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Hannah Arendt e a Crise

11/01/2012

Esta é a passagem final do livro de Eduardo Jardim – Hannah Arendt – Pensadora da Crise e de um Novo Início, publicado recentemente pela Civilização Brasileira.

Hannah Arendt passou o primeiro semestre de 1955 na Califórnia, onde deu cursos na Universidade de Berkeley. No final de um deles, recorreu a uma conhecida passagem de Nietzsche, do Zaratustra, em que o filósofo afirma, ao referir-se à sua época: “o deserto cresce”. Para Hannah Arendt, o diagnóstico continuava atual. À investigação sobre o totalitarismo, nos anos 1940, seguiu-se o exame do desfecho, na contemporaneidade, da história moderna, em um tempo chamado de sombrio pela filósofa. Este exame indicava que o sentimento de desamparo do mundo experimentado na atualidade não se devia apenas a que não estavam mais disponíveis critérios seguros para dar conta da realidade e nela intervir. Mais grave ainda era o fato de que o próprio mundo perdera estabilidade. A experiência totalitária mostrara que a capacidade de agir dos homens pode ser anulada por um movimento de mobilização total das massas, no qual cada pessoa perde sua individualidade. Neste caso, o mundo, entendido como “tudo que há entre nós”, desaparece. Por outro lado, as modernas sociedades industriais, com a expansão da esfera do labor e a transformação dos bens artificiais produzidos pelo trabalho humano em bens de consumo, são responsáveis pela corrosão do mundo, visto como o conjunto da obra humana.

Em seus livros e artigos, Hannah Arendt não se esquivou de “examinar e suportar o fardo que o nosso século colocou sobre nós”. Nessa medida, foi uma pensadora da crise. Ao mesmo tempo, ao descartar toda perspectiva determinista, entendeu que tudo poderia ter ocorrido de forma diferente. Por essa razão, sua convicção era de que não cabia se vergar ao fardo dos acontecimentos.

Hannah Arendt dedicou-se, com paixão e em várias direções, a explorar caminhos que apontassem para outros cenários, configurados a partir de marcos inaugurais definidos pelo renovado poder de iniciar. Nesta altura, a filosofia em que tinha se formado não foi de muita valia, pois sua força tinha se exaurido, exceto em um único caso – a obra de Agostinho, a que ela dedicara sua tese de doutorado. Na obra do maior pensador da cristandade, encontrou a passagem que serviu de inspiração para a elaboração de um novo conceito de ação, o qual sustentou a compreensão arendtiana da política: “o homem foi criado para que houvesse um começo”.

No esforço de situar e descrever a capacidade humana de iniciar, Hannah Arendt voltou-se também para os homens de ação. O livro Sobre a revolução destacou a importância, nas revoluções modernas, do aparecimento de formas inéditas de organização, os conselhos operários, os quais, diferentemente dos partidos, vivificam o agir político. O livro sugere que é preciso contar a história dessas experiências, para que sua riqueza não se perca no esquecimento.

Também a experiência do juízo, que se manifesta no debate público em que os homens expõem suas opiniões, pareceu-lhe uma possibilidade de resgate do mundo. Sua leitura da Crítica da faculdade do juízo, de Kant, infelizmente inacabada, se orientava para uma aproximação da política e da estética. Hannah Arendt pensava que existem experiências muito intensas nas quais o homem se sente vivo na dimensão privada, como o amor e a fé. No entanto, a existência de um mundo que possa ser reconhecido e partilhado pelos homens depende do exercício do confronto de diferentes perspectivas, por uma pluralidade de espectadores.

Homens em tempos sombrios é uma de suas mais belas obras. Ali retratou algumas destacadas figuras da época, na literatura e na política. No prefácio, de 1968, observou que, mesmo no tempo mais sombrio, tem-se o direito de esperar alguma iluminação, que pode não vir de conceitos ou teorias, mas da luz “incerta, bruxuleante e frequentemente fraca” que alguns homens e mulheres farão brilhar nas circunstâncias da sua época. Um feixe de luz idêntico ao que irradia das figuras de Lessing, Rosa Luxemburgo, o papa João XXIII, Karl Jaspers, Waldemar Gurian, Isak Dinesen, Hermann Broch, Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Randall Jarrell, e, na edição brasileira, de Martin Heidegger, também se vê na figura de Hannah Arendt. Ele pode iluminar nossa época, mesmo que nossos olhos estejam tão habituados às sombras ou tão ofuscados pelo brilho excessivo dos apelos publicitários.

*   *   *

A figura e a obra de Hannah Arendt (1906-1975) vêm ganhando, a cada dia, mais destaque no panorama da filosofia e do pensamento político. Hannah Arendt: pensadora da crise e de um novo início apresenta o itinerário da autora em três etapas.

Inicialmente, aborda a investigação feita nos anos 1940 sobre os regimes totalitários, especialmente sobre o nazismo, da qual resultou o livro Origens do totalitarismo (1951). Para Hannah Arendt, a crise política expressa no surgimento dos estados totalitários constitui o último passo de uma série de rupturas que marcou a história moderna.

O segundo tema aqui discutido é a concepção de política da filósofa. Seguindo uma sugestão própria da autora, o livro faz menção, em primeiro lugar, à atitude de desconfiança de tudo o que é público e plural no mundo contemporâneo. Em seguida, discute a visão renovadora da política, baseada na teoria da ação, exposta em A condição humana.

Por fim, é considerado o propósito dos últimos textos de Hannah Arendt de relacionar as atividades espirituais do pensar e do julgar. Isto a conduziu a um tratamento muito singular e positivo do vínculo entre a experiência intelectual – a vida do espírito – e a ação política. Um livro sobre Hannah Arendt não poder deixar de levar em conta aspectos de sua vida e o ambiente que sua obra foi elaborada. Por isso, este trabalho inclui um resumo biográfico dessa grande pensadora e informações relativas à história política da época em que viveu. (Fonte: http://www.historiarecord.com.br/2011/12/hannah-arendt-e-crise.html#.TwlfWJgTvUQ)

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