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Sobre a infancia, por Alexandre Fernandez Vaz*

11/10/2009

Imagens do que somos

O EXCESSO DE IDEALIZAÇÃO DO QUE É SER CRIANÇA PODE REFLETIR NO MUNDO ADULTO

Celebrado pelo comércio como uma de suas datas mais importantes, e irresistível apelo a nossas expectativas mais inconfessáveis, o Dia da criança pode ser um pretexto interessante para pensarmos sobre essa condição tão moderna, tão contemporânea que é a infância. Produção iluminista associada à educação, a infância suscita todo tipo de interesse, seja porque nos lembra uma espécie de paraíso cuja queda há de ser geralmente lamentada pelo adulto, ou ainda, paradoxalmente, porque aparece como uma constante ameaça, estado em que seríamos reportados ao termos perdido nossa condição de autonomia da vida adulta. Essas fantasias que nos atormentam e nos assombram, mas também nos seduzem, precisam ser ponderadas. Como todas as utopias, mesmo as retrospectivas, à infância destinamos fortíssima dose de idealização. Por outro lado, como adultos, tampouco, somos tão autônomos e senhores de si, como gostamos de acreditar ou, ao menos, parecer.

Embora não se possa dizer de uma ausência da infância em épocas anteriores – em Platão aparece sugerida, Tomás de Aquino dela se ocupa, mesmo que indiretamente –, é na modernidade que ela alcança o estatuto de problema, uma delimitação que a faz ser tema filosófico e político. Não por acaso, em grande medida o discurso iluminista forja a infância, de Rousseau a Montaigne, de Condorcet a Kant. Com eles, e depois com Piaget, Vygotsky, Benjamin, Adorno, entre tantos outros, as crianças vão surgindo como tema, como preocupação a se interpretar as singularidades.

A experiência histórica da modernidade vai aos poucos desenvolvendo todo um conjunto de sentimentos em relação à infância, vista tanto como natureza a ser corrigida – pela escola, pelos adultos, pelo Estado – quanto como refúgio da pureza perdida. A história cultural, representada especialmente pelo conhecido livro de Philippe Ariès, “L’Enfant et la Vie Familiale sous l’Ancient Régime” (publicado a primeira vez em 1973 e traduzido no Brasil, 15 anos depois, sob o título de “A História Social da Criança e da Família”), mostra como se desenvolveu o sentimento que leva a criança a ser considerada uma personagem com especificidade na vida privada – e também na vida pública –, e que se torna objeto de todo tipo de cuidados e intervenções por parte dos adultos.

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Quatro décadas antes, Walter Benjamin, em mais de um de seus magníficos ensaios sobre a infância, já mostrara como essa sensibilidade vai se construindo em compasso tenso com o desenvolvimento das possibilidades de produção material, resultando em um novo lugar para os brinquedos infantis (Spielzeugen – em alemão, literalmente, instrumentos de brincar), já não mais um produto secundário das marcenarias e fundições corporativas, mas produto de uma nascente indústria que a ele se dedica, com público consumidor garantido: adultos que projetam sobre as crianças suas expectativas, pequenos que reorganizam, na brincadeira, o lugar de cada brinquedo, atribuindo-lhes novos sentidos, assumindo sobre eles uma soberania insuspeitada.

Se há um crescente e inequívoco interesse pela infância na modernidade, ele aparece em múltiplas faces no contemporâneo. Uma delas, algo sombria, foi exposta naquele que foi o primeiro livro publicado por Milan Kundera, no final dos anos 1970, após deixar a então República Tchecoslováquia e se exilar na França. Ela se refere a um eixo do totalitarismo, aquele anteparo, como lembra Hannah Arendt, que faz fronteira com a política, ao degradá-la. O totalitarismo, assim como a infância, é uma marca dos tempos contemporâneos. Em “O livro do Riso e do Esquecimento”, Kundera rememora um passado que lhe era recente e cujas feridas permaneciam ardidas.

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Ao mesclar cenas autobiográficas, personagens reais e fictícios e recursos metanarrativos, Kundera encontra o que seriam os contornos de seu texto: “Este livro todo é um romance em forma de variações. As diferentes partes se seguem com diferentes etapas de uma viagem que conduz ao interior de um tema, ao interior de um pensamento, ao interior de uma só e única situação cujo sentido se perde para mim na imensidão”. A frase faz parte da sexta parte do livro, que se chama, emblematicamente, “Os Anjos”, uma imagem, aliás, bastante recorrente, em nossa ocidentalidade, para designar as crianças. O tema da infância materializa, no volume, uma das variações executadas por Kundera. Trata-se lá da experiência onírica de uma personagem mulher e adulta que, ao mergulhar na tristeza, encontra uma ilha onde vigora a lei das crianças, uma mistura de riso, nudez, excrementos, circularidade e sexualidade polimorfa. Um sem sentido que se esgota no mesmo momento de sua realização. Para Kundera, as crianças, ao não terem passado, aparecem, nessa sua face perversa, como atualização do esquecimento.

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As tiranias políticas são costumeiras produtoras de esquecimento e por isso se ocupam tanto das crianças, como já destacara certa vez Hannah Arendt. Mais que isso, procuram, a todo custo, infantilizar os adultos. Por isso, Kundera é tão amargo, ao comparar a degeneração materializada pelos lapsos do pai moribundo às odes que as crianças repetem aos líderes totalitários, tão afeitos ao culto à personalidade: “As crianças não são o futuro porque um dia serão adultos, mas porque a humanidade vai se aproximar cada vez mais da criança, porque a infância é a imagem do futuro”.

As tiranias abolem as diferenças e antinomias entre adultos e crianças e, com isso, eclipsam as experiências que a cada um correspondem. Ao mesclarem uns aos outros, infantilizam os primeiros e degradam aquilo que reafirma os pequenos em sua singularidade, em seu momento de resistência aos movimentos reificadores da vida contemporânea. Encolhimento da esfera pública, exposição absurda da vida privada, corrida eleitoral: não vivemos sob totalitarismo estatal, mas sob violenta dilapidação da política. Nossas crianças, por sua vez, são expostas continuamente ao fim da própria experiência, seja pelo consumo como critério de cidadania, ou pelas enormes demandas que se colocam sobre elas, entre elas – como nos anos 1950 destacou Hannah Arendt no contexto das políticas anti-segregacionistas estadunidenses –, que resolvam os problemas que os adultos têm se mostrado incapazes de solucionar. E mais: que nos ofereçam amor infinito, que sejam bem sucedidas, alegres, competitivas. Adultos infantilizados, crianças impedidas de crescer. As decorrências já conhecemos. Resta saber o quanto somos capazes de nos deixar perturbar por elas.

* Alexandre Fernandez Vaz é professor do Centro de Ciências da Educação da UFSC e pesquisador do CNPq.

Disponivel em: http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2680410.xml&template=4187.dwt&edition=13297&section=1361

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