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Hannah Arendt

24/12/2008

Nos passos de Hannah Arendt

Ubiratan Brasil

Descobrir toda a complexidade de Hannah Arendt – a meta da escritora francesa Laure Adler, ao iniciar a pesquisa sobre a vida e obra de uma das mais importantes pensadoras da política do século passado, era estimulante. Autora de uma biografia de Marguerite Duras, Laure não buscava apenas o retrato da intelectual, da filósofa, da escritora, mas principalmente desvendar a mulher que conhecia o sofrimento, a mulher obrigada a procurar seu lugar, tanto intelectual como físico, entre a língua alemã e a cultura judaica, entre uma paixão proibida (pelo filósofo Heidegger) e a rotina de esposa, entre o amor pela filosofia e o gosto pela política.

Hannah acreditava ter vindo ao mundo para cumprir uma sina. ‘Em nome de suas próprias idéias, ela escolheu, durante 60 anos, questionar-se sobre o que produz o mal, sobre o que vai mal: as violências políticas, os totalitarismos, o conflito israelense-palestino, o crescimento incessante da sociedade de consumo, o aumento do número de refugiados no mundo, a redução do espaço público, a degradação de nossas liberdades’, comenta Laure, que não só se debruçou sobra a obra de Hannah Arendt (1906-1975) como visitou os lugares onde ela viveu, pesquisa que resultou no livro Nos Passos de Hannah Arendt (644 páginas, R$ 75).

Trata-se de um relato sobre os anos de formação da pensadora, marcados pelo contato com dois mestres (Martin Heidegger e Karl Jaspers), além da construção de sua obra, caracterizada pelo esforço de explicar os acontecimentos políticos de sua época, especialmente o aparecimento dos regimes totalitários. ‘Ela sempre confessou suas incertezas, assumiu sua violência – pronta para ser insultada – e reivindicou seu lugar de pessoa politicamente incorreta, sabendo que pagaria caro por isso.’

Laure visitou lugares onde Hannah viveu e, graças à confiança de Jerome Kohn, herdeiro testamentário da filósofa, teve acesso à sua correspondência inédita e numerosos trabalhos. Descobriu, assim, uma mulher para quem a filosofia não era saber tudo, mas saber de si mesmo como princípio de acesso à liberdade. ‘Seu talento mais evidente era a atividade do espírito’, comenta Laure, em conversa com o Estado por e-mail.

Teórica política do momento pós-totalitário, Hannah exibia capacidades intelectuais que a impediam de desfrutar a existência. Para ela, pensar era um dom. Era como se um raio lhe caísse na cabeça, na visão de Laure. ‘Ela se alongava, inclinava a cabeça para trás, abria os olhos, mirava o teto e colocava os braços embaixo da cabeça. Isso podia acontecer-lhe em qualquer lugar. Seus amigos sabiam. E se retiravam na ponta dos pés para não atrapalhá-la.’

https://i2.wp.com/marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/images/arendt.jpg

fonte: http://www.estado.com.br/editorias/2007/03/25/cad-1.93.2.20070325.6.1.xml

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