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Ex-delegado diz que grupo de repressores da ditadura está ativo

30/04/2013

PATRÍCIA BRITTO
DE SÃO PAULO, para a Folha de S. Paulo

Em depoimento à Comissão Municipal da Verdade de São Paulo, o ex-delegado Cláudio Guerra afirmou que existe um grupo formado por pessoas que participaram da repressão durante a ditadura militar (1964-1985) e que hoje atuaria na área de segurança privada e espionagem. Segundo ele, o grupo ainda está em atividade.

Chamado pelo ex-delegado de “irmandade”, o grupo seria formado por ex-integrantes das Forças Armadas, da Polícia Civil e de órgãos da ditadura, como o extinto SNI (Serviço Nacional de Informações), setor de espionagem do regime.

Guerra atuou no SNI de 1973 a 1985 e afirma ter colaborado com a repressão praticando execuções de militantes que lutavam contra o regime. Ele nega, porém, ter praticado tortura.

O depoimento foi gravado em Cariacica (ES) e exibido em vídeo nesta terça-feira (23) em sessão na Câmara Municipal de São Paulo.

Os membros da suposta “irmandade”, segundo Guerra, atuariam em empresas de segurança privada e de espionagem, trocando favores e ainda teriam influência em decisões de alguns órgãos do governo. O ex-delegado não detalhou, contudo, nomes ou organismos que estariam sob influência do grupo.

“O que nós fazíamos no passado para o governo, nós vamos fazer por conta própria”, teriam dito os membros da “irmandade” quando começaram a se organizar, ainda segundo o relato de Guerra. Ele próprio afirma ter recebido, até 2005, ajuda financeira do grupo para se sustentar.

A Comissão da Verdade da Câmara planeja trazer o ex-agente do SNI para São Paulo. Guerra diz que quer se encontrar com três pessoas que teriam participado da repressão para tentar convencê-las a prestar depoimento, mas que só divulgará seus nomes após conversar pessoalmente com eles. “Creio que elas vão prestar um grande serviço. São pessoas conhecidas”, afirma.

No vídeo, Guerra reafirma sua versão para fatos já narrados em seu livro “Memórias de uma Guerra Suja”. Na publicação, ele afirma ter sido responsável por transportar corpos de vítimas da ditadura da chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), para serem incinerados em fornos de uma usina de cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ).

As incinerações começaram a ser feitas a partir de 1974, porque, segundo Guerra, “o negócio de enterrar [as vítimas em valas clandestinas] não estava dando certo”.

Em sua atuação em São Paulo, Guerra afirma no depoimento que praticou três execuções e que foi responsável pela explosão de uma bomba no prédio do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Na época, o ex-delegado disse que não sabia quem eram as vítimas, e que só descobriu os nomes depois, em pesquisas para seu livro. “Saíamos sem saber quem era, sem saber o porquê. Só sabíamos a missão. Tem que chegar atirando e sair do local. Eles diziam que eram pessoas de alta periculosidade, treinadas em Cuba”, diz Guerra.

“Foi errado? Foi, mas nós fizemos. Nós acreditávamos no que estávamos fazendo”, avalia Guerra, hoje pastor evangélico da Assembleia de Deus.

DEPOIMENTOS

Esta foi a primeira vez que a Comissão Municipal da Verdade de São Paulo ouviu depoimento de ex-integrante do regime militar. Até então, apenas vítimas, parentes e testemunhas haviam sido interrogados.

O grupo também já convidou para prestar depoimentos e aguarda confirmação de comparecimento de outras pessoas que atuaram no período, como o economista Antonio Delfim Netto, que foi ministro nos governos de Costa e Silva, Médici e Figueiredo; o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-Codi em São Paulo; o ex-fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo Silvaldo Leung Vieira, que fez a foto de Vladimir Herzog para simular o suicídio; e o presidente da CBF e ex-governador de São Paulo, José Maria Marin.

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