Skip to content

Hannah Arendt, figura essencial para quem quer entender o século XX

07/01/2009

https://i0.wp.com/farm1.static.flickr.com/184/449945817_6fc93197cf_o.jpg

Qualquer tentativa de compreender o que foi o século XX, no plano filosófico e político, passa necessariamente por duas obras: Origens do Totalitarismo (1951) e Eichmann em Jerusalém (1963), ambas de autoria de Hannah Arendt, alemã de ascendência judaica. Na primeira – dividida em “Anti-semitismo”, “Imperialismo” e “Totalitarismo” –, ela procura analisar de que modo se forjou na Europa uma verdadeira máquina de destruição, capaz de levar ao horror do holocausto. Já no polêmico Eichmann, que nasceu de uma série de artigos publicados na revista The New Yorker, Hannah trata da “banalização do mal”, a partir do julgamento de um nazista. Pensadora mas também personagem de um tempo espantosamente cruel, que sofreu na pele a perseguição do regime de Hitler – obrigada a fugir da Alemanha devido à sua origem judia, acabou se exilando nos Estados Unidos –, Hannah construiu uma sólida carreira filosófica baseando-se em reflexões sobre sua própria época, vale dizer, unindo pensamento e vivência. Apresentar essa extraordinária figura equilibrando as duas faces de sua trajetória foi o desafio que se impôs a francesa Laure Adler na alentada biografia Nos Passos de Hannah Arendt. O resultado: um retrato definitivo, escrito com clareza – apesar da complexidade natural de passagens que se aprofundam em temas discutidos por Hannah –, de uma das raras vozes femininas a surgir com destaque nos compêndios de filosofia.

Laure Adler não passa ao largo dos defeitos de Hannah – omitir, às vezes, o peso de contribuições alheias para suas idéias; quase nunca reconhecer os próprios equívocos; jamais reconhecer o verdadeiro valor intelectual de seu primeiro marido, Günther Anders (pseudônimo de Günther Stern), um dos pioneiros no estudo da ficção do checo Franz Kafka. A admiração, no entanto, se sobrepõe aos defeitos.

Nascida em 1906, no subúrbio de Linden, em Hannover, Johannah Arendt foi uma menina precoce. Quando o pai morreu, em 1913, não havia completado 7 anos de idade; mesmo assim, procurou consolar a mãe: “Pense – isso acontece com muitas mulheres”, disparou, para estupefação da viúva. Na Universidade Marburg, ela conheceria Martin Heidegger, com quem iria iniciar um complicado relacionamento amoroso: o professor era casado e nem de longe cogitava separar-se da esposa. Em 1933, Heidegger aderiu ao nazismo e Hannah, depois de passar oito dias na prisão, deixou seu país natal. Morou em Paris, com Günther Stern, e, em 1941, já unida a um novo homem, Heinrich Blücher, e depois de uma estada em Portugal, sobrevivendo de grão-de-bico e repolho, conseguiu chegar aos Estados Unidos, onde fixaria residência, naturalizando-se americana em 1951.

Não por acaso, é essa fase da vida de Hannah que constitui o ponto alto da biografia de Laure Adler: foi nos Estados Unidos que ela escreveu seus livros de vulto. O relato do caso Adolf Eichmann é particularmente rico em detalhes acerca da impaciência de Arendt diante das sessões do tribunal e da celeuma provocada ao abordar em seu texto a conduta dos Conselhos Judaicos, que no início da II Guerra haviam aceitado fazer um inventário para os nazistas de suas comunidades, o que facilitou a repressão aos judeus.

Hannah costumava despertar paixões em homens e mulheres. Ela nunca cedeu às investidas do romancista austríaco Hermann Broch e também não aceitou se entregar ao poeta inglês (e homossexual) W.H. Auden, que disse amá-la; já com Hilde Fränkel, companheira do filósofo Paul Tillich, envolveu-se intimamente. Blücher – que teria formulado o conceito de “banalidade do mal” – sabia da relação entre as duas.

A amizade autêntica era um bem precioso para Hannah. Karl Jaspers, que orientou sua tese de doutorado, foi um de seus amigos eternos: só se separaram com a morte dele, em 1969. A escritora americana Mary McCarthy, igualmente, fez parte desse grupo seleto; a correspondência entre ambas é um documento valioso, que Adler talvez pudesse ter explorado mais. Quando Hannah morreu, em 1975, foi Mary quem assumiu a tarefa de organizar seus datiloscritos e editar A Vida do Espírito, a última obra da filósofa – que, injustamente, não gostava de ser chamada dessa maneira.

A BANALIDADE DO MAL

Um dos conceitos fundamentais de Hannah Arendt, a “banalidade do mal”, aparece em Eichmann em Jerusalém. Ela voltou ao tema em uma conferência de 1970:

“Há alguns anos, em um relato sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém, mencionei a ‘banalidade do mal’. Por mais monstruosos que fossem os atos, o agente não era nem monstruoso nem demoníaco; a única característica específica que se podia detectar em seu passado, bem como em seu comportamento durante o julgamento e o inquérito policial que o precedeu, afigurava-se como algo totalmente negativo: não se tratava de estupidez, mas de uma curiosa e bastante autêntica incapacidade de pensar”.

disponível em: http://veja.abril.com.br/090507/p_136.shtml

No comments yet

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: