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Instituto Ethos: Hannah Arendt e a responsabilidade social

05/08/2013

O pensamento autônomo é uma das questões centrais na sua filosofia e está no centro da atual crise econômica e de representação política.

Por Paulo Itacarambi*

Participei como convidado do debate de inauguração do Centro de Estudos Hannah Arendt, em São Paulo, no último dia 29 de julho.

As atividades do Centro de Estudos já vinham sendo desenvolvidas pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e foram integradas ao Instituto Norberto Bobbio, presidido por Raimundo Magliano Filho, ex-presidente da BM&F Bovespa. O objetivo do Centro de Estudos Hannah Arendt é a difusão do pensamento dessa filósofa que influenciou profundamente o século XX.

Na cerimônia de inauguração, houve a apresentação de um documentário roteirizado e dirigido por Wolfgang Heuer e Alexander R. Bazelow, seguido de um debate do qual participei.

Heuer é professor de teoria política da Universidade Livre de Berlim e editor da revista eletrônica HannahArendt.net. Bazelow é acadêmico independente e trabalhou com Hannah Arendt de 1970 até a morte da filósofa, em 1975.

O documentário foi feito em 2008, no auge da grande crise financeira que colocou em xeque o neoliberalismo. Ele mostra, na perspectiva do pensamento de Hannah Arendt, iniciativas no Brasil que podem colaborar para a solução dessa crise, segundo os realizadores.

São destacadas no documentário as iniciativas do Instituto Ethos, o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo e o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE).

O fio condutor da narrativa é que, no Brasil, há um pensamento empresarial que ultrapassa a noção de que um negócio existe apenas para dar lucro. Esse pensamento empresarial mistura questões sociais e ambientais e confunde suas próprias propostas e demandas com aquelas de outros setores, tornando a empresa uma extensão da própria sociedade.

O que Arendt tem a ver com responsabilidade social?

Conhecida como “a pensadora da liberdade”, Hannah Arendt nasceu em 1906, em Hannover, na Alemanha. Viveu as grandes transformações políticas do século XX e a todas reagiu com uma reflexão profunda e duradoura. Estudou em Berlim, em Paris e fugiu para Nova York em 1941. Ficou exilada até 1951, quando conseguiu cidadania americana e recuperou seus direitos políticos. Começou então uma carreira acadêmica que duraria até sua morte, marcada pelo combate aos regimes totalitários, pela defesa dos direitos individuais e da família e contra a “sociedade de massas” e os crimes contra a pessoa.

Também conhecida como “teórica do inconformismo”, Hannah Arendt defendeu os direitos dos trabalhadores e a desobediência civil. Ela morreu em 1975, em Nova York.

O pensamento autônomo é uma das questões centrais na filosofia de Hannah Arendt e está no centro da atual crise econômica e de representação política. O comportamento irresponsável dos bancos, de tomada excessiva de riscos visando apenas o lucro, sem pensar no que poderia acarretar para o resto dos negócios e mesmo para o resto da sociedade, causou a crise econômica que estamos vivendo com mais profundidade desde 2008 e também a crise de representatividade – que agora bate no Brasil,  mas que já bateu na Europa, quando os governos abriram os cofres para salvar esses bancos, em detrimento do bem-estar social. Hoje, os grandes bancos norte-americanos já se recuperaram, apresentando lucros em excesso, mas a crise social continua. E o comportamento indiferente dos bancos não mudou.

Ao agir sem refletir sobre as consequências para as pessoas afetadas, acreditando que a busca do lucro máximo é a regra geral do jogo, atribuindo ao funcionamento do “sistema” as responsabilidades pelas consequências das ações adotadas, as pessoas deixam de se implicar com suas próprias ações. Elas abdicam daquilo que é intrínseco ao ser humano: pensar e agir de acordo com seus valores e refletir sobre esse agir. Cria-se assim o ambiente para o desenvolvimento da “banalidade do mal”, um dos conceitos mais discutidos de Hannah Arendt. Não sou filósofo, mas ouso aplicar aqui esse conceito para ressaltar a importância da adoção, pelas empresas, da visão e princípios da responsabilidade social.

Em todas as decisões de negócios, a todo momento, fazemos escolhas, pequenas e grandes, com consequências para a sociedade e para o meio ambiente. Refletir sobre essas escolhas requer critérios e valores e significa assumir responsabilidade sobre seus efeitos. Esse ato humaniza as nossas ações e pode nos levar a resultados melhores para todos.

O documentário a que me referi acima faz um contraponto, mostrando que ações empresariais são escolhas de pessoas e que é possível construir outro caminho para os negócios e para a economia. O documentário pretende ser um sopro de esperança e, sem nenhuma modéstia, se autointitula A Contribuição do Brasil para a Solução da Crise Financeira de 2008.

Heuer e Bazelow documentam iniciativas de empresários que, ao assumirem a proposta da responsabilidade social empresarial, comprometem-se com um conjunto de valores que não os deixa ficar indiferentes. Entre esses valores, estão o da primazia da ética, em que o interesse do outro é tão legítimo quanto o próprio. É preciso ser levado em consideração no negócio não como simples consumidor, mas como “parte interessada”.

Em relação ao debate que houve após a exibição desse documentário, quero compartilhar com os leitores as respostas que demos a algumas das principais perguntas:

1. As ações apresentadas no documentário tiveram resultados efetivos? Na minha opinião, sim. Por exemplo, as empresas listadas no ISE precisam demonstrar ao Comitê da BM&F Bovespa que realmente cumprem os critérios necessários para integrá-lo. E precisam comprovar anualmente o que impede que elas se acomodem com determinada situação. Elas precisam mostrar evolução nos indicadores avaliados para continuar fazendo parte do índice.

No caso do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, as empresas, ao assumir voluntariamente o compromisso de não realizar transações comerciais com aquelas que estiverem na lista suja do Ministério do Trabalho e Emprego, criaram pressão real de mercado para que aquelas companhias mais vulneráveis fizessem gestão de risco, prevenindo que fatos assim ocorressem na sua cadeia de valor.

2. Afinal, o que o Brasil tem a ensinar? Que é possível combinar o interesse individual (privado) com o interesse público (coletivo), obtendo lucro e ao mesmo tempo promovendo benefício social. Isto é, é possível construir o capitalismo de stakeholders.

Já se demonstrou suficientemente que “the business of the business is business” é um conceito fadado ao fracasso. O negócio do negócio é criar valor e bem estar social.

3. O que há de diferente no Brasil? Porque as iniciativas de responsabilidade social avançam mais aqui? No Brasil, há empresários com ousadia de pensar “fora da caixa” e, com isso, se implicam com seu próprio julgamento a respeito do produto, do mercado, dos governos, da sociedade e de como deve atuar. Essa atitude leva também a ter menos medo do fracasso, fato que cria a possibilidade de o empresário agir diferente, mais de acordo com seus valores pessoais. O sucesso, assim, passa a ter outro significado, incorporando a satisfação que dá ao desenvolvimento da sociedade.

* Paulo Itacarambi é vice-presidente do Instituto Ethos.

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