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Trechos de “Nos Passos de Hannah Arendt”, de Laure Adler

20/09/2008

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CRIANÇA FEBRIL

Hanover, Baixa Saxônia, janeiro de 2004. O avião sobrevoa a cidade cercada pelas curvas do rio Leine, cavalos galopam pelos prados de um verde terno iluminado pelo sol de inverno. O contraste com a descoberta da cidade será ainda mais brutal. Uma longa rua de pedestres, uma sucessão de edifícios de concreto, bancos, corretoras. A cidade natal de Hannah Arendt, onde Leibniz se estabeleceu a partir de 1676 como bibliotecário e historiador na corte do ducado, foi destruída pelos bombardeios na Segunda Guerra Mundial. 1 Hannah Arendt nasceu em Linden em 1906, nos arredores de uma cidade que foi arrasada. Será essa a razão de nunca mais ter desejado retornar a seu local de nascimento nas diversas visitas à República Federal da Alemanha depois de dezembro de 1949? Ela passou a infância, desde os dois anos, e a adolescência em outra cidade, igualmente destruída, a cidade de Kant: Königsberg, na época pertencente à Prússia Oriental, hoje, Kaliningrado.

Hanover se lembra dela. Uma rua e uma escola têm o seu nome. Todos os anos, a universidade organiza “jornadas Hannah Arendt”, nas quais filósofos do mundo inteiro vêm comentar a sua obra. Uma sala consagrada a ela – com objetos pessoais: sua maleta de couro marrom com suas iniciais em dourado, suas canetas, seus diplomas e suas condecorações (protegidos com vidro, o prêmio da universidade de Copenhague, o prêmio Sigmund Freud, o certificado da academia de Darmstadt e a medalha da Universidade de Chicago) e todos os seus livros traduzidos para o alemão – acaba de ser inaugurada no primeiro andar da biblioteca municipal da cidade. Que ironia do destino para uma mulher que não gostava dos símbolos ostentatórios de reconhecimento!

Num café no centro do bairro de pedestre, os professores Detlef Horster e Peter Brokmeier me explicam o interesse dos estudantes por Hannah Arendt. O primeiro, nascido em 1942, é professor de filosofia moral, o segundo, nascido em 1935, de ciências políticas. Todos os dois ministram cursos sobre Hannah Arendt. Brokmeier lembra que em Berlim Ocidental, no final dos anos 1960, sua reputação era péssima: “Fazíamos parte de um grupo da esquerda radical. Depois de tê-la ignorado durante longo tempo, até porque não era possível encontrar suas obras nas prateleiras da biblioteca da universidade onde eu trabalhava, tive vontade de saber o que escrevia essa mulher de quem meus camaradas falavam tão mal. Eles me diziam que ela colocava o comunismo e o nazismo no mesmo nível. Acrescentavam que ela confundia todos os valores e que era uma ideóloga perigosa. De tanto ouvir falar mal, acabei ficando interessado em saber mais: quis ir às fontes. Descobri seu livro Origens do totalitarismo. Parei logo de lê-lo. Estava escandalizado. Foi preciso muito tempo e um longo desvio pela história das idéias políticas para retomá-lo. Minha incompreensão não vinha dos textos de Hannah Arendt, mas dos meus preconceitos marxistas. Eu havia pesquisado durante longo tempo as possibilidades de tornar o marxismo sensato. Já tinha entendido que seria difícil. Até o dia em que percebi que seria impossível. Graças a Hannah Arendt. Foi um pouco antes da queda do Muro.”

Sua obra é incômoda, tão forte que pode mudar nossa visão de mundo e nossas tomadas de posição, abrir portas, dar impulso. Mas é também impossível de ser apoderada. Em movimento permanente, o pensamento de Arendt nunca se deixa reduzir a uma opinião, uma categoria, uma ideologia. Não se deixa fechar num grupo político. Ela mesma tentou redefinir e circunscrever o que é a política: “A política baseia-se na pluralidade dos homens”, escreve ela em 1950. “[…] o homem é a-político. A política surge no entre-os-homens; portanto totalmente fora dos homens. Por conseguinte, não existe nenhuma substância política original.”2 Ela própria não se importava em ser rotulada como de direita ou de esquerda e dava a impressão de não se preocupar com isso. Qual era, então, a sua preocupação? Poder pensar com toda a liberdade, alimentar-se de leituras até não poder mais, como testemunha a sala que lhe é dedicada na biblioteca de Hanover.

Nas prateleiras, inúmeros livros, algumas correspondências, o exemplar original de Eichmann em Jerusalém, minuciosamente anotado, com correções em alemão e em inglês em mais de um terço do livro – prova, caso houvesse necessidade, de que levou em conta certas críticas que lhe foram dirigidas e de que verificou algumas de suas afirmações após a tempestade de ódio desencadeada pelo texto.

É na época do processo Eichmann, na primavera de 1961, que o jovem Horster escuta pela primeira vez o nome de Hannah Arendt. Ele descobre, com o processo, a existência dos campos de concentração. Transtornado, quer saber as razões do silêncio familiar: “Perguntei à minha mãe: ‘Por que você nunca me falou dos campos?’ Ela me respondeu gritando: Nunca falaremos sobre isso em casa.’ No dia seguinte, triunfante, minha avó diria que, no processo, uma jornalista americana chamada Hannah Arendt acabava de explicar que os judeus também eram culpados. ‘Enfim uma mulher que diz a verdade.'” Horster ficou sabendo nesse mesmo dia que sua mãe e sua avó haviam pertencido ao partido nazista.

Linden, o local de nascimento de Hannah, é hoje um subúrbio próximo de Hanover. Antes da Primeira Guerra Mundial, Linden era um grande povoado de mais de vinte mil habitantes, onde vivia uma população operária. Atualmente, Linden se tornou um bairro chique, meio burguês, onde vendedores de frutas e legumes orgânicos dividem a paisagem com galerias de arte contemporânea. Linden foi poupada durante a guerra e o edifício burguês dos anos de 1880 onde Hannah nasceu, na pequena praça do mercado, não foi restaurado. Uma placa comemorativa foi pendurada, mas aqui ninguém sabe quem é Hannah. Tive uma idéia de como era o bairro na época de seu nascimento conversando com o farmacêutico que mora no térreo do imóvel. Ele some nos fundos da loja e volta com uma foto sépia do edifício no início do século. À exceção das charretes e da arquitetura rococó do quiosque do jornaleiro, nada mudou nesse ambiente sossegado e pequeno-burguês onde Hannah viveu seus dois primeiros anos de vida.

De seu pai, Paul Arendt, sabe-se que trabalhou numa usina de máquinas agrícolas de Linden.3 Ele deixara sua cidade natal de Königsberg para ir a Berlim, onde viveu os primeiros anos de seu casamento. Paul fizera seus estudos na Albertina, a prestigiosa universidade de Königsberg, de onde saiu formado. Único filho homem, ele tinha uma irmã, Henriette, que Max tivera em seu primeiro casamento, com Johanna. Depois da morte desta, Max casara com sua cunhada Klara, conhecida pelo mau-caráter, a intolerância e a arrogância. Terá sido para fugir dessa madrasta, que era também sua tia, que Paul propôs à sua jovem esposa, Martha, deixar o ambiente, sem dúvida protetor, esclarecido, culto, porém pesado, de sua própria família para ir morar em Linden? Martha também nasceu em Königsberg. Seu pai, Jacob Cohn, nascido na atual Lituânia em 1830, imigrou em 1852 e, uma vez que Königsberg se tornava um ponto estratégico para o comércio de chá, abriu uma sociedade de importação. Jacob revelou um grande talento comercial, optando por importar chás russos em vez de ingleses, que estavam na época em posição de força no mercado. Foi assim que a Sociedade J. N. Cohn se tornou a primeira sociedade de chá da cidade. Sua mãe, Fanny Spiero, era uma emigrante russa com quem Jacob casou-se em segundas núpcias. Ele teve três filhos do primeiro casamento, e quatro com Fanny. Que tribo! Quando morreu, em 1906, deixou um capital de peso para a avó de Hannah e seus sete filhos. Fanny falava alemão com um forte sotaque russo. Pode-se vê-la vestida com roupas eslavas bem rústicas nas raras fotografias do álbum de família que Edna, a sobrinha de Hannah, me autorizou a consultar. Martha tem o jeito de uma moça firme, decidida, com os pés no chão. Ela não sorri, e até parece séria demais. Ao seu lado, Fanny. A avó e a mãe de Hannah eram e continuaram sendo sempre muito próximas. Todas as duas perderam seus maridos muito jovens. A viuvez as aproximava. A família de Hannah teve, sob vários aspectos, a aparência de um clã feminino. Juntas, as mulheres se unem contra a adversidade, vivem juntas, viajam em férias, dividem tudo. Hannah herdou a personalidade da mãe: corajosa, independente, orgulhosa, avessa à mentira, às vezes correndo o risco de chocar, sem medo de nada nem de ninguém.

“Nos passos de Hannah Arendt” – Laure Adler

disponível em: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/090507/trecho_passos.html

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  1. Diana Carvalho permalink
    09/03/2010 11:06

    HANNA ARENDT,
    EU TE AMO!!!!!!!!

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