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Uma criança entre nós

25/12/2009

Por Marina Silva

Nesses últimos dias do ano, tenho recorrido muito à filosofa e historiadora alemã Hannah Arendt (1906-1975), de quem gosto muito. Seus textos mais mencionados são os que investigam o fenômeno do totalitarismo e expõem o seu conceito da “banalidade do mal”. Em seu livro Eichmann em Jerusalém, um dos monstros nazistas é retratado pela pensadora, que era judia, como alguém desesperadamente humano, para desgosto de todos nós.

Mas não nos enganemos. Ela não se ateve apenas em investigar o lado sombrio da existência. Muito pelo contrário. Fé e esperança também estão em seus escritos. Em seu excelente livro A Condição Humana, ela discorre, em um dos capítulos, sobre “A imprevisibilidade e o poder de prometer”, e chega a uma bela constatação. “A solução para o problema da imprevisibilidade, da caótica incerteza do futuro, está contida na faculdade de prometer e cumprir promessas”, diz ela. E, neste fim e começo de ano, é por esta perspectiva que procuro olhar.

Passamos o ano todo transitando entre nosso legítimo desejo de amplitude e nossas limitações para realizá-la. A inexorabilidade do tempo denuncia os fracassos por não conseguir fazer o que se planejou durante o ano que agora finda. E chega o Natal, trazendo novamente a oportunidade do renascer por meio da mudança que tanto ansiamos, na forma de um novo compromisso.

Para Arendt, “essa fé e esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os evangelhos anunciaram a ‘boa nova’: Nasceu uma criança entre nós”.

Precisamos todos dessa boa nova que vem na forma de um nascimento. Não para repetir, mas para reeditar a vida, a cada momento, como a gente precisa. Uma vida que se renova não do ponto de vista físico ou biológico, mas na perspectiva dos sonhos, da esperança, do encontro e das vontades.

Quando Deus nasce também como uma criança e tem de viver a fragilidade humana, a busca pelo amparo, pelo suporte do outro, de alguém que o ensine, que o eduque, que o acolha, há uma aproximação tão radical com a condição humana, que faz com que sintamos grande identificação. “O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e ‘natural’ é, em última análise, o fato do nascimento”, escreveu a filosofa alemã.

Pois que seja assim: que nesses dias de reuniões, de abraços, de encontros, de arranjos e de concertos, que haja oportunidade para o novo nascimento, para a renovação da esperança e de nossa fundamental capacidade de fazer e de cumprir promessas.

Fonte:http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4174199-EI11691,00-Uma+crianca+entre+nos.html
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