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A política e a bomba

18/09/2013

por Laura Mascaro | Centro de Estudos Hannah Arendt/INB

Segundo Hannah Arendt, os preconceitos que informam hoje nossa visão da política estão em grande medida vinculados à esperança e ao medo. O medo de que a humanidade se destrua por meio da política e dos meios de força que tem hoje à sua disposição; e a esperança, ligada a esse medo, de que humanidade recobre a razão e livre o mundo não de si própria, mas da política. Hoje trataremos brevemente desse medo da autodestruição.

O questionamento em relação ao sentido da política hoje é forçoso em vista do monstruoso desenvolvimento das modernas possibilidades de destruição – cujo monopólio os Estados detém. Por conta desse monopólio, que possibilitou o desenvolvimento mesmo das técnicas de destruição, tamanhas forças destrutivas só podem ser empregadas no âmbito político. Segundo Arendt, o que está em jogo aqui não é apenas a liberdade, mas a continuidade da existência da humanidade e, talvez, de toda vida orgânica da Terra.

Essa indagação coloca em risco a existência da própria política, sendo que questiona a própria compatibilidade da existência da humana e da política. Pretensa e erroneamente, a solução para tal incompatibilidade seria abolição da política.

Citando Arendt:

“Por trás dos preconceitos contra a política estão hoje em dia, ou seja, desde a invenção da bomba atômica, o medo de a Humanidade poder varrer-se da face da Terra por meio da política e dos meios de violência colocados à sua disposição, e – estreitamente ligada e esse medo – a esperança de a Humanidade ter juízo e, em vez de eliminar-se a si mesma, eliminar a política – através de um governo mundial que transforme o Estado em uma máquina administrativa, liquide de maneira burocrática os conflitos políticos e substitua os exércitos por tropas de polícia.” (ARENDT, 2004, p. 26)

No entanto, considerando o caráter que a política adquiriu de uma relação entre dominantes e dominados, não estaríamos abolindo a política, mas apenas criando uma forma de dominação despótica ampliada ao extremo, que impossibilitaria qualquer rebelião ou forma de controle dos dominadores pelos dominados. Por outro lado, se considerarmos “político” o âmbito mundial em que os homens se apresentam como atuantes, então a abolição da política seria muito factível, como de fato já se comprovou pela História, seja na forma da tirania, seja na forma moderna da dominação total.

Para fugir a essas soluções que equivalem a “jogar fora a criança junto com a água do banho”, haveria outra forma de se lidar com o medo da destruição da humanidade? A proposta da extinção da política para aplacar esse medo, que é legítimo, considera a catástrofe como inerente à própria natureza da política, e, portanto, inevitável, coisa que não é.

Em vez da extinção da política, teria lugar a recriação desta e o resgate de seu sentido, que não está no poder como monopólio da força, mas sim na liberdade e no cuidado do mundo, que os seres humanos compartilham quando se agrupam.

Ora, essas ideias arendtianas parecem dialogar muito com nosso presente. Momento em que os Estados protagonistas do cenário “político” internacional estão a negociar e decidir sobre o envio de tropas – ou melhor, equipes de proteção – à Síria, contra o uso das armas químicas.

Dessa forma, fica aqui o convite para a reflexão sobre como poderíamos lidar com o perigo da destruição em massa – que se reinventa por meio das inovações técnicas – de uma forma autenticamente política.

No intuito de fornecer mais elementos para se pensar as possíveis consequências de um ataque atômico hoje, e as reais consequências dos ataques atômicos a Hiroshima e Nagasaki, bem como sua memória, sugerimos um site que tem como proposta a simulação dos efeitos da explosão de uma bomba atômica hoje em qualquer lugar do mundo:

Nesse caso, a pergunta que fizemos foi: e se uma bomba atômica explodisse hoje na cidade de São Paulo?

Sem títuloNUKEMAP

Além do exercício promovido por esse aplicativo, trazemos também o filme Hiroshima, mon amour de Alain Resnais e Marguerite Duras, que representa uma tentativa de fazer um filme sobre a bomba de Hiroshima. O resultado foi o que Duras chamou de seu fracasso, em virtude da impossibilidade de tratar desse tema satisfatoriamente. Contudo, o que seria aqui satisfatório? Qual a pretensão de verdade que se tem com uma obra que promove o diálogo entre a literatura e o cinema. São essas as questões que estão postas.

Boa reflexão!

Referência

ARENDT, H. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

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