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Dignidade da política: por amor ao mundo

19/10/2009

Discutir política a partir do legado arendtiano é falar sobre a dignidade e o papel da verdade nas instituiçoes contemporaneas ante ao vazio generalista que a humanidade se encontra, na brecha deixada pela ruptura entre o passado e o futuro, para usar a expressão tão cara a Hannah Arendt.

Alguns, por se pautarem em premissas distintas, podem ver nesse diálogo uma utopia, um idealismo. Mas é no espaço entre o niilismo e a utopia que pretendemos alcançar uma dimensão de existência para o homem do século XXI.

Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser” nos traz a reflexão sobre a dualidade, sobre os extremos, colocando a pergunta sobre a possibilidade de conciliar peso e leveza em face do absurdo da existência humana. O peso é o apego à Terra, que nos permite a realização vital, a vida real, sensível, humana. A leveza faz com que o ser humano se livre do fardo de sua existência mundana e voe, tornando-o semi-real, permitindo que ele realize movimentos tão livres quanto insignificantes. Pautados em outra contradição, niilismo-utopia, pretendemos entender aqui o significado da existência política do homem dentro dos limites e das contingências da sua situação no mundo. O niilismo nos aproxima da realidade, nos faz dobrar diante dos fatos e da situação a que chegamos no nosso caminhar histórico. A utopia se coloca diante dos olhos humanos, quando esses deixam de olhar para trás ou para baixo; ela planta a vontade, que vence o medo, a desesperança e a angústia e faz a Terra continuar girando dentro do coração dos homens. Talvez ambas, longe de se separarem e de se antagonizarem, se complementem. Talvez nem peso nem leveza, nem niilismo nem utopia; talvez o equilíbrio, o ponto eqüidistante, para sermos fiéis a Aristóteles. A dualidade pensada por Parmênides, antes de nos dar uma resposta, coloca para nós o desafio de superá-la.

Podemos abraçar a descrença ao pensar que tudo vai se repetir na dialética da história: a idéia do eterno retorno, que nos prende na eternidade. Contudo,  entendemos que a consciência de que tudo vai recomeçar, antes de nos destruir, deve conferir ao homem uma esplêndida leveza. Já que existe um retorno, ao inverter a consideração do mundo da mortalidade para a natalidade, Arendt nos permite entender esse eterno retorno não como um fardo, mas como uma bênção: a possibilidade de recomeçar e de inovar, inerente a cada nascimento, cria a medida de horizonte necessária que nos faz seguir em frente, nesse tempo de estrutura circular e dialética.

Se é certo que nossa realidade nos defronta com a indiferença aos assuntos do mundo e com a demissão do homem da sua função maior, que é a de pensar, nessa estrutura alienante que destrói o nosso sistema educacional, interrompendo a formação do indivíduo cidadão, condenando a natalidade ao árido terreno da falta de escolhas e com isso boicotando o futuro, também é certo que a consciência dessa questão, se seriamente considerada, pode gerar a transformação. A proposta de mudança, ao negligente e indiferente homem-de-massa do século XX, pode ser abraçada pelo homem do século XXI, quando este buscar olhar o horizonte diante de si, acima dos muros da necessidade e da fatalidade. Pensar, querer e julgar, as três atividades da vita contemplativa que, aliadas à ação, permitem ao homem, enquanto ser hiperbóreo, olhar adiante e ver um norte, rumo à transformação dessa situação desoladora.

Uma democracia construída sobre um sistema representativo cheio de vícios, corruptível, demagogo e burocrata. Um direito que é objeto de consumo e instrumento de uma estrutura de poder erigida no descaso do homem, que rejeita sua condição de pluralidade, perdendo seu amor pelo mundo, abdicando de sua faculdade de julgar, para vivenciar o cotidiano da luta pela sobrevivência e da satisfação dos desejos sempre renováveis plantados em seu coração por uma perspectiva antropológica irracional e mesquinha. A contingência amargurante, que permite a burocracia tomar o lugar da (cri)ação e viabiliza a tirania, o totalitarismo, a alienação globalizante de um mundo cujo fator de integração são os mercados e as exigências da economia global, onde público e privado se confundem e se perdem, gerando a estagnação e a conformação do indivíduo, que não reconhece mais o mundo como seu lar. Essa é a nossa realidade e em nenhum momento podemos perder esse chão para construir qualquer reflexão sobre a dignidade da política tal qual a proposta de Hannah Arendt.

Importa ver, nas palavras da pensadora que recusou os rótulos e se afirmou como cidadã do mundo, o horizonte que se pensa perdido, colocando novamente o céu acima de nós, resgatando nosso horizonte. No mundo do eterno retorno, em que cada gesto contém em si a possibilidade de um novo começo, perder o horizonte é perder o mundo. E é justo no resgate do amor e da responsabilidade pelo mundo que se insere o legado intelectual arendtiano. Pugnar pela reconstrução da esfera pública, nutrir a esperança na referência à natalidade, afirmar o homem como ser pensante e capaz de julgar e colocar nas suas mãos a responsabilidade por esse mundo, que é a sua casa: antes de isso significar um idealismo vazio (do qual Arendt foi feroz combatente), esse múltiplos resgates significam um fardo para a humanidade, o fardo que a aproxima da realidade, colocando diante de si a possibilidade de realização vital sob o céu da esperança de cada nascer, que é o acontecer do novo, de novo.

Todos os homens são mortais: essa é a condição indelével da vida humana. Porém, o homem vive entre o que ele pensa e o que ele é, entre seu querer e seu fazer. Na mortalidade vemos o fim. Na natalidade, o começo. Nossa mortalidade é o limite do corpo. Quando nascemos, o fazemos para vencer os limites da vida, afirmando sua continuidade. No nascer de cada indivíduo reside a genialidade e a força que devolve a magia e a esperança ao mundo, esse mundo que é a nossa morada, a nossa casa, sobre a qual temos toda a responsabilidade e de cuja estrutura e formas somos os arquitetos.

É na afirmação do amor pelo mundo e da responsabilidade sobre ele que se inscreve a contribuição de Hannah Arendt no pensamento político contemporâneo. Resgatando a dignidade da vita activa, Arendt resgata também o valor da vida enquanto presença na Terra. Imputando ao homem a responsabilidade pelo mundo, ela convida a humanidade a voltar os olhos para as coisas, as pequenas coisas. De posse das pequenas coisas e tendo em vista o horizonte de possibilidades que o céu da esperança coloca diante dos homens, devemos construir um mundo melhor. Por amor ao mundo, eis o nosso dever em relação a ele.

“There is a strange interdependence between thoughtlessness and evil”

Hannah Arendt

Hannah Arendt

Ludmyla Franca, mestra em Direito pela Universidade Ferderal da Bahia, pesquisadora do Grupo de Estudos e Arquivo Hannah Arendt – Brasil, é editora deste blog e redigiu este ensaio.

3 Comentários leave one →
  1. Margareth permalink
    04/11/2009 22:08

    Nossa, era tudo que eu precisa e veio a mim como um presente, como um milagre. E falar em Arendt é nao ter medo de falar em milagres, na possibilidade do inesperado, da ação, da possibilidade da política.

    Sou mestranda em Educação na UFES, com a dissertação sobre a experiencia do municipio de Vitória para compreender Hannah ARendt, algo mais ou menos assim. Este blog está muito bom. Parabéns pelo trabalho e, desculpe a franqueza, se eu puder participar ou visitar aqui e dialogar um pouco, para mim será uma honra muito grande.
    Abraços fraternos.

  2. Claudia Las Casas permalink
    07/06/2015 10:02

    Texto precioso! Sou mestra em Direito Constitucional e a minha dissertação aborda o tema da educação política como um minimo existencial a ser concretizado no âmbito do direito humano e fundamental à educação. Seu texto é perfeito. Indico aos meus alunos que dão os primeiros passos na filosofia do direito e ao meus colegas veteranos de guerra de cansados da luta ingrata imposta pelo nosso sistema educacional esquecem por vezes sua meta, ampliar liberdade! formar pensadores.

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