Skip to content

Arendt e o imperativo de estar presente

15/04/2011

Sylvie Courtine-Denamy, doutora em Filosofia e pesquisadora do Centro de História Moderna e Contemporânea do Povo Judeu (E.P.H.E.), é autora do livro Trois Femmes dans des sombres temps. Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil ou Amor fati, amor mundi. Paris: Albin Michel, 1997.

Por: IHU Online

Especialista em Hannah Arendt, ela fala na entrevista que segue, concedida à IHU On-Line, por e-mail, que “não reportar-se nem ao passado, nem ao futuro, mas estar plenamente presente”, este é o imperativo ao qual Arendt se ateve e colocou em prática depois de tê-lo descoberto na Lógica do seu mestre Karl Jaspers: essa também é a divisa que poderia guiar-nos neste mundo já destituído de referências”.  E acrescenta que a filósofa ficava irritada como papel de “mulher de exceção” que pretendiam fazê-la representar (a primeira mulher filósofa, a primeira mulher a ser convidada nas conferências de Princeton etc…), pois isso lhe lembrava o status dos “judeus como exceção”, que lhe causava horror. A seus olhos, todo indivíduo, seja mulher ou homem, deve o seu status tão somente à sua competência”.

Courtine-Denamy recebeu o Prêmio Alberto Benveniste pelo seu livro La Maison de Jacob. La langue pour seule patrie. Paris: Phébus, 2001. Está publicado em português o seu livro Cuidado com o Mundo – o diálogo entre Hannah Arendt e alguns de seus contemporâneos. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004. Na edição 168 da IHU On-Line, de 12-12-2005, dedicada a analisar o legado de Arendt, Simone Weil e Edith Steis, concedeu a entrevista Três mulheres em tempos sombrios. O material está disponível para download na página eletrônica do IHU.

IHU On-Line – Como a filosofia de Hannah Arendt pode auxiliar as mulheres do século XXI a assumirem sua importância no processo político?

Sylvie Courtine-Denamy-  Hannah Arendt não era “feminista” se é que ser feminista implica militar a favor da “mulher”, vista como uma entidade global e indistinta, da mesma forma que “os trabalhadores”. Contrariamente a tais “abstrações”, a sua única preocupação era o desabrochar e a preservação da singularidade de cada um, a revelação do “quem”, a resposta à pergunta que outros me fazem: “quem é você?”. Contudo, isso pressupõe o laço com os outros, o fato de expor-se no palco público para que sua voz seja ouvida e também se engajar na ação. Esta revelação não poderia ser, portanto, o viver uma vida de isolamento, debruçada no trabalho e confinada dentro de casa, a idiotia (idion) da vida privada ausente do mundo, e é nisso que consiste o exemplo de Hannah Arendt para os homens e as mulheres do século XXI: assumir a sua responsabilidade em relação ao mundo, responder pelo mundo, já que “nós não estamos apenas no mundo, mas somos do mundo”.

IHU On-Line – Um dos livros da senhora, intitulado Três mulheres em termpos sombrios, retoma o título de Arendt, Homens em tempos sombrios. A senhora acredita que as mulheres de hoje ainda vivem em tempos sombrios? Por quê? E a política, também continua refém desses tempos sombrios?

Sylvie Courtine-Denamy- Não, a expressão dos “tempos sombrios”, que a própria Hannah Arendt retoma de um poema de Bertolt Brecht , tem uma conotação bem precisa que se refere à desumanidade nazista e não pode, portanto, aplicar-se à época atual, embora haja, infelizmente, numerosos países ainda onde os homens, e as mulheres mais especificamente, sofrem a opressão e a repressão. No final do seu ensaio Ideologia e terror, publicado em As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989-2004, Hannah Arendt encarava a eventualidade de o totalitarismo perdurar entre nós. A data de 11 de setembro de 2001 apresenta, sem dúvida, analogias com os totalitarismos nazista e bolchevista: a aspiração totalitária de controlar a vida em sua integralidade, supostamente em nome do Corão, o desprezo com relação à decadência do mundo ocidental devido ao progresso e à separação entre o Estado e a religião e, conseqüentemente, o desejo de retornar a um passado intelectualmente mais brilhante e restaurar o califado do século VII, o anti-semitismo ostentado, a reivindicação de supranacionalismo – a “nação islâmica”, a “nação de Maomé” — negando precisamente a pluralidade que é, segundo Arendt, “a lei da terra”. Contudo, apesar do número de mortes civis provocadas pelos atentados suicidas, a despeito das ameaças proferidas pelo presidente iraniano contra o Estado hebreu, temos que reconhecer que, até agora pelo menos, o terrorismo islâmico não criou campos de exterminação e tampouco dispõe de um aparelho de Estado, mesmo se numerosos estados apóiam seus combatentes. Por conseguinte, com o 11 de setembro, talvez estejamos na presença de alguma coisa inédita, sem precedente – como era o caso, de acordo com Hannah Arendt, com os governos totalitários – para a qual carece tanto um novo conceito quanto uma nova definição. Alguma coisa que marca uma data não apenas para os Estados Unidos, mas na história da humanidade, no sentido em que, como o escreve Jacques Derrida, “marcar uma data pressupõe que alguma coisa ocorre ou se produz pela primeira e última vez”.

IHU On-Line – Como a trajetória de Arendt pode inspirar as mulheres filósofas contemporâneas?

Sylvie Courtine-Denamy- Toda trajetória é singular, por definição, mas me parece que o que se deve precisamente considerar no exemplo de Arendt, é o seu grau de liberdade muito elevado, a sua ausência de preconceito, a sua vontade de não situar-se em lugar algum, de não ser enquadrada em nenhuma categoria. Portanto, como ela mesma definia: “Não me encaixo”.

IHU On-Line – Amor mundi, amor fati era o título inicial do livro que Arendt projetava para a obra A condição humana. Esse amor mundi teria algum traço do amor fati nietzschiano, de aceitação incondicional da realidade, de uma existência afirmativa?

Sylvie Courtine-Denamy- Amor mundi era, de fato, o título que Hannah Arendt tinha em mente, a princípio, para o livro ao qual acabou dando o título a A condição humana. 10ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002-2005, conforme ela explicava ao seu mestre Karl Jaspers, este livro marcava, de fato, aos seus olhos, a sua “reconciliação” com um mundo onde não somente “tudo é permitido” (fórmula do niilismo), mas também onde tudo (a exterminação dos homens em nome de sua “superfluidade”) tinha se tornado “possível”, um mundo onde temos que continuar, apesar de tudo, a viver. A expressão amor fati não pertence, de maneira alguma, ao vocabulário de Hannah Arendt. E se eu escolhi este subtítulo para o meu livro Três mulheres em tempos sombrios: Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil, é precisamente para marcar a oposição entre duas atitudes bem diferentes com relação à vida: o amor pelo mundo em Hannah Arendt, uma atitude de responsabilidade política, sem nenhuma conotação religiosa, enquanto o amor fati nietzschiano e estóico, a “aceitação”, a aquiescência, ou ainda a resignação ao destino, caracterizaria mais a atitude de Simone Weil e de Edith Stein, impregnada de religiosidade, uma cedendo à atração da conversão, a outra hesitando incessantemente na entrada da Igreja.

IHU On-Line – Em que medida esse entendimento possibilita fundamentar o engajamento político? Por que Arendt não se interessou pela questão da libertação da mulher quando viveu nos EUA?

Sylvie Courtine-Denamy- O seu amigo Hans Jonas  explica este desinteresse pela condição feminina com base no fato de que Hannah Arendt queria conservar as suas “qualidades” femininas, isto é, os privilégios ligados à condição feminina. Para ele, o termo “feminismo” tem, indiscutivelmente, uma conotação bem pejorativa, é sinônimo de vulgaridade e agressividade. Uma frase de Hannah Arendt, em sua entrevista com Gauss , foi pronunciada a favor desta explicação bastante conservadora: “Sempre achei que existiam atividades determinadas que não convinham às mulheres. Dar ordens não fica bem para uma mulher, e é a razão pela qual ela deve esforçar-se a evitar tais situações se quiser, apesar de tudo, conservar suas qualidades femininas…”. Se, dar ordens não fica bem para uma mulher, é porque Hannah Arendt se apóia na política no sentido aristotélico do termo, a saber, a tomada de decisão pela palavra e a persuasão e não pela força e a violência. Mas me parece também, assim como ela mesma o diz em algum lugar, que o combate pela liberação feminina, tal como se apresentava em sua época, lhe parecia puramente “social”, abstrato e ineficaz: ela esperava, portanto, das mulheres, que elas se comprometessem ao mesmo título que os homens na via “política”. Assim como ela o explica em seu Journal de pensée, não se deve confundir a parte com o todo. “Essencializar”, globalizar, é este o erro: “o absurdo que consiste em organizar as mulheres na qualidade de mulheres. O pecado mortal consiste em fazer passar o méros (= a parte) por um genos (= o todo): conceito de raça”. Aliás, tais eram, já, os argumentos invocados por Rosa Luxemburgo . E no artigo que ela consagrou à La Passionaria  em Vidas políticas, Hannah Arendt faz precisamente o elogio daquela que tinha escolhido “a pequena diferença” contra a “igualdade sufragista”. Acho que ela teria zombado do conceito de “discriminação positiva” que irrompeu em nossa época, e principalmente no que se refere à questão da quota da representação feminina na política. A própria Hannah Arendt ficou muitas vezes irritada pelo papel de “mulher como exceção” que pretendiam fazê-la representar (a primeira mulher filósofa, a primeira mulher a ser convidada nas conferências de Princeton etc…), pois isso lhe lembrava o status dos “judeus como exceção”, que lhe causava horror. A seus olhos, todo indivíduo, seja mulher ou homem, deve o seu status tão somente à sua competência.

IHU On-Line – A confissão de Arendt a Hans Jonas de que, após se ocupar da política, iria dedicar-se a coisas urgentes, não contradiz, em certo sentido, o valor que sempre deu à ação política, além de pressupor um dualismo que privilegia a teoria em relação à práxis?

Sylvie Courtine-Denamy- Se a História não tivesse irrompido na vida de Hannah Arendt sob a forma do hitlerismo e das perseguições contra os judeus, entravando a sua carreira universitária, torna-se claro que a sua reflexão não se teria voltado e demorado no destino dos judeus, nas conseqüências paradoxais da emancipação que os transformaram em párias ou em novos ricos, que ela não teria realizado uma pesquisa sobre as Origens do Totalitarismo, que não teria refletido tanto na decadência da política em nosso tempo, e que ela nos teria entregue de imediato A Vida do espírito. Entretanto, o que foi para ela uma “má sorte” talvez constitua para nós, ao contrário, uma “sorte”, a de ver sendo elaborada a procura de uma nova política que, indo de encontro à tradição do pensamento filosófico, não privilegiaria mais, de modo exclusivo, a torre de marfim, não afirmaria mais a supremacia do bios theoretikos mas assumiria, como fio condutor, a pluralidade, a natalidade e a capacidade de atuar, em que consiste a essência do homem, bem como a sua capacidade de julgamento.

IHU On-Line – A senhora poderia explicar o sentido de sua afirmação em entrevista à nossa revista, edição 168, de 12-12-2005, quando disse que o elo entre Arendt e Heidegger é de uma “fidelidade infiel”?

Sylvie Courtine-Denamy- Hannah Arendt ficou, durante toda a sua vida, fascinada por aquele que ela chama, na homenagem que ela lhe presta por ocasião de seus oitenta anos, “o rei secreto” que ensinou a pensar a jovem estudante de dezoito anos que ela era então, na época em que freqüentou seus cursos em Marburg. Sua intenção era dedicar-lhe o livro a Condição do homem moderno, confessando “ele te deve tudo em todos os sentidos”, razão do seu despeito quando o Sr. Heidegger não respondeu ao envio do seu livro que ela considerava como o seu livro de “teoria política”. Parece, muitas vezes, que o seu pensamento é uma reação contra Heidegger, e esta é uma maneira de ser-lhe fiel, sendo-lhe, ao mesmo tempo, infiel. Assim, por exemplo, a sua insistência sobre o tema da “natalidade” como promessa de um novo início, em oposição a “o ser em direção à morte” que caracteriza, em Heidegger, a essência do homem. Ou ainda, enquanto o Sr. Heidegger lhe confessa, em sua correspondência, que não tem grande interesse pela política, ela, ao contrário, manifesta um enorme interesse pela mesma,  valorizando a ação, julgando, como Leo Strauss , que a questão da “boa sociedade” está no âmago da vida política a partir do ano de 1933. Do mesmo modo, o empenho sustentado por Arendt encontra a sua formulação na expressão “preocupação pelo mundo”, conceitos que se encontram bem presentes em Heidegger igualmente onde, desde Ser e tempo o fato de dedicar atenção indica a finitude característica do ser no mundo em oposição ao “bem de Deus (imortal) único suscetível de concluir a si mesmo, de acordo com a sua própria natureza”, mesmo se ambos os conceitos não abrangem, evidentemente, a mesma realidade para os dois autores. E se Heidegger passou ao lado do “centro da política”, conforme afirmado por ela em O interesse pela política no pensamento filosófico europeu hoje (1954), é precisamente porque ele omitiu pensar “o homem como ser atuante”, privilegiando a pergunta “Como é que devemos pensar?” com relação à pergunta kantiana “O que devemos fazer?”, e não hesitando em identificar o “pensar” e o “atuar”. Ora, uma equivalência dessas é inadmissível para Hannah Arendt, constituindo a ação de comum acordo e o pensamento solitário duas posições “existenciais” totalmente diversas. Se Hannah Arendt desafia também a “pensar o que nós fazemos”, se ela também enfatiza o fato de que o homem moderno não perdeu as suas faculdades, que ele tem a necessidade de pensar, ela convida, do mesmo modo, a recuperar a faculdade de atuar, atualmente monopolizada pelos cientistas. A “preocupação pelo mundo”, em Hannah Arendt, consiste, portanto, num vaivém entre a ação e o espírito, mais do que numa abdicação da categoria da ação.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Sylvie Courtine-Denamy- “Não reportar-se nem ao passado, nem ao futuro, mas estar plenamente presente”, este é o imperativo ao qual Hahhah Arendt se ateve e colocou em prática depois de tê-lo descoberto na Lógica do seu mestre Karl Jaspers: essa também é a divisa que poderia guiar-nos neste mundo já destituído de referências. 

Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=624&secao=206

One Comment leave one →
  1. 12/05/2011 15:25

    Excelente matéria! Fora o pequeno deslize da entrevistada de chamar Rosa Luxemburg de La Passionaria. Dolores Ibarruri ( comunista espanhola) e não Rosa Luxemburg era conhecida por esta alcunha.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: