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Hannah Arendt neste Dia da Mulher

08/03/2013

por Laura Mascaro | INB

Neste Dia da Mulher, melhor dizendo, das mulheres, em sua pluralidade e complexidade, escapando aos modelos e tipos pelos quais são frequentemente representadas, gostaríamos de relembrar esta mulher que viveu a condição feminina autenticamente, expressa não em uma ideologia feminista, mas no próprio modo como via e agia no mundo, em seu próprio ser.

Em suas relações com o masculini generis, não se preocupava em enquadrar-se nas concepções estereotipadas do comportamento feminino. Hannah procurava desfrutar do feminini generis em seus próprios termos[1]. A caixa de charutos que ganhou de Kurt Blumenfeld representa essa forma de desfrute. Apesar dos protestos de Günther Stern, seu marido, que considerava os charutos masculinos e malcheirosos, ela os fumou em casa e em público.

Com Heinrich Blücher, seu segundo marido e parceiro ao longo da vida, ela estabeleceu uma relação de igualdade de bases filosóficas e concretizada em sua vida comum. Um poema de aniversário de Heinrich a Hannah simboliza essa relação em que um e outro se transformavam mutuamente, sem perderem sua identidade[2]:

Agora, aqui e agora

Assim como você e eu somos nós,

Sendo tão minha você será eu,

E tão sendo eu, eu devo ser você –

Então olhe, como está aqui e agora, vivo e verdadeiro,

O milagre (nosso próprio!) de Ele e Ela.

Você mais Eu do que eu;

Eu mais Você do que você,

Assim eu mais Eu do que eu

E você mais Você do que você.

Movimento perpétuo, Nós,

Ao redor da Eternidade.

Assim ajudem-nos Eles; assim nos conceda Ele.

Tendo sido a primeira mulher a ser convidada a dar os Seminários Christian Gauss, em Princeton, ela incomodou-se com o tratamento que recebeu de “mulher símbolo”, uma vez que isso a colocava na posição de “mulher de exceção”; papel este que recusava, visto que colocava a questão da mulher em destaque, de maneira segregada e não integrada politicamente a outros grupos para quem a igualdade fosse também negada. A igualdade deveria ser a questão, não a mulher.

Na resenha de Das Frauenproblem der Gegenwart (“O problema de mulher contemporânea”) de Alice Rühle-Gerstel, tratou das discrepâncias entre as realizações do movimento pelos direitos das mulheres em sua época e as condições das mulheres trabalhadoras. Rühle-Gerstel afirmava que as mulheres em casa eram empregadas de seus maridos e, no mercado de trabalho, quase sempre, empregadas antes que empregadoras. Politicamente, Hannah Arendt discordava de sua sugestão de que as mulheres se deveriam se integrar politicamente ao proletariado, uma vez que esta avaliação colocava uma ênfase desmedida nos indivíduos em suas relações de emprego, ao passo que o problema imediato, para ela, residia na família. Era no núcleo familiar que as mulheres ou se tornavam submissas, ou colocavam em risco a própria subsistência de suas relações familiares. Análise esta que, na realidade, é muito coerente com o perfil do espaço público e privado que viria a ser traçado por Arendt mais tarde em A condição humana, sendo que as lutas por igualdade política e de condições ocorrem no espaço público, continuando o privado a ser regido por outra lógica: patriarcal, hierárquica, baseada em relações de força.

Hannah criticou também o movimento das mulheres de sua época:

“As mulheres em tal situação não avançaram nas frentes políticas, que aidna são masculinas. E, além disso, sempre que o movimento feminista alcança uma frente política, só o faz como um conjunto unificado e indiferenciado, que nunca consegue expressas metas concretas (além das humanitárias). A vã tentativa de fundar um partido político feminino revela com grande agudeza o problema do movimento. É um problema semelhante ao do movimento da juventude, que faz apenas em favor dos jovens” [3].

Para ela, o movimento das mulheres deveria estar pronto para agir na frente política e alcançar objetivos concretos, como fizera na conquista do direito ao voto. Os problemas enfrentados pelas mulheres deveriam ser contestados pela ação política, com objetivos concretos, conduzida em colaboração com outros grupos e não isoladamente.

Como ela mesma descreve em Homens em tempos sombrios, Rosa Luxemburgo tinha reservas ao movimento das mulheres semelhantes às suas. Assim como Rosa, Hannah acreditava que a emancipação feminina somente se realizaria plenamente se fosse parte de um programa de transformações mais profundas e gerais.

Ela descreve Rosa Luxemburgo de uma forma que sob alguns aspectos se adequaria a ela própria:

“Ela era uma forasteira, não só por ser e permanecer uma judia polonesa num país que lhe desagradava e um partido que logo viria a desprezar, mas também por ser mulher.” [4]

Conhecendo a vida e obra de Hannah Arendt, sabe-se que a questão do pertencimento sempre esteve presente em suas preocupações, seja pelo fato de ter sido uma judia alemã, depois pelo fato de ter se tornado apátrida, imigrante. No entanto, como no caso de Rosa Luxemburgo, a condição feminina não a segregou de uma maneira inferiorizante, mas foi vivida com audácia, contribuindo para a forma como viu e pensou o mundo e para sua alteridade.

Acerca do pertencimento ao mundo, Arendt escreveu em 1946[5]:

A tristeza é como uma luz que arde no coração,

A escuridão é uma brasa que vasculha nossa noite.

Precisamos apenas acender a pequena chama triste

Para encontrar o caminho de casa, como sombras, através da longa, vasta noite

A floresta, a cidade, a rua, a árvore, são

luminosos

Feliz é aquele que não tem lar; ele ainda o vê em seus sonhos.


[1] YOUNG-BRUEHL, E.. Por amor ao mundo: a vida e obra de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997, p. 103.

[2] YOUNG-BRUEHL, E.. Por amor ao mundo: a vida e obra de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997, p. 244-245.

[3] ARENDT, H.. Sobre a emancipação das mulheres. In. __________. Compreender: formação, exílio e totalitarismo (ensaios).  São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp. 93-95.

[4] ARENDT, H.. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.46.

[5] YOUNG-BRUEHL, E.. Por amor ao mundo: a vida e obra de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997, p. 184.

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