Kehl, uma das sete integrantes da Comissão da Verdade, Cláudio Fonteles se demitiu após uma discussão sobre o trabalho dos “ninjas”. Procurado, ele disse que não falaria sobre a comissão.

Internamente, Fonteles e Rosa Cardoso, outra comissária, acusaram Heloísa Starling de mau uso de dinheiro público na condução das investigações. “Houve uma auditoria que não encontrou nenhuma irregularidade, discutimos isso em reunião”, afirmou Maria Rita Kehl.

Oficialmente, a Comissão da Verdade diz que nenhum grupo foi desmobilizado e nega a existência da auditoria. Procurados, Rosa Cardoso e o atual coordenador da comissão, José Carlos Dias, afirmaram não ter informações sobre o assunto.

Enquanto o grupo funcionou, segundo a Folha apurou, foram recolhidos documentos, que estavam com terceiros e o Estado, avançou-se na investigação sobre o financiamento da repressão e um dos entrevistados, acusado de tortura, admitiu a prática e apontou outros colegas que participaram das sessões.

O teor do trabalho, que não foi levado adiante, é mantido sob sigilo. Três historiadores -José Murilo de Carvalho, Ângela Castro Gomes e Daniel Aarão Reis- analisaram e aprovaram a pesquisa em parecer, como confirmou Paulo Sérgio Pinheiro.

Uma pequena parte da pesquisa tornou-se pública no relatório divulgado em maio: a Marinha reiteradamente omitiu, no pós-ditadura, ter informações sobre alguns presos políticos que, nos anos 70, foram declarados mortos pela própria instituição.

“Há pelo menos outros dois documentos importantíssimos da Marinha que ainda não foram divulgados”, informou Maria Rita Kehl.
Com o trabalho dos “ninjas”, esperava-se produzir informações, evitando reciclar fatos já conhecidos do período. A Comissão da Verdade, contudo, diz que esses fatos ainda estão sob investigação.

“A Comissão Nacional da Verdade tem 13 linhas de pesquisa”, afirmou a assessoria de imprensa do grupo.

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