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Trechos de “Nos passos de Hannah Arendt”, de Laure Adler

22/09/2008

“Temperamento vivo”

Hannah, Johannah no estado civil, nasce em casa, como de costume na época, em 14 de outubro de 1906, um domingo, às 21h30, depois de vinte e duas horas de contrações. A mãe, num caderno intitulado Unser Kind, “Nosso bebê”, conservado nos Arquivos Arendt na Biblioteca do Congresso, em Washington, anotou a evolução do bebê a partir de 3 de dezembro de 1906. Esse diário, uma espécie de caderno escolar, é um documento manuscrito no qual Martha anotava a evolução física e psicológica da filha. Ele acompanhou Martha aos Estados Unidos, e Hannah Arendt o guardou preciosamente. Hannah, desde as primeiras semanas de vida, sofre de eczema. A mãe encontra vários defeitos na filha: mãos e pés grandes demais, voz rouca e muita excitação.

Hannah dorme profundamente desde o nascimento. Adulta, conservaria o prazer desse sono pesado. Ela sorri na sexta semana, “brilha” desde a sétima. A mãe adora essa palavra. Hannah, pequenina, expressa as suas emoções: ri com as canções alegres, chora com as sentimentais. A mãe percebe que ela precisa dos outros: “Ela não gosta de ficar sozinha.”

Aos onze meses, Hannah cantarola bastante, com uma voz forte. Aos doze, adora ficar ao lado do piano, escutar e cantar. Aos quinze meses – é cedo! – sabe responder à pergunta: “Quem é você?” Aos dois anos e meio, confundem-na com uma criança de quatro anos. Seu temperamento é muito vivo, muito alegre, e sua curiosidade enorme. A mãe observa o quanto a pequena, “muito doce”, gosta de se encolher em seus braços.

Em 1909, a família sai de Linden rumo a Königsberg. Mais tarde, a cidade mudaria de nome, de população, de configuração: em 1946, data da anexação de uma parte da Prússia Oriental à União Soviética, passa a se chamar Kaliningrado, em homenagem a Kalinin, antigo presidente da URSS. Hoje, é um enclave russo cercado pela Polônia e a Lituânia, países membros da União Européia. Hannah nunca pôde voltar aos lugares onde passou a infância e a adolescência, pois a cidade, à beira do mar Báltico, transformada num importante porto militar, era proibida aos estrangeiros. É preciso ir ao Instituto Histórico Alemão consultar antigos atlas fotográficos e livros de história para tentar imaginar a atmosfera dessa cidade provinciana e sossegada que era Königsberg nos tempos da juventude de Hannah. Num desses livros de imagens, um pintor de domingo imortalizou uma cena de rua da cidade no início do século. O tempo está bonito. É verão. As mulheres vestem saias compridas, camisas de renda, grandes lenços na cabeça. Os homens estão todos de terno e gravata e chapéu. No terraço de um café, uma mãe e sua filha têm os lenços abaixados sobre a nuca mas continuam de luvas. A mãe observa os transeuntes, a filha lê o jornal.

Em Essen, na Renânia do Norte-Vestfália, na casa de Edna, a sobrinha de Hannah, encontro num cartão a foto da menina no colo do avô Max, que a adorava: no pátio em frente à casa, ela sorri para a objetiva nos braços do ancião. Martha não gosta de se separar da filha. No dia 19 de fevereiro de 1911, ela anota: “Hannah suporta muito bem o inverno. […] Temperamento: muito vivo, interessa-se por tudo o que a rodeia. Nenhum interesse pelas bonecas […] Com seus quatro anos, ela é uma pequena tão grande e segura que as pessoas a tomam por uma menina que vai à escola.”4

“Ela tem cabelos compridos e muito bonitos. É linda e saudável. Canta muito, quase com paixão, mas com muitas notas falsas […] Não vejo nenhum talento artístico e nenhuma habilidade manual: por outro lado, vejo uma precocidade intelectual e talvez uma capacidade particular, como por exemplo o senso de orientação, a memória e uma capacidade de observação afiada. Mas antes de tudo um enorme interesse pelas letras e os livros…”

Martha e Paul se estabelecem em Königsberg em 1910 devido à doença desse último, que logo o impedirá de trabalhar. Nunca, no caderno da mãe, o nome da doença é mencionado, e isso por um motivo: ela é vergonhosa. O clã familiar, tanto do lado do pai quanto do lado da mãe, será solidário a essa jovem obrigada a tomar conta do marido dia e noite.

As duas famílias são judias liberais, cultas e com uma boa situação financeira. Martha, como a maioria das mulheres de sua classe e geração, fez seus estudos em casa com um preceptor, e depois foi estudar música e língua na França durante três anos. Apaixonou-se pelas novas teses sobre educação que preconizavam o respeito pela individualidade das crianças em vez de aniquilar sua personalidade pela obediência. Era ligada a um grupo de mulheres que tinham aberto jardins de infância e escolas de ensino fundamental de um novo modelo. Sem dúvida, é essa a razão pela qual decide escrever este diário íntimo sobre a filha, um verdadeiro diário de bordo dos primeiros anos dessa menina que ela considera, desde cedo, uma pessoa especial.

Martha, como o marido, é mais culta e mais engajada do que os próprios pais. Todos os dois, socialistas desde a juventude, compartilham o ideal de um mundo mais igualitário e aderem a um partido ainda ilegal na Alemanha. Paul e Martha vivem no fervor da alimentação intelectual. Hannah falará até o fim da vida da dívida com o pai, que lhe permitia pegar os livros de sua biblioteca, dentre os quais os clássicos gregos e latinos.6 Hannah não tem dificuldade em aprender a ler. A mãe se dá conta, quando a coloca num jardim de infância, de que ela já havia aprendido a ler sozinha. Ela passa o tempo imitando a professora, o que deixa Martha satisfeita.

disponível em: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/090507/trecho_passos.html

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