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Hannah Arendt no Brasil

29/01/2012

por Eduardo Jardim

A recepção da obra de Hannah Arendt no Brasil comporta duas fases. A primeira iniciou-se em 1972, com a publicação de Entre o passado e o futuro, lançado nos Estados Unidos em 1961. A iniciativa da tradução foi de Celso Lafer, que escreveu um estudo introdutório. Em depoimento recente, ele relatou que a indicação do livro para publicação foi da própria Hannah Arendt (com quem tinha estudado em meados dos anos 1960), o que revela a importância que a autora dava a esta coleção de ensaios. No ano seguinte, 1973, apareceu a tradução de Crises da república, cuja edição americana é de 1969. O livro foi publicado no Brasil, portanto, apenas quatro anos após seu lançamento. Os dois livros foram publicados por uma nova editora, Perspectiva, criada em São Paulo, em 1965, por Jacó Guinsburg, que organizava uma coleção de livros de autores judeus e estava iniciando uma série de grande sucesso ― a Debates. Em 1975, a editora Documentário, do Rio de Janeiro, publicou a primeira parte de Origens do totalitarismo ― Anti-semitismo. Também este livro contém uma apresentação de Celso Lafer, que, ao final, considerava a importância de inserir a obra de Hannah Arendt nas discussões sobre o judaísmo no Brasil. O autor entendia que, para o exame do processo de assimilação da intelectualidade judaica, era preciso levar em conta a presença de uma tensão, afinal positivamente solucionada, entre a adesão aos valores considerados universais e o vínculo à identidade judaica. Não obstante o apelo de Celso Lafer, esse viés de interpretação do pensamento arendtiano permaneceu pouco explorado entre os leitores brasileiros. A tradução da principal obra, A condição humana, por Roberto Raposo, responsável por todas essas primeiras traduções, saiu pela editora Forense, em 1981.

Dignidade da ação política
Já na primeira fase da sua recepção, a obra de Hannah Arendt alcançou junto ao público significativa acolhida, que assegurou edições sucessivas de todos os livros. Alguns passaram a ser, desde aquele momento, verdadeiros sucessos de venda, o que contrasta com a pouca atenção dos universitários à obra da autora, por quase duas décadas. Tudo indica que Hannah Arendt sempre teve, não apenas no Brasil, um público bastante amplo de leitores leigos, não-especialistas.

No meio universitário, nas décadas de 1970 e 1980, o pensamento de Hannah Arendt despertou relativamente pouco interesse. As dificuldades de contato com essa obra, na universidade, foram de várias ordens. Inicialmente, ao considerar-se a situação dos cientistas sociais, as dificuldades tinham a ver com o modo como se concebia a relação entre a política e a história. A tradição das ciências sociais no Brasil formou-se na crença de que a história constitui um processo progressivo na direção do ingresso do país na vida moderna. Com base nesse pressuposto, concebeu-se a política como um instrumento que faria avançar ou retardar a realização dessa finalidade histórica. O resultado dessa visão foi que a orientação predominante no pensamento social brasileiro considerou a política em uma posição subordinada à história. Para Hannah Arendt, ao contrário, a vida política tem dignidade própria. A ação, atividade política por excelência, possui um caráter imprevisível, inaugural, quase milagroso. Por esse motivo, ela se apresenta como ruptura dos encadeamentos históricos. Hannah Arendt comentou, em um de seus ensaios, que a modernidade teria frustrado, em vários momentos, a possibilidade de se elaborar uma teoria da política, substituindo-a por uma filosofia da história. A concepção de política de Hannah Arendt situa-se à distância de toda forma de progressismo e também não é conservadora, já que as duas posições repousam na idéia de que a história segue um curso já traçado, o que impede a apreensão do caráter inovador da ação política.

Superar a divisão entre teoria e prática
O segundo ponto que dificultou a aceitação das teses de Hannah Arendt teve a ver com o modo como se concebeu o próprio estatuto da teoria social. A noção de que a teoria deve servir para uma intervenção transformadora na realidade marcou a compreensão que os cientistas sociais tiveram da sua vocação. Essa convicção se sustentava na aceitação de um dualismo de teoria e prática, presente ao longo da nossa tradição de pensamento. Essa tradição, iniciada com os Antigos, pretendeu impor à teoria a tarefa de produzir critérios para atuar na realidade, do que resultou uma compreensão instrumental da atividade intelectual. Hannah Arendt, por sua vez, propôs tratar da relação entre teoria e prática fora dos marcos tradicionais, o que a conduziu a tomar distância da solução “ativista” adotada pela orientação dominante nas ciências sociais. Para ela, na atualidade, importa considerar o estatuto próprio da teoria, independentemente das tarefas a ela atribuídas, o pensamento sendo visto como a mais desinteressada das atividades espirituais.

Também entre os filósofos era comum a desqualificação do sentido filosófico da contribuição de Hannah Arendt, a ponto de seus livros raramente constarem das bibliografias da área. No entanto, uma visão sem preconceitos logo notaria que a fenomenologia da vida ativa, isto é, das atividades do labor, do trabalho e da ação, contida em A condição humana, constitui uma preciosa exploração de aspectos da Ética e da Política de Aristóteles. Hannah Arendt declarou que sua obra tem por pressuposto a aceitação da ruptura do fio da tradição iniciada com os antigos gregos. Neste aspecto, ela acompanha o diagnóstico de Friedrich Nietzsche e de Martin Heidegger sobre o fim da metafísica e resulta do empenho em explicitar suas implicações políticas.

Anos 1990
A situação da recepção da obra de Hannah Arendt alterou-se de forma significativa, em dois aspectos principais, ao longo dos anos 1990. Em primeiro lugar, vários tópicos da teoria política de Hannah Arendt foram incorporados como importantes referências por cientistas sociais e políticos. Ainda é cedo para avaliar o efeito do contato com as idéias de Hannah Arendt nos trabalhos nessas áreas. Mas o fato de esse contato ter sido mediado pela leitura do principal livro da autora, A condição humana, que visa à definição do conceito de política, indica que ele deverá contribuir para a ruptura com os antigos padrões reducionistas, economicistas e historicistas, vigentes em teoria política.

Em segundo lugar, a obra filosófica de Hannah Arendt passou a despertar um interesse crescente. A publicação da tradução da última obra da autora, A vida do espírito, em 1991, pela editora Relume Dumará, constituiu um marco nesse sentido. A atenção dos estudiosos de filosofia concentrou-se em dois aspectos dessa última obra. De um lado, buscou-se explorar o significado dos textos da autora sobre a teoria do juízo, de onde se passou à consideração da leitura de Hannah Arendt da obra de Kant, especialmente da Crítica da faculdade do juízo. De outro lado, a tematização por Hannah Arendt do estatuto do pensamento e, especialmente, do caráter problemático assumido pelo exercício do pensar na atualidade, isto é, no fim da tradição, ensejou, da parte dos estudiosos, a consideração do vínculo de Hannah Arendt com outros escritores “pós-metafísicos”, entre os quais, Heidegger. Isso foi favorecido pela importância cada vez maior de Heidegger no ambiente filosófico contemporâneo. A publicação da tradução da correspondência entre Heidegger e Hannah Arendt (Relume Dumará) insere-se nesse quadro.

A situação favorável à recepção da obra de Hannah Arendt nos anos 1990, certamente, teve a ver com as mudanças no cenário político mundial a partir de 1989. Com efeito, com o desaparecimento da União Soviética e da política dos dois blocos, configurou-se um cenário político-cultural novo, no qual os conceitos de inspiração historicista, especialmente o marxismo, perderam a importância. Nesse novo cenário, era de se esperar que novos referenciais teóricos fossem valorizados, como foi o caso da obra de Hannah Arendt. O legado arendtiano conjuga o levantamento histórico minucioso da experiência totalitária, de que o modelo soviético é considerado uma expressão, com um forte apelo à inovação e à fundação da vida política no âmbito da ação. Tudo isso seria de se esperar em um momento de libertação.

É claro, as experiências políticas da última década não realizaram, de modo algum, os princípios libertários contidos na obra de Hannah Arendt. Ao contrário, a tendência dominante tem sido o enfraquecimento do âmbito político com a sua subordinação a critérios econômicos e administrativos, de um lado, e o recurso à violência como instrumento para a solução de conflitos, de outro. Tudo isso faz com que a obra de Hannah Arendt se apresente hoje, sobretudo, como uma instância crítica no exame do mundo contemporâneo. Nesse sentido, ganham importância passagens como a seguinte, que conclui o exame da experiência totalitária, contida no último capítulo de Origens do totalitarismo ― Ideologia e terror: “Permanece o fato de que a crise do nosso tempo e a sua principal experiência deram origem a uma forma inteiramente nova de governo que, como potencialidade e como risco sempre presente, tende infelizmente a ficar conosco de agora em diante(…)”.

FONTE: Originalmente publicado na Revista Cult, em outubro de 2008. Eduardo Jardim é professor da PUC-RJ.

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