Skip to content

Z. Bauman sobre H. Arendt

18/08/2010

“Jeder sage, was ihm Wahrheit dünkt,/ und die Wahrheit selbst sei Gott empfohlen” (“Que cada homem diga o que considera a verdade,/ e que a própria verdade seja confiada a Deus” )   –   Lessing

A mensagem de Lessing/Arendt é muito direta. Confiar a verdade a Deus significa deixar em aberto a questão da verdade (de “quem está certo”). A verdade só pode emergir bem no final da conversa — e numa conversa genuína (quer dizer, que não seja um solilóquio disfarçado). Nenhum parceiro tem certeza, ou capacidade, de saber qual pode ser esse final (se é que ele existe). Um orador, e também um pensador que pensa do “modo orador”, não pode, como assinala Franz Rosenzweig, “prever coisa alguma; deve ser capaz de esperar porque depende da palavra do outro — precisa de tempo”. (38) E como aponta Nathan Glazer, o mais perspicaz dos discípulos de Rosenzweig, há “um curioso paralelo” entre esse modelo de pensador no “modo orador” e o conceito processual/dialético de verdade proposto por William James: “A verdade acontece a uma idéia. Ela se torna verdade, é transformada em verdade pelos eventos. Sua veracidade é de fato um evento, um processo: o de verificar-se, sua veri-ficação. Sua validade é o processo de sua validação.” (39) A afinidade, com efeito, é impressionante — embora, para Rosenzweig, a fala que se engaja honesta e esperançosamente num diálogo, uma fala incerta do resultado deste e portanto de sua própria verdade, seja a principal substância do “evento” em que se “faz” a verdade, e o principal instrumento desse “fazer”.
A verdade é um conceito eminentemente agonístico. Nasce do confronto entre crenças que resistem à conciliação e entre seus portadores relutantes em chegar a um acordo. Sem esse confronto, a idéia de “verdade” dificilmente teria ocorrido, para começo de conversa. “Saber como ir em frente” seria tudo de que se precisaria — e o ambiente em que se faz necessário “ir em frente”, a menos que desafiado e assim tornado “estranho” e esvaziado de sua “auto-evidência”, tende a se completar com a inequívoca prescrição de “ir em frente”. Debater a verdade é uma resposta à “dissonância cognitiva” Ela é instigada pelo impulso a desvalorizar e desempoderar (despotencializar) outra leitura do ambiente e/ou outra prescrição de ação que lance dúvida sobre a leitura e a rotina de ação de alguém. Esse impulso crescerá de intensidade quanto mais as objeções/obstáculos se tornarem vociferantes e difíceis de abafar. O interesse em debater a verdade, e o principal propósito de sua auto-afirmação, é prova de que o parceiro/adversário está errado e de que, portanto, as objeções são inválidas e podem ser desprezadas.
Quando se trata de discutir a verdade, as chances de uma “comunicação não-distorcida”, tal como foi postulado por Jürgen Habermas, se tornam diminutas. (40) Os protagonistas dificilmente resistirão à tentação de recorrer a outros meios, mais efetivos, que não a elegância lógica e o poder persuasivo de seus argumentos. Em vez disso, farão o possível para tornar os argumentos do adversário inconseqüentes, de preferência inaudíveis ou, melhor ainda, jamais vocalizados, pela desqualificação daqueles que, se pudessem, os vocalizariam. Um argumento que tem grande chance de ser apresentado é o da inelegibilidade do adversário como interlocutor pelo fato de ele ser inepto, mentiroso ou inconfiável, mal-intencionado ou claramente inferior.
Se isso fosse possível, em vez de argumentar seria preferível recusar a conversa ou abandonar o debate. Entrar na discussão é, afinal, uma confirmação oblíqua das credenciais do parceiro e uma promessa de seguir as regras e padrões do discurso (contrafactualmente) lege artis e bona fide. Acima de tudo, entrar na discussão significa, como apontou Lessing, confiar a verdade a Deus. Em termos mais objetivos, significa fazer do resultado do debate um refém do destino. É mais seguro, se possível, declarar os adversários errados a priori e privá-los da capacidade de apelar do veredicto do que tentar enredá-los num litígio judicial e expor o próprio argumento a um interrogatório rigoroso, arriscando que seja rejeitado ou derrotado.
O expediente de desqualificar o adversário num debate sobre a verdade é usado com maior freqüência pelo lado mais forte — nem tanto por sua maior iniqüidade, mas por sua maior engenhosidade. Podemos dizer que a capacidade de ignorar os adversários e fechar os ouvidos às causas que eles promovem é o índice pelo qual se pode medir o volume e o poder relativos dos recursos. Inversamente, voltar atrás na recusa para debater e concordar em negociar a verdade é com muita freqüência um sinal de fraqueza — circunstância que torna o lado mais forte (ou alguém que deseje demonstrar sua força superior) ainda mais relutante em abandonar sua posição de rejeição.
A rejeição do estilo de Rosenzweig de “pensamento orador” é capaz de se perpetuar e fortalecer. Do lado do mais forte, a recusa em conversar pode passar por um sinal de que se “tem razão”, mas para o lado oposto a negação do direito de defender sua causa que essa recusa acarreta, e conseqüentemente a recusa em reconhecer seu direito de ser ouvido e levado a sério como um portador de direitos humanos, constituem as maiores afrontas e humilhações — ofensas que não podem ser aceitas placidamente sem que se perca a dignidade…
A humilhação é uma arma poderosa — mas do tipo bumerangue. Pode ser usada para demonstrar ou provar a desigualdade fundamental e irreconciliável entre quem humilha e quem é humilhado. Mas, contrariando essa intenção, ela de fato autentica, verifica a simetria, a semelhança, a paridade de ambos.
Porém o grau da humilhação invariavelmente provocada por todo ato de recusa em conversar não é a única razão para que esta se autoperpetue. Na terra de fronteira em que nosso planeta está rapidamente se transformando, em conseqüência da globalização unilateral, (41) as repetidas tentativas de superar, despotencializar e desqualificar o adversário freqüentemente atingem os efeitos pretendidos, embora com resultados que vão muito além daquilo que seus perpetradores previam ou gostariam. Grandes partes da África, Ásia e América Latina estão cobertas de traços duradouros deixados por antigas campanhas de despotencialização: as numerosas terras de fronteira locais, efeitos colaterais, ou dejetos, de que padecem as forças beneficiárias das condições da terra de fronteira global, as quais elas não podem deixar de disseminar e propagar.
Os exercícios de despotencialização são considerados “bem-sucedidos” se o desarmamento do adversário for feito de tal forma que elimine a esperança de recuperação. As estruturas de autoridade são desmanteladas, os laços sociais, cortados, as fontes costumeiras de subsistência, devastadas e postas fora de operação (na terminologia política da moda, os territórios assim afligidos são ditos “Estados fracos” embora o termo “Estado”, apesar da restrição, só possa se justificar nesse caso por ser empregado sons rature, como diria Derrida). Quando sustentadas por um arsenal hightech, as palavras tendem a se transformar em carne, obliterando assim sua própria necessidade e propósito. Nas terras de fronteira locais, não ficou nenhuma para contar a história — CQD.
BAUMAN, Zygmunt. AMOR LÍQUIDO: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004. Pág. 179 – 182
37. Hannah Arendt, “On humanity in dark times”, in Men in Dark Times, op.cit., p.31.
38. Franz Rosenzweig, Das Büchlein vom gesunden und kranken Menschenverstand. [Ed. ing.: Understanding the Sick and the Healthy. Org. N.N. Glatzer, Harvard, Harvard University Press, 1999, p.14.]
39. Citado por Glatzer in ibid., p.33, seguindo William James, Pragmatism, Londres, 1907, p.201. A ligação íntima entre as idéias de Rosenzweig e de James foi sugerida pela primeira vez por Ernst Simon em 1953.
40. Jürgen Habermas observa corretamente que a expectativa de consenso universal é construída em qualquer conversa e que sem ela a expectativa de comunicação seria totalmente inconcebível. O que ele não diz, porém, é que, se existe a crença de que o consenso será atingido em circunstâncias ideais em função de “uma única verdade” à espera de ser descoberta e aceita como tal, então algo mais se “embute” em qualquer ato de comunicação: a tendência a tornar redundantes todos os participantes da conversa, exceto um, juntamente com a variedade de visões que eles sustentam e defendem. Odo Marquard, em Abschied vom Prinzipiellen (Leipzig, Philipp Reclam, 1991), sugere que por essa interpretação o ideal de “comunicação não-distorcida” parece uma vingança póstuma do solipsismo…
41. Ver o capítulo “Living and dying in the planetary frontier-land”, em meu Society under Siege. Oxford, Polity, 2002.
No comments yet

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: