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Mostra 68/Utópicos e Rebeldes

24/06/2008

Sala Cinemateca – São Paulo.

Largo Senador Raul Cardoso, 207, V. Mariana.

Fone: 3512-6111.

Entrada Gratuita. Até 6/7.

SÃO PAULO – A história da resistência dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde à censura, nos anos do regime militar, é um dos principais temas da exposição 1968 – 40 Anos Utópicos e Rebeldes – A Geração Que Disse Não, aberta anteontem na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. A convite do Ministério da Cultura e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, os dois jornais reuniram documentos, fotos, vídeos, painéis e coleções para narrar o que tem sido considerada por políticos e historiadores uma das mais belas páginas da história da luta pela liberdade de imprensa no País.A mostra, intitulada 1968 – Mordaça no Estadão, é a mais ampla já organizada sobre o tema. Permite ao visitante compreender desde os métodos de ação dos censores à estratégia adotada pela direção dos jornais para indicar ao leitor que o material de reportagem e opinião estava sob censura.

Sob a ditadura, enquanto quase todos os jornais do País aceitaram a determinação para que o material vetado pelos censores fosse substituído por outro, dando a impressão de normalidade democrática, o Estado recusou-se a participar disso. Passou a preencher os espaços vagos com trechos do épico Os Lusíadas, de Luís de Camões. O JT mostrou idêntica combatividade, recorrendo porém a inusitadas receitas culinárias.

Logo os leitores perceberam que algo estava errado; e com o passar do tempo o poema se transformou em sinônimo de censura e também “símbolo de resistência” – conforme expressão da historiadora Maria Aparecida de Aquino, na tese Censura, Imprensa, Estado Autoritário.

Na mostra estará exposto pela primeira vez o conjunto das páginas censuradas. São três grossos volumes, com quase mil páginas. “Por meio de monitores será possível acessar os textos e cotejar as páginas produzidas pela redação com as que foram impressas, após a tesoura do censor”, diz o historiador José Alfredo Vidigal Pontes, curador da mostra.

Cada visitante receberá uma fac-símile da histórica edição do Estado do dia 13 de dezembro de 1968 – espécie de link para entender o período. Aquele foi um ano de intensa agitação social, cultural e política no País, retratada com total independência pelos repórteres e articulistas do Estado e do JT. No dia 12 de dezembro, o Congresso Nacional, resistindo às pressões do regime, recusou a autorização solicitada para que um de seus membros, o deputado Márcio Moreira Alves, fosse levado a julgamento. No dia 2 de setembro, ele havia feito um discurso propondo à população que boicotasse as comemorações do Dia da Independência, para mostrar repúdio ao regime – fato que irritou os militares.

Na edição do dia 13, a seção Notas e Informações do Estado abria com o editorial intitulado Instituições em frangalhos, com críticas ao governo. À noite, quando o jornal começava a sair das oficinas para os carros de distribuição, o delegado regional da Polícia Federal em São Paulo, general Silvio Correia de Andrade, mandou recolhê-lo. Depois das oficinas, os policiais também foram às bancas capturar os exemplares já entregues.

É o fac-símile desse jornal que está sendo distribuído na mostra. “Resolvemos entregar aos leitores o jornal que não pudemos entregar há 40 anos”, diz o coordenador do Centro de Documentação do Estado, Marcelo Leite Silveira.

Ainda no dia 13 de dezembro, o presidente da República, general Artur da Costa e Silva, assinou o Ato Institucional n.º 5, que fechava o Congresso por tempo indeterminado, suspendia as garantias constitucionais e dava início ao período mais obscuro da ditadura militar.

A liberdade de expressão e a independência da imprensa foram os primeiros alvos. A censura aos jornais passou a ser feita por meio de telefonemas, telegramas, telex, com listas de temas que não podiam ser noticiados ou comentados. A situação deteriorou-se nos anos seguintes, com a ascensão ao poder do general Emílio Garrastazu Médici, até que no dia 24 de agosto de 1972 os censores se instalaram nos jornais e começaram a cortar textos nas provas de impressão.

O motivo dessa mudança foi uma notícia, pequena, informando que um dos prováveis sucessores de Médici era o general Ernesto Geisel. Como se tratava de um tema proibido pela censura, a represália foi imediata: no mesmo dia, às 22 horas, quatro homens da Polícia Federal chegaram ao jornal e desceram para as oficinas. “Pela sua independência, o Estado ficou sob marcação cerrada do regime”, diz Ari Schneider, editor de projetos especiais do Grupo Estado.

Os censores só foram embora no dia 3 de janeiro de 1975, às vésperas das comemorações dos 100 anos de existência do jornal. É esse período de quase três anos que está retratado na mostra. Num vídeo, os visitantes também poderão ouvir jornalistas da época contando como foram as relações com os censores.

Uma das últimas matérias que eles cortaram foi a tradução de um texto de página inteira publicado pelo New York Times sobre o centenário do Estado, apontando-o como um símbolo de resistência à ditadura. Não foi o único veículo de prestígio internacional a reconhecer a importância da luta do jornal.

Em 1974, o então diretor do Estado, Julio de Mesquita Neto, recebeu em Copenhague, na Dinamarca, o Prêmio Pena de Ouro, conferido pela Federação Internacional dos Editores de Jornais (Fiej); o Prêmio Mergenthaler , condecoração máxima da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), e a comenda de Cavaleiro da Legião de Honra, outorgada pelo presidente da França, François Miterrand.

Em Copenhague, ao receber a Pena de Ouro, que terá uma réplica exposta na mostra, o diretor do jornal disse: “Reconheço que editar diariamente um jornal censurado é uma tarefa ingrata. Mas capitular seria bem pior…”

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